Filme “A Chegada”: uma nova forma de interação

***AVISO DE SPOILER: O texto contém revelações sobre a trama.***

Certo dia, não fazia nada em casa e resolvi assistir “A Chegada”, um filme hollywoodiano de ficção científica. Um amigo já havia me indicado o filme e comecei assistir sem muitas expectativas. No entanto, me surpreendi com o grande interesse que fiquei no desenrolar da trama, que quebra com o estereótipo de filmes ficcionais, humanizando a história, aproximando a uma possível realidade futura.

O filme começa quando naves extraterrestres pousam na Terra, em lugares estratégicos. Diferente de outros filmes do gênero, os alienígenas não chegam ao nosso planeta de maneira hostil, já querendo aniquilar todos os humanos. As naves chegam e ali ficam. Sem ação ou contato com os humanos. O que querem esses seres de outro planeta? A ideia de que, se algum dia uma inteligência de outro planeta entrasse em contato com os terráqueos seria para nos matar ou conquistar (assim como os europeus fizeram nas Américas e na África, por exemplo) não se concretiza. Os visitantes não são hostis com os humanos, logo, os humanos não sabem o que fazer e como reagir. Então, o filme me ganhou. Por quê?

Dos milhares filmes, livros, séries e demais produções que tratam do contato dos humanos com seres de outros planetas, em sua maioria, sempre existe uma batalha, um conflito. Os humanos pressupõem que serão conquistados, mortos e aniquilados, então acabam se preparando para a batalha.  Filmes como “Sinais”, “Guerra dos Mundos”, “Independence Day”, até mesmo a comédia “Marte Ataca”, por exemplo, trazem a narrativa de extraterrestres querendo conquistar nosso mundo e nos aniquilar, refletindo em uma escala interplanetária as ações que ocorreram no passado da humanidade, na época das grandes navegações, por exemplo. Salvo poucos filmes, como “E.T.” por exemplo, mudam a perspectiva, colocando o humano como o ser que provoca a guerra, mostrando o alienígena como um ser bondoso.

“A Chegada” consegue unir essas duas possibilidades de contato entre humanos e seres de outro planeta, mostrando que esse primeiro contato pode ser mais complexo do que podemos imaginar. O potencial bélico humano é explorado em diversas cenas, bem como o clima de iminente guerra cria a tensão necessária aos espectadores que não gostam tanto de ficção científica, assim como eu.

O pouso de doze naves que não atacam nosso planeta, que estão ali, paradas de forma pacífica, causa estranheza nos diferentes povos. A falta de informação e de respostas sobre o que eles querem aqui na Terra vai se tornando, ao longo do filme, a panela de pressão terrestre que está prestes a explodir. O filme evidencia a tendência para guerra de alguns países, que só sabem resolver seus conflitos diante do confronto, com pouco espaço para o diálogo e o interesse em chegar a um acordo. Sem entender o que os seres das naves querem, uma linguista é contratada pelo governo americano para tentar se comunicar com os alienígenas e, juntamente com um físico, descobrir o que os visitantes querem aqui.

Precisei assistir ao filme duas vezes, pois esse é daqueles que te prende até o final, que contém a chave de todo o entendimento do filme. Quando “cai a ficha”, dá vontade de voltar ao início e, de porte do segredo já revelado, assistir a nuance de cada cena, cada detalhe, conseguindo construir a história completa na cabeça, desmanchando todos os nós ali presentes.

Outro ponto que considero muito interessante na narrativa é a questão da linguagem: chegam extraterrestres na Terra, eles não falam nossa língua, nós não falamos a língua deles, não sabemos nem se eles têm a alguma estrutura linguística ou alguma capacidade de comunicação cognoscível, não sabemos nada. O que fazer? Como bons americanos, contratar a melhor pessoa da área para auxiliar o governo, é claro. Então, entra em cena a linda Amy Adams, interpretando maravilhosamente a doutora em linguística Louise Banks. Acostumada a vê-la em filmes de comédia, me surpreendi com a força da atuação dela, pois acreditei em seu personagem o tempo todo.

Voltando ao filme, Louise é chamada pelo governo para entrar na nave espacial que aterrissou nos Estados Unidos e fazer contato com os extraterrestres, descobrir o que querem e, principalmente, se vão nos matar. A primeira dificuldade encontrada pela linguista é a própria linguagem: como se comunicar com eles? Que estruturas lógicas e linguísticas eles possuem? Se comunicam por palavras, gestos, sons? Não sabemos! Então, diante da pressão do governo e do grande desafio, ela inicia diversas tentativas de contato com os seres que habitam a nave. Porém, o medo de ser mal entendida por eles e provocar uma guerra é constante, sendo sempre reforçado pelos comantes do exército americano. Em meio ao caos mundial, provocado pela chegada das naves extraterrestres, Louise extrapola suas capacidades de compreensão para comunicar-se com os visitantes.

Quando os eles conseguem comunicar à linguista que estão na Terra para nos ajudar, fiquei de queixo caído. Você espera isso de um filme? Eu não! Diferente do filme “O dia em que a Terra parou” que os alienígenas vêm para destruir a Terra e por um ato de “misericórdia” eles desistem, pois o Keanu Reeves acredita na Jennifer Connelly quando ela diz que nós podemos mudar, “A Chegada” coloca-nos outra perspectiva: a da colaboração. Pois essa é a grande sacada do filme: os extraterrestres não querem nos aniquilar, pelo contrário, eles vêm para nos ajudar, para nos “dar” informações sobre o tempo-espaço que estão muito além do entendimento humano, até então, pois assim os humanos poderão ajudá-los no futuro. Neste momento, o ser humano é colocado como dentre os seres possuidores de inteligência no universo, o que tem menor grau de desenvolvimento em relação a outros planetas. Algo semelhante com o que os povos colonizadores fizeram durante as grandes expedições, novamente a referência ao passado da humanidade.

O filme é uma tentativa de tirar o etnocentrismo terrestre e colocar-nos apenas como mais um planeta que possui inteligência dentro do universo que é tão misterioso para nós, mas já compreendido pelos demais planetas. Coloca o desenvolvimento da linguagem como a chave para o entendimento espaço-tempo, que poderia mudar toda a compreensão humana sobre passado, presente e futuro. O interessante é acompanhar a forma como a comunicação entre a doutora e os visitantes acontece. Em uma tentativa de compreendê-los, o filme vai nos mostrando como a linguagem dos seres se desenvolve e pode ser compreendida por todos. Principalmente, o filme trata de sensibilizar o espectador para o outro, tirando o foco de si e prestando a atenção no outro, que está fora de mim, do outro lado, para que a comunicação se estabeleça. Além disso, a crítica a forma bélica como lidamos com opiniões conflitantes, faz com que o espectador repense suas próprias atitudes diante do mundo violento e caótico que nos encontramos hoje. Recomendo!

Avaliação: ★★★★★

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Bruna Leite

Formada em cinema, eterna estudante de filosofia. Pós-graduanda em Gênero e Sexualidade. Escreve sobre filosofia, política, feminismo e artes.

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