Mal Estar na Civilização – Parte 2 – A Felicidade

No texto anterior, foi demonstrado e explicado o sentimento oceânico: uma emoção de pertencimento, conexão, completude, vinculação, de comunhão com o mundo exterior.

Na continuação de “Mal Estar na Civilização”, há uma explicação que Freud apresenta a respeito desse sentimento, sendo ressaltado que os sistemas de religião se apoderaram dessa afecção com muitíssima propriedade e de tal forma que consiga explicar o universo – minimamente – no qual nós nos encontramos.

A partir disso, o pai da Psicanálise afirma que essa necessidade de explicação do firmamento traz para cada indivíduo uma espécie de paz interior, uma forma de liquidar com essa incerteza da existência e/ou com os objetivos terrenos. Entretanto, o indivíduo não pode se ater muito com essas problemáticas por uma questão de felicidade, se desviando para a consolação religiosa e/ou diversos outros tipos.

Nesse sentido, Sigmund Freud afirma que:

A vida, tal como nos coube, é muito difícil para nós, traz demasiadas dores, decepções, tarefas insolúveis. Para suportá-la, não podemos dispensar paliativos. Existem três desses recursos, talvez: poderosas diversões, que nos permitem fazer pouco de nossa miséria, gratificações substitutivas, que a diminuem, e substâncias inebriantes, que nos tornam insensíveis a ela. (Mal Estar na Civilização – Página 28 – Companhia das Letras)

Desse modo, percebemos que a vida nos apresenta algumas formas de um desvio de foco para que consigamos viver adequadamente e sem muitíssimas problemáticas, e é por isso que precisamos desses “paliativos” para viver e não fazer tantos questionamentos a respeito de nossa existência. Além disso, o autor declara que a questão da finalidade da vida humana foi posta inúmeras vezes durante a história e nenhum campo (seja do conhecimento ou não) conseguiu dar uma resposta que resolveu adequadamente essa indagação de milênios.

Dando continuidade no texto, Freud coloca a felicidade como uma satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno episódico/temporário. A partir disso, o pensador começa a refletir sobre aquilo que pode danificar a felicidade do indivíduo, separando os tipos de sofrimento da seguinte maneira:

O sofrer nos ameaça a partir de três lados: do próprio corpo, que, fadado ao declínio e à dissolução, não pode sequer dispensar a dor e o medo, como sinais de advertência; do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças poderosíssimas, inexoráveis, destruidoras; e, por fim, das relações com outros seres humanos. (Mal Estar na Civilização – Página 31 – Companhia das Letras)

E ainda completa:

O sofrimento que se origina desta fonte – das relações com outros seres humanos – nós experimentamos talvez mais dolorosamente que qualquer outro; tendemos a considerá-lo um acréscimo um tanto supérfluo, ainda que possa ser tão fatidicamente inevitável quanto o sofrimento de outra origem. (Mal Estar na Civilização – Página 31 – Companhia das Letras)

Por meio dessas considerações, percebe-se que a existência é constituída de inúmeros problemas e perigos para a vida psicológica e física de cada ser humano. Desse modo, cada um se direciona aos métodos do desprazer que mais lhes satisfazem durante a vida. Ademais, o escritor reconhece que há algumas formas para evitar esse sofrimento, sendo o primeiro deles o isolamento para barrar quaisquer sofrimentos provindos das relações humanas, trazendo a felicidade denominada quietude. A segunda demonstrada é por meio de químicos para alívio da infelicidade e aumento do prazer, mas que é uma faca de dois gumes por trazer em conjunto a destruição do organismo. A terceira é a liquidação de todas as pulsões (desejos), criada pela sabedoria do Oriente e praticada pelos iogues (que de outro modo traz a quietude). Outro modo é o famoso “Workaholic”, no qual direciona toda a sua atenção e sua energia para o trabalho psíquico e intelectual, mas que não pode ser apreciada por todos. Além disso, temos o modelo do eremita, que dá as costas ao mundo, inibindo assim qualquer fonte de sofrimento provinda do mundo e que rompe com todos os laços da civilização. Outrossim, há aquela forma de possuir o amor como centro, que espera a satisfação do amar e ser amado, que também possui um perigo iminente: o de estarmos totalmente desprotegidos do sofrer. E por último o baseado na beleza como forma de vida, provindo da moda e da estética.

A partir dessas observações, o pai da Psicanálise conclui que há muitíssimos outros modos para chegar perto do ideal da felicidade (porque o autor o considera inalcançável) e que no fim das contas

Não há, aqui, um conselho válido para todos; cada um tem que descobrir a sua maneira particular de ser feliz. (Mal Estar na Civilização – Página 40-41 – Companhia das Letras)

Na visão de Freud, nenhuma dessas formas foi tão bem utilizada como forma de consolar a insegurança da existência como a religião. Mas ao término dessa parte, podemos sintetizar as colocações do autor e perceber que todas essas inúmeras formas de felicidade são necessárias para que nós consigamos viver nesse mundo caótico e cheio de peripécias que podem nos causar o desprazer. Por essas e outras cada um de nós busca alguma justificativa para a própria vida, de tal maneira que possamos viver – pelo menos minimamente – melhor. Mas devemos ter em mente que mais cedo ou mais tarde o tempo irá agir, e nós seremos apenas peões que tiveram maior ou menor papel no enorme livro da história humana. A nossa insignificância fica aparente ao refletirmos tais questões, mas são necessárias para que tenhamos a humildade sempre em pauta na nossa minúscula existência perante a eternidade. Porque no fim das contas, nós não somos a “última bolacha do pacote”, e temos que ter fresco isso em nossa mente.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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