“LAERTE-SE” Parte 3: E se não existisse gênero?

Está disponível na Netflix o documentário “Laerte-se”, que apresenta Laerte Coutinho narrando suas experiências e enfrentamentos ao assumir-se mulher aos 60 anos, suas reflexões acerca das relações de gênero, com o corpo e os desafios encontrados pelos transgêneros. O filme é rico em reflexões e análises sobre diversos temas que atravessam os debates atuais sobre feminismo, gênero, sociedade, política, entre outros.

Devido a essa riqueza, a presente análise se desdobrará em três partes. Na primeira parte, tratei sobre uma pergunta lançada por Eliane Brum (que entrevista Laerte e divide a direção do filme com Lygia Barbosa da Silva): O que é ser uma mulher?

Você pode conferir o texto neste link:

http://filosofiadocotidiano.org/laerte-se-parte-1-o-que-e-ser-uma-mulher/

No segundo texto, chamei a atenção para uma questão que perpassa durante todo o filme que é a questão do corpo.

Você pode conferir o texto neste link:

http://filosofiadocotidiano.org/laerte-se-parte-2-a-questao-do-corpo/

Neste último texto, pretendo colocar alguns questionamentos apresentados por Laerte sobre as construções culturais e sociais acerca de gênero. Há um limite? Podemos pensar uma sociedade onde não exista gênero?

Historicamente, gênero foi compreendido como equivalente ao sexo dos indivíduos. Quando nascemos, nosso corpo apresenta determinados órgãos, chamados de órgãos sexuais. “Sexuais” justamente porque eles indicam a qual sexo nós pertencemos, que nós chamamos de masculino e feminino. Só que essas duas palavras estão carregadas de sentido e significados diversos, que variam conforme a sociedade e o contexto discursivo no qual nós estamos inseridos, nascemos, somos criados e vivemos.

O problema é que dizer que o indivíduo é masculino ou feminino, além de dizer o que ele é, diz ainda o que se espera que este indivíduo seja, baseado nele(a) ser masculino ou feminino. Laerte aborda a problemática do gênero, principalmente no que tange a construção de sua identidade feminina. Além de esbarrar em regras de conduta e formas de agir, Laerte acentua as exigências quanto às mudanças em sua personalidade:

“Quer dizer, você é mulher, pronto, acabou? Carimba? Não, também essa questão está se tornando uma coisa de menor importância. Pra quê eu preciso ser oficialmente homem ou mulher?”

O filme traz ao debate a questão do gênero enquanto “caixinhas” em que se separam os indivíduos e se definem elementos que nos informam aquilo que serve para cada um. Laerte afirma que, enquanto o gênero é algo constituído, há a possibilidade de rever-se tudo, inclusive a inexistência de identidades de gênero:

“Em princípio somos seres humanos e a gente não tem essas disposições. Essas disposições são também convenções, são possibilidades, são linguagens.”

A referência feita por Laerte alude às discussões que estão sendo realizadas nos estudos de gênero a partir de uma perspectiva pós-estruturalista, que visa o alargamento do entendimento sobre o gênero. Esses estudos apontam a necessidade de se reconduzir o olhar sobre o gênero, numa tentativa de abarcar as pluralidades dos contextos discursivos.

Isso quer dizer que os indivíduos, enquanto viventes de uma determinada sociedade, estão colocados em contextos marcados por uma série de atravessamentos e entendimentos próprios do momento em que se vive, sejam políticos, econômicos, religiosos, sociais, de classe, de raça, de gênero. Todos esses marcadores incidem sobre os indivíduos, colaborando para a constituição das suas identidades. Se hoje, por exemplo, estamos discutindo a pluralidade de gênero e a possibilidade de sua inexistência, isso só é possível porque nosso contexto discursivo nos permite.

Dito isso, a problemática quanto à viabilidade de uma sociedade sem gênero, vem sendo explorada por diversos/as autores/as, em sua grande maioria, transgêneros e transsexuais. Isso porque, segundo Butler, eles(as) se encontram no limite das categorias binárias de gênero, ocupam um lugar fronteiriço, marginalizado. Que identidade se constrói a partir desses lugares?

Penso que estas interrogações só enfatizam a complexidade do tema. Admito minha dificuldade em projetar uma sociedade em que o gênero não esteja no cerne da constituição das identidades dos sujeitos. Digo isso pois penso, assim como Foucault, que nossas relações estão fundamentadas em relações de poder, das quais não podemos fugir. O gênero é um dos operadores destas relações que, se suprimido, entendo que um novo dispositivo de poder irá tomar seu lugar enquanto segregador de indivíduos.

Além disso, enquanto feminista, penso que a exclusão do gênero poderia colocar em risco toda a produção de conhecimento já realizada e ainda, com maior importância, as conquistas já obtidas pela luta das mulheres. (Se não há gênero, porque mulheres devem ter direitos exclusivos?)

O avanço do debate acerca do gênero deve seguir o caminho para o reconhecimento da pluralidade de gênero, identificando os espaços de liberdade e agência dos sujeitos, que nos levam às rupturas e mudanças nas práticas sociais.

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Bruna Leite

Formada em cinema, eterna estudante de filosofia. Pós-graduanda em Gênero e Sexualidade. Escreve sobre filosofia, política, feminismo e artes.

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