Mal Estar na Civilização – Parte 4 – Do Sexo à Sociedade

Após concluir que a sublimação é o destino da pulsão sexual dentro de uma cultura, Freud supõe que a formação da família começa a necessidade do ato sexual, no sentido de manter por perto o elemento que lhe causa satisfação da pulsão primitiva do ser humano.

A partir disso, o autor comenta que o amor sexual torna-se algo primordial para amenizar os sofrimentos provindos das imposições feitas pela civilização ao indivíduo, tornando-o menos propenso a mais sofrimentos do que os de costume, como a própria solidão. Entretanto,

[…] ele se torna dependente, de maneira preocupante de uma parte do mundo exterior, ou seja, do objeto amoroso escolhido, e fica exposto ao sofrimento máximo, quando é por este desprezado ou perde graças à morte ou à infidelidade. Por causa disso, os sábios de todas as épocas desaconselharam enfaticamente esse caminho; não obstante, ele jamais deixou de atrair um grande número de seres humanos. (Mal-Estar na Civilização – página 64 – Companhia das Letras).

Há, após esse comentário, uma reflexão a respeito da modificação desse amor, isto é, ao invés de desejar ser amado, o mesmo transforma tal emoção em um ato único de amar, tornando o indivíduo independente de sofrimentos de perda, direcionando-o para todos os indivíduos, sendo o mesmo uma pulsão inibida na meta (ou seja, um sentimento é modificado e que não pode atingir o seu fim: o sexo), transformando-o meramente como um sentimento interior de felicidade que se basta por si mesmo. Nesse caso, o pai da Psicanálise ressalta que (na opinião dele) quem mais avançou nesse redirecionamento do amor foi nada mais, nada menos que São Francisco de Assis.
Após essa observação, Freud declara que a cultura considera “amor” como

[…] a relação entre homem e mulher, que fundam uma família tendo por base as suas necessidades genitais; mas também são amor os sentimentos entre pais e filhos, entre os irmãos numa família, embora tenhamos que descrever tal relação como amor inibido em sua meta, como ternura. (Mal-Estar na Civilização – página 66 – Companhia das Letras).

Sendo assim, a pulsão sexual determina o início das famílias na perspectiva freudiana, trazendo também a ideia de que as amizades e relações com outros seres humanos sejam todas inibidas em sua meta. Entretanto, o psicanalista ressalta que a cultura e o amor (fruto das pulsões sexuais) sempre estarão em constante embate; nesse caso, o segundo irá se opor aos interesses da primeira, bem como a primeira ameaça o segundo com sensíveis restrições.

É necessário ressaltar que o autor está fazendo apontamentos para aquilo que a civilização de sua época considera como normal, mas que o mesmo não considera como as únicas formas de amor, lembrando-se também dos homossexuais.

Dando continuidade ao texto, Freud destaca que a cultura se vale de tabus, leis e costumes para que os seres humanos consigam conviver “pacificamente”. Todavia a mesma

[…] dá a entender que só quer permitir relações sexuais baseada na união indissolúvel entre um homem e uma mulher, que não lhe agrada a sexualidade como fonte de prazer autônoma e que está disposta a tolerá-la somente como fonte, até agora insubstituível, de multiplicação dos seres humanos. (Mal-Estar na Civilização – página 69 – Companhia das Letras).

A partir dessas observações, o pensador reconhece que a vida sexual do homem civilizado é muitíssimo prejudicada por conta de todas as imposições feitas pela cultura, causando inúmeros sofrimentos e neuroses. Desse modo, percebemos que o amor funciona como um paliativo que se faz como sentimento singelo entre um par amoroso, amenizando essas tristezas provindas da civilização. Além disso, percebe-se que há um movimento da própria cultura para fortalecer os vínculos dentro de um grupo, tornando-o mais unido e mais propenso a permanecer e fortalecer a própria civilização, trazendo como fundamento perspectivas religiosas como o amor cristão e tentando redirecionar todas as pulsões que são valoradas como negativas para algo que embruteça tais laços que funcionam como pilar para uma sociedade. Entretanto, o ser humano é violento, e tais leis fundadas pela coletividade fazem-no amansar sua natureza inviável nessa realidade.

Outrossim, Freud assinala o narcisismo das pequenas diferenças, o qual

Percebe-se nele uma cômoda e relativamente inócua satisfação de agressividade, através da qual é facilitada a coesão entre os membros da comunidade. O povo judeu, espalhado em toda a parte, conquistou desse modo louváveis méritos junto às culturas de povos que o hospedaram. Infelizmente, todos os massacres de judeus durante a Idade Média não bastaram para tornar a época mais pacífica e segura para seus camaradas cristãos. (Mal-Estar na Civilização – página 81 – Companhia das Letras).

Nesse aspecto, o narcisismo das pequenas diferenças deixa claro que há similaridade aos sentimentos anti semitas provenientes da ideologia nazista, no qual um grupo se une para eliminar o outro. Todavia lembremos que esse tipo de narcisismo é presente em atos do nosso dia a dia: brigas de torcida, manifestações políticas, etc. e que é necessário estarmos alertas, pois os espectros de massa sempre estarão presentes.

Não se trata de dizer que a organização de uma massa é algo necessariamente ruim, porém, deve-se prestar atenção em quais sentimentos estão sendo enaltecidos em momentos como esse. O ódio ao outro é comum, seja no momento de afirmarmos que o nosso campo de atuação é melhor do que o do outro, que nosso curso de faculdade é melhor, que nossa instituição de ensino é maior, etc. Sempre tentamos nos vangloriar.

No final da história, todos estamos no mesmo barco, e é um pouco disso que Freud quer mostrar nessa famosa obra.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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