Indagações sobre as lágrimas

Num momento de dor e desespero, fico furioso, fecho-me em mim mesmo e me armo de tudo que é possível. Tenho vontade de explodir em violência, mas caio no silêncio e engulo minha dor com uma saliva seca e pastosa. Não choro, nenhuma lágrima escorre dos meus olhos, apesar de uma grande vontade de chorar, mas não consigo. Meus olhos continuam secos e opacos. Será que minhas lágrimas secaram?

Isso me chama atenção, ouço teorias, opiniões, fantasias, lendas sobre as lágrimas. O que são elas?  Você nunca ficou curioso em entender essas gotinhas, salgadas e viscosas que saem dos seus olhos?

Já viu um animal chorar? Será que chora de dor ou se sente magoado? O animal sente medo por instinto, mas não tem sentimentos e suas lágrimas podem ser de dor, ou uma reação natural dos olhos, ou por lembranças negativas.

E para nós humanos, para que servem as lágrimas? Creio que acontecem para expressar sentimentos, demonstrar dor ou chantagem. Choramos quando somos atingidos emocionalmente ou será muito mais que um sintoma emocional?

Qual a ligação das lágrimas com nossos sentimentos de empatia, raiva e pesar, felicidade, surpresa, paixão, arrependimento. Ouvi falar que nas diversas expressões sentimentais as lágrimas tem um gosto específico… Pode isso?

Fico analisando sobre o que sei sobre meu corpo físico, me surpreendo, sei muito… e sobre os meus sentimentos sei pouco, sou pouco sentimental, outras pessoas são mais. Uma vez, quando criança, alguém me contou uma velha teoria lá do século 17, onde diziam que os sentimentos, principalmente o amor, aqueciam o coração, que gerava vapor d’água para se resfriar, o vapor subia à cabeça e se condensava perto dos olhos escapando  por eles em forma de lágrimas, eu achava isso fantástico! Quando mais tarde comecei a ouvir que as lágrimas eram produzidas por uma glândula lacrimal. Será que esse líquido além de mostrar que sinto algo, teria alguma outra serventia? Muitos dizem que tem a função de deixar os olhos úmidos, mas aí lembro: toda vez que piscamos umedecemos os olhos sem precisar chorar.

Analisando, cá com meus botões, provocariam as lágrimas uma conexão social entre os seres humanos? O bebê chora porque não pode falar, chora para ficar conectado com sua mãe quando quer carinho, ou sujou as fraldas, quando sente dor, porque veio ao mundo mal equipado e precisa desenvolver outros sentimentos para aprender a se comunicar e se “virar” sozinho. Também choramos quando algum problema está aquém da nossa capacidade; as lágrimas, de certa forma, também ativam a compaixão, porque nos emocionamos quando vemos lágrimas, mesmo de mentirinha. Ouvi falar também que são compostas de enzimas, lipídios metabólicos e eletrólitos e estão presentes em todas as lágrimas e só as lágrimas emocionais tem mais proteínas, tornando-as mais viscosas e assim escorrem mais lentamente pelo rosto (talvez seja para serem notadas). Elas também mostram aos outros que somos vulneráveis e isso é fundamental para as ligações humanas.

Portanto, podemos entender que as lágrimas são produzidas em cumplicidade com as áreas neurais do cérebro e que também podemos usá-las para chantagear. Quem já não fez isso? A criança que quer algo que lhe é negado chora e quase sempre consegue. Os adultos também fazem uso dessa chantagem, e como fazem… Aprendemos isso desde a infância, primeiro por não podermos falar  e mais tarde o fizemos por instinto, sem perceber.

Você já se perguntou, quando briga com o seu amor, você chora? Talvez queira pedir perdão ou ser perdoado por um sentimento de culpa, medo de perder, arrependimento e deseja o perdão dele. Ou uma chantagem para que ele se compadeça com você?  Sabe por quê? Além de tudo, o choro é um grande inibidor da raiva e visto como um calmante e evita conflitos maiores por gerar compaixão.  Por exemplo, alguém te magoa profundamente e você parte pra cima dessa pessoa com o intuito de agredi-la (encher de porrada, mas por um razão essa pessoa chora). O que acontece? Você vendo as lágrimas se retrai e a sua impressão a respeito dela muda e começa a ouvi-la, se compadece, apesar do mal que ela lhe fez.

Outro fato curioso que ouvi certo dia e me chamou atenção, dizia que as lágrimas das mulheres continham uma substância que inibia o estímulo sexual dos homens, (e eu acho que muitas já descobriram isso) numa experiência, quando cheiraram lágrimas reais, 24 entre 50 homens se sentiram menos excitados, com o nível de testosterona caindo drasticamente; e ao contrário; as lágrimas dos homens, têm o mesmo efeito nas mulheres.

E aqueles que nunca choram, como ficam nisso tudo?  Seriam menos sociáveis?

Dizem que sim, geralmente se isolam e são menos conectados, são mais negativos, agressivos, com raiva, fúria, do que quem chora. Será que as pessoas que não choram são diferentes das que choram? 94% das pessoas falam que chorar dá alívio e faz bem para a mente e o corpo. Às vezes me pergunto: porque os pais sempre falam para o filho homem: “Segura o choro!”, “Não chore!”, “Engula o choro!”. E para as meninas: “Pode chorar…”, “chora…”, “põe pra fora”, “não engula o choro, faz mal”. Talvez seja essa a razão das mulheres serem mais sensíveis? E para os homens, talvez seja essa a razão do machismo?  Cansei de ouvir a frase: homem que é homem, não chora.

Portanto, o choro é um mistério, eu acho, mas cheguei à conclusão que nada sei a respeito, porque só ouvi falar, se ele gera compaixão, une os indivíduos ou manipula é uma questão pessoal de cada um. Entendo que sempre foi usado como ferramenta pelos seres humanos. Por termos sentimentos, alguns choram mais, outros menos, mas percebo que todas as pessoas já conseguiram grandes coisas através dele, ou minto. Mas de uma coisa tenho certeza: as lágrimas geram uma grande união entre a humanidade e sem elas o mundo seria frio e violento, ou seriam elas por acaso um lubrificante do amor?

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Foto de perfil de Flávio Luís Schnurr

Flávio Luís Schnurr

Descendente de pais russos; artista; escultor; designer e escritor. Procura viver dentro da realidade sem perder seus princípios de vida na mais absoluta verdade. Catarinense radicado em Curitiba há mais de 30 anos.

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