Filosofia na Educação

A filosofia sempre esteve relacionada ao conceito de reflexão, conhecimento e autoconhecimento. A palavra filosofia, de origem grega significa amizade pela sabedoria. Embora para muitos ela esteja confinada ao campo estritamente teórico, o desafio consiste em relacionar e pontuar a teoria com a prática, ou seja, a práxis teórica. Neste texto vou abordar de maneira resumida a relação que a filosofia tem com a educação, alguns dos principais filósofos que deram base ao início da educação bem como correntes de pensamentos vigentes, numa abordagem humanizada da educação.

É nos apresentando que a filosofia envolve conceitos como: sabedoria, atitude, conhecimento, postura crítica, visão de mundo, estado de atenção e busca pela verdade das coisas. E a ideia de “pensamento filosófico” está profundamente interligada com a ideia de “atitude filosófica”. A postura de aceitar a realidade como algo natural e costumeiro, significa opor-se à proposta da atitude filosófica. Neste ponto não significa negar a realidade, mas apenas não aceitar a proposta: é assim, porque é assim, a atitude filosófica significa buscar entender o porquê das coisas serem como são e, se necessário, criticá-las.

A relação da amizade com a filosofia significa estar atento e em constante reflexão sobre o mundo a nossa volta, a qual nos instiga a sair do estado de acomodação de nosso estado crítico, ou seja, nos impõe à sermos críticos. O filósofo Sócrates corrobora dizendo:

“Uma vida sem busca não é digna de ser vivida” (Sócrates apud REALE; ANTISERI, 2002)
Uma vez esta perspectiva já consolidada na filosofia, esta frase pode ser completada com dois questionamentos: “Qual o sentido de nossa busca?” ou “O que realmente devemos buscar?”. Assim a proposta da filosofia é ampliar nossa consciência, fazer-nos questionar e refletir sobre nossa realidade sendo contrário a:

  • Aceitação inconsciente da rotina do mundo a nossa volta;
  • Permanência do discurso conformista da realidade;
  • Naturalização da história e dos processos sociais;
  • Estagnação do desenvolvimento cultural;
  • Ausência de consciência crítica.

Nesse sentido a filosofia distingue um papel único, nos fazendo questionar e refletir sobre o que talvez jamais faríamos porque tendemos a agir diante do mundo como se tudo fosse programado. Não notamos que nossa qualidade humana de transformação e evolução é substituída pela continuidade de programa. E isso significa perda de liberdade. (TOMELIN; SIEGEL, 2013).

Então, surge um dilema sério sobre nossa existência. Nossa essência e condição de liberdade são diminuídas quanto mais se estabelecem padrões para tudo: consumo, lazer, trabalho, educação, características culturais. Neste contexto, diminuímos a condição de seres históricos para sermos máquinas programadas e conformadas. Assim, o tema da consciência e da visão de mundo se tornaram centrais no pensamento filosófico.

O surgimento da filosofia ocidental

Para melhor compreendermos a relação da filosofia na educação devemos localizar-mo-nos na origem da própria na cultura ocidental. A filosofia tem seu início na Grécia, no século VI a.C. Quando alguns cidadãos propuseram uma alternativa a explicação do mundo através do conhecimento mitológico. Tal atitude inaugurou o pensamento racional.

O conhecimento filosófico se apresenta na passagem gradativa das crenças mitológicas. Alguns pensadores utilizam o termo “passagem do mito para a razão” para descrever isso. Porém, não se trata aqui de uma passagem clara e objetiva, pois a mitologia não desapareceu por completo, mas influencia até as culturas contemporâneas. Esse momento de ascensão do pensamento racional não foi exclusivo da Grécia, ocorreu em outras culturas como a China e Índia, em momentos e condições ainda diferenciados.

O berço cultural da Grécia, por volta de 550 a.C., foi onde nasceu a filosofia, possivelmente a ideia de ciência, em meio a divisão por diversas cidades-estado, ponto de partida para a formação do pensamento ocidental. Os primeiros passos em direção ao pensamento filosófico, por consideração, ocorreram numa região chamada Jônia, no século VI a.C. Com um grupo de pensadores, mais tarde chamados “pré-socráticos”, seu objetivo primordial era encontrar um elemento básico na natureza que constituísse todas as coisas. (TOMELIN; SIEGEL, 2013 / REALE; ANTISERI, 2002).

Até certo ponto, essa busca foi o embrião para o surgimento das disciplinas da física e da química, em que a especulação central  tratava da origem da natureza e da realidade física. Personagens como Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Tales entre outros destacam-se neste período. Assim, a explicação mitológica da natureza física aos poucos perdeu espaço para o avanço das teorias pré-socráticas e logo em seguida para: Sócrates, Platão, Aristóteles e um série de escolas filosóficas.

Tratar de conhecimento filosófico significa desenvolver consciência e emancipação da condição humana. É tratar de liberdade e responsabilidade, pois o objetivo do conhecimento também passa pela busca de verdades.

A filosofia e o educador

A reflexão significa a ideia de voltar atrás. É um repensar, e, se toda reflexão é pensamento, nem todo pensamento é reflexão. O educador deve estar em constante processo de reflexão, e fazer uso da filosofia. No entanto, a filosofia não é qualquer tipo de reflexão, é preciso que ela se enquadre em três requisitos: a radicalidade, o rigor, e o conjunto (SAVIANI, 2007).

Radical, no seu sentido bem próprio e profundo como quer a filosofia, quer dizer chegar até as raízes do que se pretende estudar; Rigoroso é ter rigor sistemático, ter métodos e clareza do que se faz; e Conjunto é a perspectiva de estudo que deve sempre levar em conta o conjunto e a complexidade da realidade, nada sendo isolado de seu contexto. A tarefa da filosofia na educação é oferecer aos educadores um método de reflexão que lhes permita encarar os problemas educacionais, penetrando na sua complexidade e encaminhando às soluções. O educador deve estar aberto e efetuar o pensamento e a prática filosófica.

Sócrates na educação, diálogo e autoconhecimento

Sócrates foi um questionador em seu tempo, tinha uma posição independente sobre a crítica social e utilizou um método para a compreensão do bem e do mal, com base no questionamento da realidade (TOMELIN; SIEGEL, 2013).

De maneira resumida, a proposta de Sócrates apresentava-se com os seguintes aspectos:

  • Busca assumida pela sabedoria e virtude;
  • Promoção de um saber mais autêntico sobre a realidade;
  • Incentivo à ampliação do autoconhecimento;
  • Evitar qualquer julgamento sem conhecimento profundo de causa;
  • Desconfiar das aparências para verificação das verdades;
  • Reconhecer as limitações do discernimento humano;
  • Promover o desenvolvimento da capacidade intelectual dos indivíduos;
  • Ampliação do método racional para a compreensão da realidade.

As principais concepções da educação atual, indiscutivelmente, reproduzem as ideias que foram sistematizadas pela filosofia socrática. A figura de Sócrates foi divisora na história da filosofia. Por isso, os filósofos anteriores a seu tempo, cuja preocupação era com a natureza física, eram conhecidos como pré-socráticos. A partir dele, a filosofia alterou-se para um novo centro de atenções: o desenvolvimento do ser humano, a capacidade intelectual do conhecimento, a política e a ética.

Sócrates é conhecido por seu método prático baseado no diálogo, na dialética que tem como objetivo desenvolver um conhecimento seguro sobre as coisas, método que se dá a partir de dois pontos principais: a ironia e a maiêutica (TOMELIN; SIEGEL, 2013).

Assim, a ironia é o momento inicial do método socrático e significa reconhecer a própria ignorância. A palavra “ironia”, na versão grega, denota a atitude de interrogação e questionamento. E maiêutica significa que somente quando o indivíduo percebe suas limitações do seu discernimento é que está preparado para reconstruir e desenvolver sua capacidade intelectual (MORREL, 2014).

Platão e o mundo das ideias

Platão é um dos mais citados filósofos da história da filosofia ocidental, ele foi o fundador da Academia de Atenas. Segundo Marcondes (2010), Platão foi o primeiro a constituir a filosofia como uma formulação e sistematização clássica.

Seu trabalho mais clássico, extraído de seu livro A República, o mito da caverna (ou alegoria da caverna), gera um intenso debate sobre a questão do sentido da filosofia na educação. Nesse sentido Carneiro faz uma reflexão sobre:

Quando aplicada em sala de aula, tal alegoria resulta em boas reflexões. A tendência é a elaboração de reflexões aplicadas a diversas situações do cotidiano, em que o mundo sensível (a caverna) é comparado às situações como o uso de drogas, manipulação dos meios de comunicação e do sistema capitalista, desrespeito aos direitos humanos, à política etc. Ao materializar e contextualizar o entendimento desse mito é possível debater sobre o resgate de valores como família, amizade, direitos humanos, solidariedade e honestidade, que podem aparecer como reflexões do mundo ideal. (CARNEIRO, 2010).
Resumidamente, o mito da caverna para a dimensão pessoal, deve incitar o permannente desenvolvimento do senso crítico e a superação da  alienação humana.

Paulo Freire: a educação como processo de humanização

Freire é brasileiro, filósofo da educação contemporânea e é reconhecido internacionalmente na área. Seus trabalhos mais importantes são Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Autonomia, obras estas publicadas em mais de 20 idiomas. Os conceitos pertinentes sobre Freire são: humanização, autonomia, consciência de sujeito e de mundo, aprendizagem e função da escola. (MORELL, 2014).

A concepção de Freire sobre o processo educativo e a metodologia de aprendizagem, partem necessariamente do aluno e o contexto social em que está imerso. Desse modo, a aprendizagem acolherá a complexidade da existência de quem está ensinando e aprendendo, jamais isolando o indivíduo como se fosse apenas uma ferramenta ou objeto isolado de sua realidade. (KEIM, 2001; FREIRE; 1996).

Conceito de humanização

A formação da sociedade (relação que os homens estabelecem entre si) acontece num processo. É uma dinâmica em que se estabelecem confrontos de interesses sociais e econômicos, que, em grande parte, toca na ganância pela posse de bens materiais ou pela luta da sobrevivência (KEIM, 2001).

É perante a esse exemplo que a pessoa se encontra diante de dois caminhos: optar pela humanização ou negá-la. A escolha de um dos caminhos, geralmente, é estabelecida por condições históricas e sociais que fazem parte de cada indivíduo. Este indivíduo que é um ser em construção, nunca está acabado e sua construção se dá a partir de suas condições sociais (KEIM, 2001).

A desumanização pode ser definida pela negação de diversas culturas que vão construindo o cotidiano da pessoa. É a negação da complexidade e a diversidade que formam continuamente cada indivíduo. A humanidade é desconfigurada quando se impõe um modelo único de cultura. Em nosso tempo, a desumanização acontece quando o modo de vida é baseado na competitividade, na exploração do capital e na ideologia de mercado. Quando as pessoas ficam submetidas a esses valores, a relação entre as culturas acaba por criar e reproduzir injustiças, exploração e violência (FREIRE, 2002).

Freire nos explica que: na dinâmica entre oprimido e opressor, ambos têm sua humanidade roubada, fato que é determinante e dificulta a ruptura para um sistema social alternativo. A humanização é uma busca permanente do ser humano, não é um fim em si mesmo, mas um meio para alcançar outro objetivo (FREIRE, 2002).

Freire e educação como proposta de humanização

Uma ideia inicial é que a educação pode reforçar os mecanismos sociais que viabilizam a desumanização e a exclusão social. Essa argumentação de Freire, além de contradizer o discurso oficial e conservador da época, apresenta a educação não mais como um reflexo da sociedade, mas como uma possibilidade de alteração social. Logo, para Freire, o ato educativo é necessariamente um ato político (KEIM, 2001).

Outra ideia de Freire é a “educação bancária”. O termo faz uma crítica à postura das escolas como reprodutoras da ideologia de mercado. Freire identifica algumas características comuns na relação entre educação e mercado. O conteúdo é compreendido como “produto”, os alunos são vistos como “clientes”, a vivência e o cotidiano em sala de aula são vistos como “produção” (KEIM, 2001).

A proposta de Freire vê a educação como um processo que pretende tornar as pessoas capazes de interpretar a realidade, de forma a perceber as relações de opressão e exclusão. Para Freire a educação tem que ser sistêmica, ser percebida como um jogo de poder que é social, sem interações, envolvendo a ética e os costumes. Este jogo de poder não deve excluir, mas deve acolher os seguintes elementos: a ética, as emoções, os sentimentos, a política em favor da vida, a solidariedade, a autonomia, e os conhecimentos contextualizados. O que também significa diminuir a competição e afastar o discurso conformista da realidade (KEIM, 2001).

Para concluir

Percebemos a importância da abordagem da filosofia na educação, no sentido que deve haver reflexão constante sobre os objetivos e uma abordagem dialética, porém, contextualizada, a fim de proporcionar na práxis a emancipação do ser humano e permitir que o mesmo interaja com a sociedade de modo crítico, reflexivo e com atitude filosófica.

Referências:

CARNEIRO, P. F. B. Mito da caverna: uma reflexão atual. Revista Filosofia. Ed. 23, 2010. Disponível em: <http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/23/mito-da-caverna-uma-reflexao-atual-178922-1.asp> Acesso em: 14 mar. 2013.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
KEIM, E, J. Paulo Freire e a complexidade na educação. Dialogia – Revista do Departamento de Educação – Centro Universitário Nove de Julho, UNINOVE, v. 0. p, 32-40, 2001.
MORELL, J. C. Pensamentos Pedagógicos e Sistemas Educacionais. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2014.
REALE, G. ANTISERI, D. História da filosofia: Antiga e Idade Média. v. 1. São Paulo: Paulus, 2002.
SAVIANI, D. Educação: do senso comum à consciência filosófica. 17. ed. Campinas: Autores Associados, 2007. (Coleção Educação Contemporânea).
TOMELIN, J. F.; SIEGEL, N. Filosofia geral e da educação. Caderno de estudos. Indaial: Uniasselvi, 2013.

Imprimir

Compartilhe:

Pular para a barra de ferramentas