Fidel morreu, e agora?

O mundo recebeu a notícia da morte de Fidel de forma distintas no sábado. Muitos comemoravam, felizes com a morte daquele que (para tal grupo) havia sido um tirano. Outro grupo, entretanto, lamentava. Lamentava a morte de um homem que ousou pensar e agir diferente dos demais líderes mundiais. Ele, Fidel, comandou Cuba com punhos de ferro. Isso é fato. Seu governo teve problemas? Óbvio, todos tem. Mas, sem sombra de dúvidas, foi um marco na contemporaneidade.

Situado a poucas milhas de território norte-americano, Cuba ousou fazer frente à maior potencia (e símbolo do capitalismo mundial). Pode não ter sido a opção de toda a maioria cubana, afinal de contas é fato conhecido que o comunismo cubano foi uma ditadura e não uma democracia. Mas com a resistência cubana frente aos embargos provocados pelos norte-americanos e demais líderes mundiais, resistia também o sonho (próprio da esquerda) de que outro modelo econômico mundial era possível; bastava apenas ter coragem de implementá-lo.

Mas, e agora?

Há aqueles que dizem que com Fidel o sonho socialista morreu. Ou seja, a morte do ditador (ou será revolucionário?) de Cuba levou para o túmulo o antigo anseio da esquerda: instaurar um modelo socialista que derrubaria o capitalismo. No poder desde 1959, Fidel comprovou que um novo modelo social não era apenas possível, mas sim praticável. Porém, como qualquer outro modelo social (inclusive democracias), nem tudo são flores.

O regime de Fidel é acusado de perseguição política, prisões de várias pessoas por interesses políticos e anistias. Há aqueles que citem torturas e assassinatos. Para quem viveu uma ditadura, como nós brasileiros, estas são acusações comuns. Contudo, a ditadura de Fidel trouxe avanços que nenhum país americano (e poucos a nível mundial) alcançaram: erradicação do analfabetismo e desnutrição infantil, redução da mortalidade infantil e crescimento dos índices de desenvolvimento humano e social. Cuba, mesmo que não reconhecido por vários países, tornou-se referência mundial em saúde, destacando-se em estudos sobre o câncer de pulmão.

A Cuba de Fidel não foi perfeita, igualmente como seu regime. Mas nas palavras do ditador (ou não seria mais correto dizer revolucionário?): “Hoje a noite milhões de crianças dormirão nas ruas, mas nenhuma em Cuba”. Diante do sistema capitalista, que mata e viola direitos diariamente em escala mundial, terá o governo Fidel sido tão diabólico, como costumam pregar os líderes das potências econômicas, principalmente norte-americanos e europeus. Parece-me que Fidel estava mais para “uma pedra no sapato”, mostrando a todo momento que o sistema capitalista não é o único modelo a ser vivido.

Contudo, o mundo não tem mais Fidel. O mundo hoje tem Donald Trump. Morre o último mito do socialismo e elege-se, nos Estado Unidos, um ferrenho defensor do consumismo e capitalismo. Haverá ainda alguma força de resistência? Ou estarão corretos aqueles que festejaram o falecimento do líder cubano: o sonho socialista morreu.

De fato, tempos sombrios nos aguardam. Cabe a esquerda encontrar novos líderes e pensar em novas estratégias. Aos poucos, os líderes deixam o mundo para entrar na história. Descanse em paz Fidel. Odiado ou amado, tenha a certeza que você será eternamente lembrado.

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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