Mar dos Afogados

Atracava-me com o passado, feito barco na costeira, ao mesmo tempo me afundava. Talvez o meu passado ou eu mesmo fosse um barco em desalinho, latejado de furos que sobrecarregavam meu interno, afogando-me.

Talvez eu fosse um barco que necessitava de ajustes, de alguém que me cobrisse de aprumos e adornos que me fizessem outro novo ser navegável. Estava castigado em pouco tempo e mesmo em meio ao fim eu me sustentava a não afundar-se.

O oscilar de pequenas ondas dentro de mim me afogavam vagarosamente, me sentia sufocar-se lentamente como se decidisse entre balançar nas ondas e seguir um curso ou despegar do infinito horizonte e submergir para descanso eterno.

O que fazer da minha estrutura indecisa. Em que mal sabe o que é navegar (viver) por si próprio?

Ali estou. Na descontração de si mesmo, debatidamente frágil. Mal sei onde devo chegar. Destino? Ainda me pergunto indeciso com mil doses de perguntas sem respostas, enclausuradas no meu subconsciente afogado.

Eu não queria ser apenas um barco. Um navio de esplendores sobrecarregado de sonhos cálidos e vaporosos, de alma limpa, isso me cativaria, isso sim. Eu nunca tive a oportunidade de ser navegável, nascer do ponto morto é desprezivelmente uma categoria que eu sabia manejar bem, eu era conduzido sob um tripulante sem sabedoria que unicamente ficava na espera que as ondas o guiassem há um destino qualquer.

Meus pedaços estavam vistos aos meus olhos, como se eu pudesse retirá-los e visualizar cada parte de mim, sobrecarregada de desordem, desejando cegar-se de desespero e não poder presenciar a minha falência.

Não importava o quanto a angústia estacava de mim, eu sentia meus pedaços racharem e me doía, me doía por nunca ter conseguido me reerguer e sair das profundezas desse oceano.

Estou aqui coberta pelos mantos d’água, observando a única fresta de luz vinda da garganta do mar, aquela garganta estreita ao qual eu fui encaminhando-me lentamente ao meu fim. O oceano me engolira sem afeto e afago, fechavam assim os lábios do oceano sem esperanças de um último abrir de bocas.

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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