MARATONISTAS DE CONTEÚDO

Dominando os lares americanos a partir da década de 1970, a TV criou todo um sistema cultural e comportamental que alguns chamam de “Home Enterteinement” (tradução: Entretenimento residencial). Essa cultura do “lar” e da família reunida em volta da TV, foi possibilitada pela criação de créditos de consumo e facilidade para adquirir casas e produtos domésticos, que então trouxe o “american dream” à tona. A TV seria a ferramenta da qual seriam vendidos os sonhos da sociedade do consumo neo-capitalista (ou pós-capitalista).

Essa onde novos modelos de habitação, e a crescente presença da televisão, levou a produção em massa de centenas de programas todos os anos para preencher os horários de programação, enquanto propagandas e anúncios eram efetuados em seus intervalos regulares e muito bem “pensados” (interromper a cena em momentos de tensão, por exemplo). Essa cultura da TV se massificou durante a segunda metade da década de 80 e durante toda a década de 90, formando gerações que foram literalmente educadas por emissoras e apresentadores ao invés dos pais. Essa geração, que hoje se encontra entre os 30 e 40 anos, possuem uma visão de mundo, que em larga escala foi construída por horas à fio em frente a TV, acentuando comportamentos relacionados ao materialismo e ao consumismo.

UMA MUDANÇA VERMELHA
No entanto, nos últimos anos a omnipresença da TV nos lares americanos e brasileiros (neste último facilitado pelo crescimento econômico do país e pela facilidade em se obter crédito durante o governo Lula) tem diminuído com o crescimento exponencial da internet, e através dela, do surgimento de ferramentas e sites onde séries e programas podem ser assistidos quase que ininterruptamente sem a constante chateação dos comerciais, ou mesmo sem a necessidade de se aguardar até que o próximo episódio ou programa seja transmitido.

O site de transmissão de filmes, séries e programas “Netflix” até mesmo “posta” todos os episódios de uma temporada ao mesmo tempo, possibilitando que a série seja assistida de uma só vez, em fenômeno que ficou conhecido como “Binge-watching”.

Assistir séries e conteúdo televisivo em sequência, claramente traz um novo modelo do que é entretenimento e como se produz entretenimento. Se outrora, esperávamos ansiosamente pelo próximo episódio de uma série ser transmitida (como este que vos fala), hoje podemos aguardar até que todos os episódios sejam lançados e assistir tudo de uma vez, a única espera é a da próxima temporada. Nessa nova forma de “assistir” perde-se e ganha-se. Uma das principais perdas está no comportamento associado a forma antiga de se assistir, antes do surgimento de serviços como a Netflix ou sites piratas. As conversas que tínhamos com amigos e colegas de trabalho sobre a expectativa pelo próximo episódio, ou as teorias e especulações sobre a morte, ou a não morte daquele personagem. O ato de reservar uma pequena porção do seu dia para assistir ao programa, geralmente associado a anúncios também se perde, o que por um lado elimina a chateação dos comerciais, mas por outro aumenta o sedentarismo e os sentimentos de solidão.

Além dos pontos que citamos, existe ainda a necessidade de se manter “antenado” em novidades, que em tempos como os nossos ocorrem praticamente o tempo todo. Seja o “preview” de um novo episódio daquela série famosa, ou um “sneak peak” de um filme em produção, simplesmente queremos saber de tudo, a todo tempo. Esse comportamento advindo da facilidade com que a informação circula pelo mundo, também afetou nosso comportamento como audiência. Com a cultura e a produção cultural sujeitada à lógica do capitalismo atual, onde segundo Isleide Arruda Fontenelle em seu artigo “O ESTATUTO DO CONSUMO NA COMPREENSÃO DA LÓGICA E DAS MUTAÇÕES DO CAPITALISMO” as imagens e o conteúdo social de um produto vale mais do que sua real utilidade. Isso se estende também às produções televisivas criando uma necessidade social de se informar sobre essas produções. Muitos então assistem séries em sequência para não se isolarem da discussão, e muitas vezes esse “assistir” é feito de forma passiva e artificial.

Chegamos então a conclusão de que a atual mudança em nossa forma de se relacionar produções culturais televisivas ou no formato televisivo, tem se alterado pela crescente dinamização da informação, levada pela sofisticação e complexidade das tecnologias de transmissão de dados. Assim como qualquer tecnologia, esses novos serviços tem impacto em nossas práticas sociais e privadas, criando novas e emergentes manifestações culturais, linguagens e rituais. Da próxima vez que você, leitor, assistir três episódios de sua série favorita, faça a si mesmo essas perguntas?

O que me levou a usar esse tempo com essa série em específico?

E quais foram os benefícios que essa maratona me trouxe?

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