Infinito

Eu nunca tive contrariedades com a morte, ao contrário, sempre me mantive responsável por dar a ela os presentes do mundo (pessoas).

Sempre mantive no pensamento que tudo que eu criava era de destino ser somente dela, eu criava presentes vivos para no fim serem possuídos e admirados por ela. Era uma alegria que estampava a face “séquida” (seca) da morte, que a fazia preencher-se.

Manter uma criação de laço com alguém tão fatal era tenebroso, porém, ao mesmo tempo revelador e realista. Tenebroso pelo fato de retirar toda vivacidade dos meus bens vivos dado a ela e revelador porque era a estrutura real do nosso fim. Em alguns momentos “surtivos” (surtos) me fazia pensar em desistir de lhe agradar, desistir de ser sua parte, condenando assim a nossa relação de tempos.

Muitos a temiam por não se mostrar uma fisionomia agradável. Não éramos irmãs, entretanto nossa ligação era eterna. Nosso parentesco não se igualava, nosso DNA era interminavelmente desregulado, transfigurado a não se encaixar, somente nos pertencíamos uma a outra de uma forma cruel, mas realista. Mesmo exalando controvérsias em nossas personalidades, éramos uma fixação real da nossa existência, início e fim.

Ela era a Morte, eu era a Vida. Eu a amava assim tal quanto ela, só não nos misturávamos, preferíamos conviver a distância, mas eu nunca perdia a oportunidade de agradá-la com meus mimos carnais.

O momento de embrulhar almas de diversos tipos e formatos era cargo que se dirigia a mim, alguns chegavam de milhões em sua porta, como se eu mendigasse sua atenção. Talvez a morte me hipnotizasse de tal forma que me induzia a enviar mais e mais almas a ela, talvez a morte me mostrasse que a raça humana não tinha salvação e que a extinção dela seria o seu maior presente dado por mim.

Existirá um dia do excesso de carnes (humanas) dadas, onde esvaziará o meu mundo, para esgotar o mundo da morte. Em seus excessos perceberá que eu também fui viva e que a vida, sua aliada, tornara-se também presente em suas mãos. Fazendo de tudo neste plano uma passagem.

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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