Hipocrisia Política

por Ricardo Luis Reiter
    Cada dia fica-me mais claro que a melhor definição, mesmo que seja por um exemplo, sobre o que é hipocrisia política, é aquela que nos foi deixada por Renato Russo. O líder da banda Legião Urbana assim cantava (e hoje nós ainda repetimos, como se fosse uma mantra sagrado): Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da Nação. Logo após, vem a derradeira pergunta: Que país é esse? E os fãs tem a audácia (ou será criatividade?) de responder: é a p### do Brasil.
     Dando continuidade ao tema que já iniciei no texto que foi uma introdução política[1](ou ao menos, à minha compreensão política), hoje avançaremos em nossa discussão e analisaremos e aprofundaremos a seguinte questão: o que leva a Política a curvar-se aos interesses políticos? Ou, dito de outra forma, quais as consequências da Política curvar-se aos interesses políticos?
       E aqui preciso fazer uma pequena nota.
      Referir-me-ei aqui ao termo Política no que diz respeito ao conjunto de leis de determinado setor (ou a soma dos conjuntos de leis de todos os setores). Por exemplo, Política de Educação diz respeito ao conjunto de leis que regulamentam e direcionam o modelo, ou modo da educação ser pensada e executada dentro de um território. O mesmo acontece com a Política da Assistência Social, Política de Segurança Pública, Política de Habitação, etc. Diante disso, quando eu usar o termo Política estarei me referindo ao conjunto de todas as Políticas específicas. Em outras palavras, em termos mais filosóficos, Política irá se referir ao contrato social que rege as condutas dos cidadãos dentro de determinado território, bem como as contrapartidas oferecidas pelo governo. Pode parecer confuso, mas durante a leitura ficará mais claro e essa noção geral será facilmente compreendida.
Há uma categoria de pessoas felizes. Essas pessoas felizes no Brasil seriam aquelas que acreditam profundamente, e são muitas pessoas acreditam, que a corrupção está a encargo de um partido. As pessoas que acham que a corrupção está a cargo de um partido, e que bastaria tirar esse partido do poder, para que o reino da justiça e da igualdade se instalasse no país, são pessoas muito felizes. São pessoas que substituíram cultos como do Papai  Noel e do Coelhinho pelo culto da corrupção isolada. E quando eu digo isso, eu não estou dizendo que um ou outro partido não são notáveis pela corrupção. Estou dizendo aquilo que venho dizendo seguidas vezes em muitas manifestações na televisão ou em textos, que a corrupção que Hamlet nota começa no leito da sua mãe na Dinamarca. A microfísica do poder. A corrupção começa no andar pelo acostamento. A corrupção começa no recibo de dentista comprado para entregar um Imposto de Renda. A corrupção continua no atestado médico falso entregue pelo pai para justificar o filho, que apenas vagabundeou para a prova. A corrupção continua com o colega que, na aula de ética política em filosofia, assina a lista pelo colega, estudando Espinoza e a sua ética. A corrupção continua em todos os lugares, é apenas numa ponta do iceberg, como último elemento da corrupção, ela chega a um partido, a um governo e a um poder. Se a corrupção fosse de um grupo, eu seria um pessoa profundamente feliz. Rejeitaria Hamlet, adotaria Paulo Coelho, seria uma pessoa absolutamente tranquila, porque a partir desse momento, eu teria consciência de que eliminando aquelas pessoas que são do mal, eu estaria livre. Hamlet vai percebendo que o mal vai por todos os lados, inclusive nele e a consciência, como ele diz no seu mais famoso monólogo, ele vai dizer a consciência nos torna covardes.[2]
    A democracia brasileira (e na verdade, todos os modelos de governo brasileiro) carregam o estigma da corrupção. Há aqueles que defendem que a ditadura foi o governo menos corrupto que nosso país experimentou. E isso é facilmente compreensível. Não havia internet, tudo era mascarado, a mídia estava ao lado do governo, a oposição era silenciada (basta lembrar da célebre canção de Chico Buarque e Milton Nascimento – Cale-se) e os poucos documentos foram destruídos. Sem registro ou alguém para contar a história, a mesma pode ser recontada como convém. Fato é que a democracia atual, unida ao poder de comunicação das redes sociais permite reações maiores e espontâneas ao que é revelado.
   A análise de Karnal, fundamentada em Hamlet, revela uma verdade que poucos dão-se conta. Em primeiro lugar, a corrupção não é algo que diga respeito apenas ao partido político que está no poder. Ela se enraíza na Política em sua base. Mas deixemos esse primeiro ponto a ser discutido um pouco mais adiante. Em segundo lugar, a corrupção penetra a todos. Todo homem tem seu preço. Alguns possuem um preço muito baixo e são mais suscetíveis a serem corrompidos. Outros possuem um preço muito alto e torna-se desinteressante tentar corrompê-los. Mas todos temos nosso preço. A prova disso está no modelo político: toda figura política foi alguém comum alguma vez. Qualquer um pode galgar os degraus da política. E quanto mais subir, maior será a oferta pela sua corrupção.
     Mas eu apresentei que analisaríamos o porquê da Política curvar-se aos interesses políticos. E aqui voltamos novamente ao primeiro ponto, sem perder de vista o segundo. Fato é que o modelo político brasileiro, ou a democracia brasileira (e isso é comum em todas as democracias) é um espelho da sua sociedade. Se hoje a estrutura política brasileira está corrompida é porque, em primeiro lugar, a sociedade está corrompida. Porque duas são as portas de entrada da corrupção dentro da estrutura governamental de um Estado. A primeira é elegendo pessoas que tenham um preço muito baixo. E aqui não existe muito o que possa ser feito para prever se o candidato irá ou não se corromper. A segunda porta de entrada diz respeito as nossas corrupções pessoais. E aqui sim nós podemos agir. Karnal apresenta exemplos de corrupção diárias. Momentos do nosso cotidiano em que lançamos mão do famoso jeitinho brasileiro. Mas o brasileiro, que tanto protesta contra a corrupção, lança mão de artimanhas que usam da corrupção para serem efetivas para facilitar seu dia a dia. Eis a hipocrisia política. Voltarei a ela para fechar esse artigo muito em breve.
      Eu, entretanto, vou analisar agora como a Política deixa de cumprir seu papel e passa a servir aos interesses políticos. E o farei aqui de uma forma um tanto acusatória. A Política, indiferente de qual das áreas (saúde, segurança, educação, assistência social, previdência, etc.) é executada por pessoas comuns que, geralmente, desempenham seu papel como agentes da Política, através de nomeações em concursos públicos. Até aqui nenhuma novidade. E se funcionasse assim, a Política não se curvaria, ou seriam muito menos propensa a curvar-se aos interesses políticos. A realidade, no entanto, não é nenhum mar de rosas. Acontece que a Política, indiferente de qual área, está nas mãos de pessoas cujo preço é muito baixo. É discrepante o número de concursados que, em sua posse, visitam gabinetes de deputados e filiam-se a partidos políticos, buscando vantagens como redução de carga horária, benefícios que não lhe cabem ou o famoso CC (cargo de confiança) para uma familiar próximo. É exatamente aqui que a Política começa a se submeter, a se curvar aos interesses políticos partidários. Porque nenhum benefício vem de graça. Chegará o momento da cobrança. E aquele que se vendeu não poderá dizer não. Terá que ir contra ao que está previsto na Política para satisfazer os interesses partidários daquele que lhe conseguiu benefícios. É aqui que a corrupção penetra nas bases do modelo político brasileiro. No ato de cada funcionário público que não cumpre com seu dever. E que dever é esse? Garantir que a política seja aplicada de forma a garantir o acesso da população a ela.
       Mas o que vemos são inúmeras crises em várias secretarias e ministérios. Rombos atrás de rombos. Prefeituras com mais da metade de seu orçamento comprometido com a folha de pagamento da “máquina pública”. Excessos de cargos de confiança, alguns até chegam a ser ridículos, pois nem escondem o seu verdadeiro papel, como é o caso dos articuladores políticos regionais.
       A realidade das secretarias e ministérios, corrompidos até sua raiz, seriam um deleite para autores como Maquiavel. São tantas manobras políticas, tantos cargos prometidos, tantos favores devidos, que não é de se espantar que pouco ou quase nada funcione de forma medíocre. Sim, medíocre, porque o que não é medíocre simplesmente é ridículo. As diversas Políticas não conversam. As secretarias e ministérios não conseguem sentar e criar metodologias em conjunto para a aplicação de suas respectivas Políticas. A população fica à mercê de um funcionalismo público corrupto, mal humorado e sem nenhuma pretensão de cumprir seu papel.
      E por fim, voltamos a hipocrisia política. O cidadão que reclama dos péssimos serviços é também aquele que, ao invés de acionar os órgãos de defesa ao consumidor, acaba optando por “molhar a mão” de quem está lhe atendendo, lançar mão de influência política partidária, buscar brechas para facilitar seu atendimento… Por não ter estudado política, proclama em alto e bom tom que não gosta de política e portanto não tem obrigação de estudar ou ler sobre política. Torna-se assim um analfabeto político que age como um hipócrita político, batendo panela que foi comprada sem nota fiscal, usando camisa da seleção comprada dos “camelôs”.
“Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.”


[1] REITER, Ricardo Luis. Analfabeto político: para que (m) serve? – introdução ao pensamento político. Disponível em http://blogdokadoreiter.blogspot.com.br/2016/03/analfabeto-politico-para-que-m-serve.html
[2]KARNAL, Leandro.Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GJ2gx1SCUiM a partir de 31min e 45 seg.

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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