“Laerte-se”, Parte 1: O que é ser uma mulher?

Estreou na Netflix o documentário “Laerte-se”, que apresenta Laerte Coutinho narrando suas experiências e enfrentamentos ao assumir-se mulher aos 60 anos, suas reflexões acerca das relações de gênero, com o corpo e os desafios encontrados pelos transgêneros. O filme é rico em reflexões e análises sobre diversos temas que atravessam os debates atuais sobre feminismo, gênero, sociedade, política, entre outros.

Devido a essa riqueza, a presente análise se desdobrará em três partes. Este primeiro texto tratará de uma pergunta lançada por Eliane Brum (que entrevista Laerte e divide a direção do filme com Lygia Barbosa da Silva): O que é ser uma mulher?

Já nas primeiras cenas identificamos que o filho de Laerte, Rafael, o chama de “pai” e o neto de “avô”. No entanto, Laerte refere-se a si no feminino. Esse assunto é abordado apenas com referência ao neto, que Laerte assumiu a figura de avô-masculino* na falta de alguém que representasse esse papel ao neto, pois o avô materno é falecido. Rafael afirma que o pai topou para suprir uma lacuna.

Neste cenário inicial, refleti sobre algumas questões, ainda sem conclusão: o fato do filho de Laerte tratá-lo como “pai” é compreensível se considerarmos que, desde sempre, Laerte foi seu pai-masculino e ele não poderia, a esta altura, ser outra coisa além disso, mas até que ponto não tratá-lo no feminino demonstra uma dificuldade de aceitação da mulher Laerte?; por que o neto precisa de uma pessoa que represente um avô-masculino?; qual a diferença em Laerte assumir esse papel de avô-masculino se ele é, de fato, uma mulher?; neste caso, ele não acabará sendo o avô-feminino, com atitudes femininas, que se vê e se coloca como mulher no mundo, que tem uma identidade feminina e que se relaciona com o neto enquanto mulher? Se sim, então, seria o caso apenas de ter alguém para chamar de “avô” no masculino?; com esta atitude de ser um avô-feminino, Laerte está colaborando com a desconstrução dos limites impostos pelo gênero?

Voltando ao filme, Laerte conta como foi a reação de seus pais quando ele assumiu-se mulher. Segundo ele, o pai não tem abertura para aceitar sua homossexualidade, mas reconhece que ele fez um esforço para compreendê-lo. A mãe é uma figura fundamental na vida de Laerte e reagiu, em um primeiro momento, com humor, oferecendo vestidos e saias velhas que não usava mais. Entretanto, por ser uma bióloga e ter uma concepção de vida pelo olhar da biologia, a mãe de Laerte não consegue entender o conceito de gênero, pois para ela é a biologia que dá sentido e lógica ao mundo, dita às regras, existe um modo natural e normal (sem aspas) de ser no mundo.

Quando Eliane pergunta “O que é ser mulher?”, Laerte responde:

Minha mãe, por exemplo, diz que é parir. E eu perguntei por que e ela disse que foi onde ela se sentiu próxima de uma ideia de ser mulher. Foi a grande realização existencial dela.

Eliane problematiza “Mas isso te deixaria de fora”, e Laerte complementa:

Sim, me deixa de fora. Quanto a isso eu não tenho ilusões, não. Ela [mãe] não acha que eu sou mulher.

A abordagem desse assunto com os pais parece ser um dos momentos-chave na vida de Laerte. Embora a visão de mundo deles seja contrária a sua transgeneridade, eles mostraram-se abertos a acolhê-la, o que muitas vezes não ocorre, como é abordado em outros momentos do documentário.

O olhar do outro sobre si apresenta-se em diversos momentos das entrevistas, em que Laerte mostra seus medos e receios. Esses sentimentos também aparecem em suas tirinhas, reflexos do processo em descobrir-se mulher. As mudanças no corpo, no trabalho e nos demais aspectos da vida foi para Laerte como uma “tirada de véu”. Para ele, essa invasão ao mundo feminino iniciou na forma de se vestir, que cada vez mais tem se tornado um meio de expressão.

Esse modo masculino, entre aspas, de se apresentar é falsamente despretensioso, porque ele tem uma pretensão. Claro que tem, né? Todos os modos têm.

Ela refere-se às normatividades impostas pelos costumes e tradições, baseadas nas distinções de gênero. Normatividades essas que estão presentes na maneira de vestir, na maneira de se comportar, de cuidar do corpo, de falar, nas coisas mínimas e cotidianas. Neste ponto, Laerte afirma que teve que aprender a ser mulher, entender essa nova linguagem, esse novo modo de ser no mundo.

Nesta investigação sobre a sua forma de ser mulher no mundo, Laerte escolhe aquilo que lhe cai bem, aquilo que se adapta a sua personalidade, aquilo que combina com seu estilo. Afirma que no início respondia a questões como “Você é homem ou mulher?” dizendo que era um homem que estava assumindo uma linguagem e uma cultura que é tida como feminina. No entanto, depois de um tempo, a resposta mudou para “Eu sou uma mulher”. Essa mudança na forma de se colocar no mundo fez parte de um longo processo, que durou cerca de 4 anos. Quando Eliane Brum novamente pergunta “O que é ser uma mulher?”, Laerte responde:

Eu tenho aprendido que é possível ser mulher com a minha genitália, sim. O que é se sentir mulher? É algo que eu sinto. É algo que eu venho me sentindo cada vez mais.

Laerte, até o momento de produção do documentário, não havia realizado a troca de sexo, nem colocado silicone. A questão do corpo apresenta-se como emblemática em diversos momentos do documentário. A relação entre a identidade e o corpo é extremamente íntima, entretanto, até que ponto o corpo é importante para ser mulher? Estes questionamentos acerca do corpo pretendo abordar no próximo texto.

Até lá, indico que assistam o filme “Laerte-se”. É maravilhoso 🙂

Avaliação: ★★★★

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*utilizo a relação de parentesco hífen gênero (avô-masculino, avô-feminino, pai-feminino) para relacionar o papel que representa essa relação de parentesco com as atitudes esperadas em relação ao gênero, ou seja, que o avô e o pai sejam homens e que tenham atitudes consideradas masculinas.

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Bruna Leite

Formada em cinema, eterna estudante de filosofia. Pós-graduanda em Gênero e Sexualidade. Escreve sobre filosofia, política, feminismo e artes.

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