Fora fascistas

Há expressões que abrangem pensamentos complexos. Uma, aggiornada, está em voga: fascista. Ela foi, contudo, apropriada. Certos grupos apossaram-se do termo e o usam para epitetar quem quer que lhes abra divergência. Tornou-se um facilitário argumentativo. Já não se opõem ideias. Pespega-se o rótulo: fascista.

O que caracteriza um fascista? Ele investe contra o interlocutor; carrega certezas; constitui inimigos; divide o mundo entre “nós” e “eles”. As regras gerais só lhe valem se lhe convêm. Pontifica sobre leis, política, economia, convivência social. O fascista categoriza sobre a vida. Para o fascista, o divergente é fascista.

O fascista é militante da repetição. Mentirosos, são os Goebbels das redes sociais: são coxinhas; são mortadelas. Coxinhas, por ódio de classe, têm nojo da ascensão social de “certa gente”. Mortadelas (sobretudo a intelectualidade orgânica a soldo) não suportam a derrota da sua visão de mundo.

O pensamento coxinha compõe a trajetória social do Brasil: é excludente hoje como sempre o foi. A coxinhice histórica produziu as favelas, os alagados, as paliçadas, as periferias, os morros, os boias-frias, os sem-terra, os sem-teto. A nossa insaciável classe dominante engendrou um “modo” social excludente.

A “lógica” mortadela é de vingança de classe. “Agora é a nossa vez”. Nisso, ávidos, se lambuzaram. A mortadelice (ou a petralhice), no governo, institucionalizou a corrupção como política de Estado. O petralhismo foi levado às barras dos tribunais, frequenta cadeias. Soçobrou, mas não se conforma.

Da coxinhice, sabe-se pela História. Da mortadelice, os mortadelas encobriram cada canalhice. Na resposta às coisas coxinhas e mortadelas postulo a universalidade das regras e a coerência das críticas. Exemplo: O impeachment de Dilma seria, para os mortadelas, um golpe. Acusam a imprensa de havê-lo articulado.

Ora, os mortadelas mesmo foram protagonistas do impeachment de Collor; basearam-se em reportagem da Veja. Os mortadelas pediram cinquenta vezes o impeachment de todos os presidentes da República pós-Ditadura. Só de FHC pediram-no três dúzias de vezes. Ninguém jamais aventou que era golpe.

Os mortadelas introduziram o impeachment na História recente da América Latina. Por que o impeachment não seria golpe quando interessa ao PT e como tal é havido quando dirigido contra uma presidenta petista? Como alguém se convence de que o PT está além de suas próprias medidas?

Agora, Temer indica Alexandre de Moraes para compor o STF. Mortadelas acusam-no de filiado ao PSDB. Edmundo de Arruda Lima, teórico e militante do Direito Alternativo: “Toffoli reprovou duas vezes para a magistratura. Alexandre de Moraes passou em primeiro lugar para o MP/SP. Um é PT, outro, PSDB”.

Segue: “Lula (que indicou Toffoli) foi mais inteligente que Temer, ou o contrário? Isso não os faz paradigma de nada”. Edmundo lembra que disso tudo resta algo positivo: Foram-se as ilusões. Pergunta se vamos criar outras (Facebook). Pensar, contudo, desimporta à lógica do fascismo mortadela.

Alexandre de Moraes tem as melhores credenciais para a ser ministro do STF. Bateria qualquer currículo. Comparando a indicação de Lula com a de Temer, é de se dizer: ao contrário de Dias Toffoli, falto de título acadêmico ou de obra jurídica relevante, Moraes é doutor (USP), livre-docente e autor de referência.

É recorrentemente citado nas cortes superiores, adotado nos melhores cursos de Direito, texto necessário em qualquer avaliação jurídica. Sua comemorada obra Direito Constitucional alcançou a 32ª edição. Juízes e promotores o estudaram quando buscaram aprovação em concursos. Não é nada pouco.

Não vejo Toffoli menor do que Moraes. Mas Moraes certamente não é menor do que nenhum dos oito ministros indicados pelo PT. Sobre ambos terem filiação partidária, penso que isso é currículo a ostentar. Sobre Moraes haver cumprido ilibadamente larga carreira política, anoto minha admiração.

Insulto suprindo argumento. Violenta impostura midiática. Fascismo. A autoconcedida autoridade mortadela para vetar o nome de Alexandre de Moraes é um embuste em contramão da vida democrática. O presidente indica, o Senado da República aprecia. É a lei e vale até que seja mudada.

Foi assim com Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma. Mudanças no processo, só por meios institucionais. Democracia é política, eleição, voto, legitimação, mandato. Filiar-se a um partido é digno (Toffoli, Moraes). Aos ressentidos de mídia e suas posturas jamais legitimadas, duas palavra: Fora fascistas.

Imprimir

Compartilhe:

Foto de perfil de admin

admin

Perfil para publicação de artigos esporádicos e com temas diversos.

  • Rogerio Augusto Bilibio

    Poderia acrescentar um detalhe: foi golpe tirar Dilma por um entendimento contábil. Collor tinha envolvimento direto com manobras corruptas que o beneficiaram. De Dilma, nada se provou. Além disto, Temer deveria ter caído junto com Dilma. A forma como Dilma foi tirada foi um golpe. Tivessem prova do ilícito, colocariam na mesa. Não digo que Dilma não deveria cair. digo que TODOS os presidentes cometeram ilícitos. Se só dois foram afastados, é porque o ilícito não importa. Importa a política.

Pular para a barra de ferramentas