“Laerte-se”, Parte 2: a questão do corpo

Está disponível na Netflix o documentário “Laerte-se”, que apresenta Laerte Coutinho narrando suas experiências e enfrentamentos ao assumir-se mulher aos 60 anos, suas reflexões acerca das relações de gênero, com o corpo e os desafios encontrados pelos transgêneros. O filme é rico em reflexões e análises sobre diversos temas que atravessam os debates atuais sobre feminismo, gênero, sociedade, política, entre outros.

Devido a essa riqueza, a presente análise se desdobrará em três partes. Na primeira parte, tratei sobre uma pergunta lançada por Eliane Brum (que entrevista Laerte e divide a direção do filme com Lygia Barbosa da Silva): O que é ser uma mulher?

Você pode conferir o texto neste link:

http://filosofiadocotidiano.org/laerte-se-parte-1-o-que-e-ser-uma-mulher/

Neste segundo texto, quero chamar a atenção para uma questão que perpassa durante todo o filme que é a questão do corpo.

O corpo é uma temática que me fascina e que venho estudando já faz algum tempo. Em geral, estudo as relações entre corpo e poder, tentando identificar os mecanismos nos quais o poder se exerce nas relações cotidianas entre os indivíduos e de que maneira isso afeta a relação dos sujeitos com seus corpos. Em outra ocasião, escrevi um pequeno texto abordando o conceito de Foucault de “corpos dóceis” aplicado a questão da mulher. Você pode conferir o texto neste link:

https://medium.com/@bruleiite/n%C3%B3s-e-nossos-corpos-d%C3%B3ceis-62a2a7c716e4

Por que eu fiz essa referência? Ao abordar a temática do corpo, é importante lembrar que a relação que nós construímos com nosso corpo está fundamentada em estruturas de poder, que se exercem cotidianamente nas diversas relações de convivência que estabelecemos. Se pensarmos essa complexidade para indivíduos que possuem o gênero de acordo com a normatividade em vigor, que estabelece que os homens são masculinos e desejam mulheres, da mesma forma que estabelece que as mulheres são femininas e desejam homens; tente conceber o quão mais complexo são essas relações com o corpo para os sujeitos que diferem daquilo que é tomado como padrão.

Esta situação é abordada no documentário em diversos momentos e de diferentes maneiras. Laerte conta no início do filme que sua mãe possui uma visão biológica do mundo. Logo, a transformação do filho em mulher não faria sentido em sua forma de compreender o mundo. Contudo, Laerte conta como foi seu processo de mudança, que incluiu uma mudança no corpo.

Essa mudança no corpo é resultado de um movimento interno de aceitação de si e também de rompimento com as estruturas de poder no qual estava amarrada. De acordo com Foucault (2003), o poder é um jogo de forças, no qual os indivíduos estão em constante enfrentamento, tornando o poder dinâmico. Essa dinâmica do poder faz com que as relações sejam instáveis, pois um indivíduo em exercício de poder pode, em algum momento, mudar de posição, quando o outro passa a exercer poder sobre ele. Esse movimento também é constituído dos rompimentos das normas e estruturas de poder. Movimento este que Laerte narra e problematiza no documentário.

Ela conta que a primeira mudança que fez no corpo foi tirar os pelos, que representou o primeiro passo para se ver como uma mulher. Após isso, ela começou a se vestir de outra maneira e suas roupas acabaram se tornando uma outra forma de expressar-se no mundo.

Eliane pergunta: Como é possível ser uma mulher fora da questão do corpo, é possível ou não?

Laerte responde:

De jeito nenhum pode deixar o corpo de lado, mas também não pode se resumir ao corpo. A questão do corpo é central, mas não pode ser tudo, senão a gente aceita a biologia como único norte. Teu útero é teu destino, esse tipo de coisa. E não é assim. O corpo é uma negociação complicada.

Neste momento, fica nítido o quão complexa é essa questão do corpo. De acordo com Linda Nicholson (2000), o olhar binário sobre os corpos, que consiste em determinar o gênero conforme o sexo, originou a compreensão de que os corpos são bissexuados, podendo ser divididos em masculinos e femininos. O problema é que este entendimento binário sobre gênero não engloba a diversidade entre homens e mulheres, nem abrange a pluralidade de gêneros.

Isso gerou alguns questionamentos a Laerte, que decidiu, até o momento do documentário, não realizar a cirurgia de redesignação sexual. No entanto, ela estava pensando em “colocar peitos”. Para ela, colocar silicone é um ato de ousadia, pois até então o corpo era um lugar de proibições. Ela afirma que está convivendo bem com a ideia de ser uma mulher sem hormônios e sem quadril, mas e o peito, é necessário? Laerte diz:

Quando chego em casa, tiro meu sutiã e meu peito vai junto, eu penso ‘poxa, eu queria que ele ficasse’.

Laerte pensa a questão do peito como tendo um valor simbólico, para que ela possa tê-los e vivê-los. Contudo, ela se preocupa com o olhar dos outros, o que as pessoas podem pensar, que talvez ela não tenha argumentos suficientes ou então que seu discurso não tenha importância. Esse medo de expor-se acaba se estendendo aos cuidados com o corpo, refletindo em uma atenção pulverizada, inadequada e desatenta.

A questão do corpo e do ser mulher aparecem em suas tirinhas, retratadas de forma profunda e com muito humor. Sobre o corpo, Laerte sintetiza um sentimento compartilhado por grande parte dos indivíduos:

Eu acho que dificilmente um corpo está resolvido para todo o sempre. Mas eu gosto de sair e de levar meu corpo para passear com serenidade. Estar no mundo fisicamente exige da gente uma certa segurança, não? Me parece.

E Eliane complementa: “E tu achas que um corpo pode ficar completo?”. Laerte responde:

Não. O desenho também não. A gente está sempre em processos de mudança.

Esses processos de mudança estão imbricados na relação que estabelecemos com nossa identidade de gênero e nossa sexualidade. Laerte coloca o seguinte problema: se as construções de gênero são culturais, abre-se a possibilidade de revermos tudo. O debate sobre os limites do gênero serão abordados no próximo texto.

E, se você ainda não assistiu o documentário “Laerte-se”, fica a dica!

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Referências:

FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos IV: Estratégia, Poder-Saber. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

NICHOLSON, Linda; SOARES, Luiz Felipe Guimarães; DE LIMA COSTA, Claudia. Interpretando o gênero. Estudos feministas, p. 9-41, 2000.

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Bruna Leite

Formada em cinema, eterna estudante de filosofia. Pós-graduanda em Gênero e Sexualidade. Escreve sobre filosofia, política, feminismo e artes.

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