Mal Estar na Civilização – Parte 1: O Sentimento Oceânico

No início do texto de Freud denominado Mal Estar na Civilização (1930), ele dirá que existe em cada ser humano (subjetivamente falando) um sentimento “oceânico”, que

“[…] seria a fonte de energia religiosa de que as diferentes igrejas e sistemas de religião se apoderam, conduzem por determinados canais e também dissipam, sem dúvida. Com base apenas nesse sentimento oceânico alguém poderia considerar-se religioso, ainda que rejeitasse toda a fé e toda a ilusão.” (p. 14-15 – Mal Estar na Civilização – Editora Companhia das Letras).

Tal conceito pode nos remeter a diversos temas de suma importância para o nosso mundo, permitindo refletir sobre milhares de padrões comportamentais da grande massa. Nesse sentido, Freud afirma que essa sensação de querer uma explicação para a nossa vida, a criação do mundo, se possuímos alma ou não, etc. é totalmente comum a todos os homens. Permitindo assim uma força pulsional que nos move e faz com que continuemos a procurar explicações para esses temas que (até hoje) continuam sem uma explicação suficientemente esclarecedora.

Desse modo, o sentimento oceânico tem uma explicação por existir, sendo o mesmo uma espécie de fragmento do mundo que está presente na psiquê e que é interligado com o mesmo, trazendo uma reação de curiosidade (e necessidade de explicação) perante essa Matrix na qual estamos incluídos. Nesse sentido, ele explica que essa “peça” presa na nossa subjetividade existe pela seguinte explicação:

“[…] no início o Eu abarca tudo, depois separa de si um mundo externo. Nosso atual sentimento do Eu é, portanto, apenas o vestígio de um sentimento muito mais abrangente – sim, todo-abrangente -, que correspondia a uma mais íntima ligação do Eu com o mundo em torno.” (p. 19 – Mal Estar na Civilização – Editora Companhia das Letras)

Ou seja, no início da nossa vida acabamos por “abraçar” e nos tornarmos parte dessa realidade, mas em determinado momento nós cortamos essa ligação e ficamos com uma conexão com esse universo durante toda a existência. A partir disso, percebemos que o pai fundador da Psicanálise já supunha que essa interconexão faz parte do inconsciente dos seres humanos. Além disso, Freud caracteriza esse sentimento como

“[…] uma tentativa inicial de consolação religiosa, como um outro caminho para negar o perigo que o Eu percebe a ameaçá-lo do mundo exterior.”

Todavia esse sentimento oceânico que Freud apontou não é um problema, mas a forma com que as religiões se apoderaram dessa necessidade de explicação do mundo e manipulam diversos indivíduos para que se enriqueçam de maneira completamente contrária a que os líderes religiosos que fundaram essas religiões pregavam. Será que é certo se apoderar da fé alheia e utilizá-la como forma de conseguir dinheiro?

Quando Marx afirma que a religião é o ópio do povo, discordo veementemente por conta do seguinte argumento: a mesma nunca foi o problema, mas a forma com que ela é “administrada” pelos homens. Nesse sentido a verdadeira problemática está na manipulação das massas e a capitalização da fé alheia – sem contar no extremismo religioso e levar isso como toda e quaisquer verdades -, transformando completamente o sentido da religião e simplesmente fazendo dela um instrumento de alienação dos seres humanos. É triste ver como o homem consegue se destruir e como o capital influencia na forma do indivíduo se pautar nas suas escolhas.

Talvez algum dia começaremos a analisar a nossa realidade com outros olhos (ou talvez não). Mas sabe-se que essa forma de alienação da humanidade é extremamente cruel, e não há dúvidas quanto a isso.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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