Mal Estar na Civilização – Parte 3 – A Cultura

Dando prosseguimento a majestosa obra denominada “Mal-Estar na Civilização” de Sigmund Freud, o mesmo se pergunta a dificuldade do homem ser feliz (novamente) e resume as fontes do sofrer a três tópicos: a prepotência da natureza, a fragilidade do nosso corpo e a insuficiência das normas que regulam os vínculos humanos na família, no Estado e na sociedade. A partir desses itens, o pai da Psicanálise aponta algumas contradições, afirmando que

Nunca dominaremos completamente a natureza, e nosso organismo, ele mesmo parte dessa natureza, sempre será uma construção transitória, limitada em adequação e desempenho. (Mal-Estar na Civilização – página 43 – Companhia das Letras)

Ou seja, além de (dentro dessa dicotomia) percebermos que não há a possibilidade de abolir todo e qualquer sofrimento, também concluímos que a felicidade se torna uma tarefa cada vez mais árdua e problemática por conta de todos esses limites biológicos. Além disso, o autor passa para o último desses três pontos, refletindo a respeito de todas as normas sociais que delimitam todas as nossas pulsões (desejos), trazendo dessa maneira uma afirmação amedrontadora e que o escritor se detém a ela:

[…] boa parte da culpa por nossa miséria vem do que é chamado de nossa civilização; seríamos bem mais felizes se a abandonássemos e retrocedêssemos a condições primitivas. (Mal-Estar na Civilização – página 44 – Companhia das Letras)

A partir dessa observação que Freud opta por refletir, percebe que há uma contradição naquilo que constrói todas as culturas (lembrando que para ele civilização e cultura são – a grosso modo – a mesma coisa), sendo a seguinte: a própria cultura tem por objetivo defender o ser humano de todos os males da natureza. Porém, a mesma tem fontes de sofrimento que fazem parte da própria estrutura social (e é por isso que existe o Direito, para impedir a realização de todos os nossos desejos por meio de leis e punições). Outrossim, percebemos que não há saída para a abolição de todas as tristezas, e o fundador da psicanálise assinala que

[…] o homem se torna neurótico porque não pode suportar a medida de privação que a sociedade lhe impõe, em prol de seus ideais culturais, e conclui-se então que, se estas exigências fossem abolidas ou bem atenuadas, isto significaria um retorno a possibilidades de felicidade. (Mal-Estar na Civilização – página 45 – Companhia das Letras)

Por meio dessa observação, o indivíduo que se tornar neurótico por conta de todas as pulsões recalcadas está apto para viver em uma sociedade e se adequar às leis impostas pela cultura. Em suma: todos os neuróticos poderão viver “tranquilamente” em uma civilização, porém a felicidade não estará presente.

A partir dessas análises, Freud reflete a respeito da evolução da ciência e a forma com que ela desenvolveu todos as ferramentas capazes de melhorar (mesmo que um pouco) a qualidade de vida do homem “civilizado”, citando por exemplo a descoberta do fogo, a construção de moradias, a criação do telescópio e do óculos, a invenção da câmera fotográfica, do telefone, etc. Cada uma dessas criações trouxeram uma melhora na vida de todos os seres humanos, fazendo com que os mesmos pudessem de alguma forma se sentir mais confortáveis.

Desse modo, o autor assinala que todas as conquistas científicas foram extremamente importantes. Entretanto,

Há tempos [o ser humano] havia formado uma concepção ideal de onipotência e onisciência, que corporificou em seus deuses. Atribuiu-lhes tudo que lhe era proibido. Pode-se dizer então que os deuses eram ideias culturais. Agora ele aproximou-se bastante desse ideal, tornou-se ele próprio quase um deus. Claro que apenas na medida em que os ideais, no julgamento geral dos homens, costumam ser alcançados. (Mal-Estar na Civilização – página 52 – Companhia das Letras)

Sendo assim, o homem se desenvolveu de tal maneira que pode se comparar a Deus e demonstrar por meio de seu desenvolvimento científico-tecnológico essa semelhança com tal entidade. Todavia, não devemos esquecer (assinala Freud) que o homem de hoje não se sente feliz com essa semelhança.

Além disso, o psicanalista comenta que há padrões dentro de cada cultura, como por exemplo a ordem, a limpeza e a beleza, que sempre estarão presentes na organização das cidades e das nossas próprias residências (como por exemplo a forma com que organizamos nossa mobília, a necessidade de limpeza e quadros ou vasos de flores que sempre deleitam nossa psiqué). Mas o que mais caracteriza uma civilização (na concepção do autor) é

[…] a estima e o cultivo das atividades psíquicas mais elevadas, das realizações intelectuais, científicas e artísticas, do papel dominante que é reservado às ideias na vida das pessoas. (Mal-Estar na Civilização – página 55 – Companhia das Letras)

E completa afirmando que:

Entre essas ideias se destacam os sistemas religiosos, […] ao lado deles, as especulações filosóficas, e por fim o que se pode chamar de construções ideais dos homens, suas concepções de uma possível perfeição dos indivíduos particulares, do povo, de toda a humanidade, e as exigências que se colocam a partir dessas concepções. (Mal-Estar na Civilização – página 55 – Companhia das Letras)

Porém é necessário recordar que por mais que o indivíduo recaia nessas atividades, a felicidade continua sendo algo distante e que não há receitas para atingir tal sentimento. É necessário relembrar também que Sigmund Freud retira essa tese da felicidade ser extremamente momentânea do pêndulo de Schopenhauer, o qual afirma que a vida oscila como um pêndulo, entre o tédio e o sofrimento e que momentos felizes só estarão presentes no centro desse caminho pendular.

Ademais, o autor ressalta o último tópico dessa reflexão a respeito da civilização é o modo como as relações sociais são possíveis, enquanto vizinho, colaborador, objeto sexual de um outro, membro da família e de um Estado. Nesse âmbito, o escritor afirma que

[…] aquele fisicamente mais forte determinaria [as relações humanas] conforme seus interesses e suas pulsões. Nada mudaria, caso esse mais forte encontrasse alguém ainda mais forte. A vida humana em comum se torna possível apenas quando há uma maioria que é mais forte que qualquer indivíduo e se conserva diante de qualquer indivíduo. Então o poder dessa comunidade se estabelece como ‘Direito’, em oposição ao poder do indivíduo, condenado como ‘força bruta’. (Mal-Estar na Civilização – página 57 – Companhia das Letras)

A partir disso, o pensador declara que há uma exigência de justiça a partir dessas considerações que uma cultura abarca e que é necessário uma união dos indivíduos e um contrato social que delimite a realização de todos os nossos desejos, fazendo com que seja possível a vida dentro de uma civilização. Por meio dessa realidade, há a necessidade de reivindicar uma liberdade que seja individual (por conta de todos os limites impostos pelo Direito) e que é passível de punições perante a cultura. O que Freud afirma aqui é que

Boa parte da peleja da humanidade se concentra em torno da tarefa de achar um equilíbrio adequado, isto é, que traga felicidade, entre tais exigências individuais e aquelas do grupo, culturais; é um dos problemas que concernem ao seu próprio destino, a questão de se este equilíbrio é alcançável mediante uma determinada configuração cultural ou se o conflito é insolúvel. (Mal-Estar na Civilização – página 58 – Companhia das Letras)

Além de ressaltar que a cultura tenta a todo o momento encontrar esse equilíbrio entre as pulsões de cada cidadão, o autor reconhece que a mesma institui sobre cada indivíduo a renúncia pulsional (renúncia de desejos) como pré-condição de convivência social, isto é, obrigando a não realização de determinada satisfação, fazendo com que todos nós nos tornemos neuróticos e inconscientemente frustrados, trazendo assim a ressignificação dessas pulsões para outras coisas que sejam autorizadas pela civilização, ou seja (no jargão freudiano), sublimando-as.

Por meio de todas essas observações desse trecho, é amedrontador a forma com que o indivíduo se coloca em uma civilização. Ainda por cima, percebemos que a felicidade se torna um desafio cada vez mais distante e que a liberdade é apenas um mito, no qual todos nós teremos de arcar com tal realidade.

É nesses momentos em que o conhecimento nos agrega, da mesma maneira que nos entristece. Porém (na minha humilde opinião), é melhor ser um desperto triste do que um cego feliz. No fim das contas a saída da caverna (de Platão) é algo que choca, ao mesmo tempo que nos liberta, além de nos provar cada vez mais que a famosa frase: “A ignorância é uma benção” é um axioma nesse nosso mundo louco.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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