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Antes de começar o ano letivo, costumo fazer breves acordos com meus alunos, para o bom andamento das aulas. Mas isso não é uma aula, portanto não precisamos de acordos. Correto? Errado. Precisamos estabelecer breves linhas para uma razoável compreensão do que aqui desejo escrever. Em primeiro lugar, esse texto não se trata de uma proposta pedagógica, por mais que ele possa vir a ter esse caráter. Em segundo lugar, sei o quão recente e quão breve é minha experiência em sala de aula. Se tal fator deslegitimar o que aqui escrevo para você, leitor, sugiro que nem perca seu tempo. Por fim, e não menos importante, este texto não se propõe a revolucionar os métodos de educação. Como escrito acima, não tenho interesse em elaborar uma proposta pedagógica. Se há uma proposta aqui, ela será muito mais do âmbito filosófico, buscando talvez – e nem estou muito claro disso – lançar um pouco de reflexão sobre a pergunta: como proporcionar pensamento crítico aos nossos alunos? Se você, leitor, ainda estiver me acompanhando, convido-o para embarcarmos nessa discussão…

Muito se escreve sobre pensamento crítico. Aliás, este é um dos termos mais utilizados nos últimos anos, tanto dentro quanto fora do campo acadêmico e educacional. É um termo que remete muito a militância e, consequentemente, aos movimento sociais de esquerda. Os dicionários de filosofia – e nem os tradicionais de português – dão um real significado ao termo. Portanto, aqui temos nosso primeiro desdobramento do problema geral. Ora, se desejamos proporcionar um espaço onde nosso aluno desenvolva um pensamento crítico da realidade, devemos – antes de tudo – saber o que é pensamento crítico. Afinal de contas, para quem está perdido, todo caminho é correto, mesmo aquele que o leve para bem distante do seu objetivo. Essa frase não é minha, é uma paráfrase de “Alice no País das Maravilhas”. Mas ela retrata muito bem nosso primeiro problema. Como vou criar espaço para desenvolver algo que não sei o que é?

E agora eu me deparo com um problema que provavelmente não poderei resolver aqui. Muito tem sido escrito sobre pensamento crítico. Aliás, a escola de Frankfurt tem gastado energia a gerações buscando desenvolver e sintetizar a teoria crítica. Seria presunção – ou pretensão – querer em duas ou três linhas sintetizar tudo o que até aqui foi pensado ou escrito. Mas, por outro lado, não encontro outra maneira de prosseguir com esta escrita. E eis um dilema: paro de escrever e deixo nosso problema central em aberto – abandonando a empresa ao me defrontar com seu primeiro problema – ou elaboro aqui uma curta e simples definição – que atenderá nosso problema e nos manterá em nosso caminho – correndo o risco de incorrer em erros e falsidades. Vejam, a vida tem dessas coisas. Opto aqui por continuar, mesmo conhecendo os riscos. Sim, o aprendizado acontece no caminho e não no objetivo final. Parar agora é declarar-me um fracassado. Não terei aprendido nada. Portanto, para este nosso primeiro problema, vamos definir pensamento crítico nos seguintes moldes – correndo todos os riscos já citados – para podermos avançar: “faculdade, ou habilidade – mental ou sensorial – que te permite ver e compreender as entrelinhas do que está sendo dito, escrito, falado e apresentado. Em suma, pensamento crítico é a compreensão da realidade além daquilo que nos é revelado sobre ela. Em outras palavras, é sair da caverna de Platão e perceber que existe um mundo muito mais amplo do que as meras sombras que são vendidas como realidade. Caso você, leitor, não concorde com essa definição a tal ponto de não poder aceitá-la de forma provisória – apenas para esta breve análise sobre nosso problema central – então sugiro que abandone a leitura. Para os demais, sigamos adiante.

Resolvemos nosso primeiro problema e estamos muito próximos de nosso problema central. Aliás, podemos até retomá-lo sem nenhum medo ou ressalva: como proporcionar pensamento crítico aos nossos alunos? Duas novas perguntas nascem agora. A primeira, diz respeito ao que é um aluno. A esta pouparei-me do trabalho de elaborar uma definição complexa. Acredito que todos poderão conviver pacificamente se eu definir aluno como “sujeito em processo de aprendizado“. E isso basta. A segunda é um tanto mais complexa. Acredito que não haverá como discuti-la aqui. Mas é preciso, ao menos, revelá-la: podem as pessoas aprender a pensar de forma crítica ou seria o pensamento crítico uma faculdade própria de algumas pessoas. Em outras palavras, não seria o pensamento crítico um talento semelhante ao de jogar futebol, tocar instrumentos musicais ou desenhar e pintar?

Duas são as possíveis respostas a esse novo dilema que se apresenta. A primeira – e se adotarmos ela como verdadeira, nossa escrita terminará aqui – é muito simples: pensamento crítico é um talento, não pode ser ensinado. Ou seja, o professor não pode fazer muita coisa, a não ser identificar o caso e dar-lhe orientações extraclasse. A segunda guarda uma esperança. O pensamento crítico pode ser desenvolvido em cada um. Ou seja, cabe ao professor proporcionar o ambiente propício para tal em suas aulas. Mas observem que ambas as abordagens são meramente especulativas. Eu não tenho como determinar qual delas estará correta ou não. Então, como agir?

Parece-me sensato agir com prudência. Deleuze diz que uma aula não tem que agradar todo mundo, mas que cada um deve captar da aula o que lhe interessa. Indo além, parece-me acertado dizer que uma aula que instigue os alunos a pensarem, e não no conteúdo, mas nos problemas – e esse é, na verdade, o assunto principal que eu quero abordar daqui a pouco – essa será uma aula bem sucedida. Está mais do que claro – ao menos para mim – que nossos alunos não precisam receber um banco de dados de informações em sala de aula, mas, antes de tudo, precisam aprender o que fazer com as informações que hoje estão a um clique de distância de cada um deles. Nesse aspecto, criar uma aula que se proponha a expor as entrelinhas da sociedade, que se proponha a mostrar que as informações de cada componente curricular se relacionam com as informações dos demais componentes, criando uma teia que permitirá ao aluno perceber a realidade como ela é e não como ela se apresenta, esta será uma aula que atingirá seus objetivos. Por mais que defendermos que ou pensamento crítico é um dom, e portanto poucos o tem, ou que ele é um estágio a ser alcançado, está muito claro, para mim, que todos sairão ganhando em aulas que se preocupem menos com o conteúdo formal e mais com as perguntas. Se é fato de que o conhecimento crítico é um dom – e não temos como saber se isso é ou não verdade – uma aula que fomente esta faculdade mental provocará ao portador de tal dom romper com as correntes e abandonar a caverna, na mesma medida que criará nos demais prisioneiros um estado mínimo de questionamento sobre a realidade à qual estão submetidos.

Voltemos a pergunta: como proporcionar pensamento crítico aos nossos alunos? Vejam, eu não resolvi o paradigma anterior, simplesmente porque não tenho a resposta. Apenas descrevi minha atitude diante dele. Eis que um novo problema surge: podemos resolver nosso problema inicial? Acredito que agora podemos nos voltar a ela, mesmo que ele já tenha sido resolvido em grande parte até aqui.

Proporcionar um espaço para o desenvolvimento do pensamento crítico vai depender de vários fatores. O primeiro refere-se a postura do professor em buscar proporcionar este espaço. em segundo lugar, temos as diferenças – que precisam ser levadas em conta – referentes aos conteúdos de cada componente curricular. De fato, os componentes das áreas de humanas têm muito mais facilidade do que os componentes da área de linguagem. Mas isso apenas em teoria, porque vai depender da postura do profissional sair ou não do modelo tradicional da educação. Por fim, também haverá o fator aluno. Algumas turmas terão maior disponibilidade em sair do tradicional, outras não. Caberá ao professor provocá-las e instigá-las.

Indo adiante, podemos dizer que a educação hoje precisa ser repensada. Não apenas para criar pensadores críticos da sociedade, mas antes, para provocar um amadurecimento mental em nossos alunos. É preciso que nós, professores, nos preocupemos menos com os conteúdos. Afinal de contas, a informação hoje está a um “clic” de distância. Antes de tudo, é preciso que repensemos nossas aulas através da perspectiva da pergunta. Em outras palavras, abordar os problemas que levaram à formação de determinado conhecimento, fazendo o link com a realidade do aluno. Posso garantir que, em grande parte, os problemas da Grécia, da Itália Medieval e da Alemanha nazista ainda persistem hoje, mas com uma roupagem diferente. Será que não é tarefa do professor do século XXI transmitir menos conteúdo e fomentar mais conhecimento? Tratamos de uma geração multi conectada, mas que não sabe – em sua maioria – fazer links com a realidade.

Ora, no início eu escrevi e alertei que este não é um texto com pretensões pedagógicas. É apenas uma reflexão de um professor que ousa fazer algo diferente. Por quê? Porque o que vem sendo feito até aqui simplesmente não funciona mais… Posso estar errado? Certamente! Mas seguindo velhos modelos também estarei errando. Este texto não tem quase nenhuma resposta, mas traz diversas perguntas… E nem todas estão escritas…

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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