Justiça x Vingança

Na noite do dia 9 deste mês (junho) foram presos dois homens com a suspeita de tatuar uma frase no rosto de um adolescente em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo. Na ocasião, os indivíduos escreveram na testa do garoto de 17 anos a frase: “Eu sou ladrão e vacilão”.

Ao me deparar com a notícia, veio-me uma pergunta: “Será que o jovem realmente mereceu?”; nesse momento (para ter uma opinião formada) tive que me situar com relação às definições de justiça e vingança. Ambos os termos possuem uma linha extremamente tênue entre si, o que torna o assunto muitíssimo complexo e cheio de peripécias.

Para o dicionário Houaiss, a palavra “justiça” tem por definição ser “um princípio e atitude de dar a devida punição a cada um”. Entretanto, a vingança é definida como uma “retaliação a algo que lhe foi feito”.

A partir desses significados, começamos a entender a problemática do tema. Todavia o acontecimento não é o que mais me assusta, mas sim o analfabetismo funcional e a ignorância da população ao observar os comentários das pessoas, tanto nas redes sociais, como no dia a dia.

O que a maioria da nação não compreende é que quem possui o papel de fazer o que denominamos “justiça” não é a população, mas sim, o Estado. Nesse momento percebemos que a confusão de conceitos é presente no debate e altamente questionável. Sendo assim, quando alguém afirma que irá fazer justiça com as próprias mãos, esse indivíduo estará (de acordo com a Lógica fregeana) sendo ambígua, ou seja, anulando o seu argumento por conta da contradição desses termos.

Além dessa polêmica entre significados, há quem diga que o fato de termos um grave problema de segurança pública justifica o ato de tatuar a frase no rosto do adolescente por causa do crescimento da revolta no Brasil. Nesse caso (ao meu ver), temos um preocupante obstáculo que recorda Maquiavel quando declara (na sua grande obra “O Príncipe”) que os fins justificam os meios. Se o Estado é ausente, quer dizer que tudo pode valer? A vingança é justificada se o mesmo não estiver presente? O que nos diferencia de criminosos não seria a capacidade de refletir sobre nossas escolhas e aplicar isso no dia a dia?

Em suma, se a vingança é validada para o povo por conta de termos um governo que não proporciona a devida segurança para seus cidadãos, então vale tudo? Estamos vivendo em um octógono do UFC (Ultimate Fighting Championship) e é ali que tudo se resolve? A empatia para com os seres humanos se esvai a cada dia que passa. Além disso, o analfabetismo funcional é diretamente proporcional ao ódio.

Como afirma Leonardo Sakamoto (jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo), falta amor no mundo, mas falta também interpretação de texto.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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