Fé – o denominador comum de crentes e ateus

Recentemente, flagrei-me caminhando pelas ruas de minha cidade. Flagrei-me? Sim! Foi um ato “despensado” – se pode haver algum até que fazemos sem pensar. Estava perdido nos meus pensamentos e devo ter decido no ônibus porque, por algum motivo desconhecido, penso melhor enquanto caminho ou escuto trilhas sonoras medievais. Enfim, o que me intrigou mesmo não foi a caminhada em si, mas os pensamentos que me absorveram deste plano.

Ora, a inquietação que me levou para longe diz respeito a diversas intrigas e brigas que tenho acompanhado nas redes sociais. Diz respeito a fé humana. Sim, algo obsoleto como fé – ao menos em um primeiro momento – conseguiu tirar minha paz de espírito. Porém, conforme eu caminhava, mais claro ficava para mim o quão substancial é a fé na vida humana. Inclusive na vida de um ateu convicto.

Mas antes de tudo, preciso dizer que aqui me refiro a ateu como aquele ser que nega a crença em um ser todo poderoso, indiferente de qualquer seita religiosa. Ora, vejo um número cada vez maior de ateus que são, na verdade, anti cristãos. A este seleto grupo, tenho um outro termo para designá-los: hipócritas. Mas aqui vou ater-me a tratar apenas com dois grupos: os ateus que negam qualquer força ou entidade divina e os crentes em forças ou entidades divinas. Minha proposta é muito simples e singela. Vou demonstrar que ambos os grupos possuem suas fundamentações no pilar da fé.

É bem provável que a esta altura muitos já tenham parado de ler ou estejam despejando uma série de adjetivos pejorativos a minha pessoa. Mas não me deixarei abater. A minha caminhada esclareceu minha mente e o que aqui escrevo é fruto de um minucioso processo mental.

Durante minha caminhada comecei a pensar o que leva um crente a proclamar a existência de Deus. Ao mesmo tempo criava uma coluna paralela onde eu listava os motivos de um ateu em contestar a existência de Deus. e por fim, busquei identificar o que há de comum em ambos. Ora, quão intrigado eu fiquei ao perceber que fé e ciência partilham dos mesmo fundamento. E cheguei a esta conclusão por pura e simples análise. O crente dirá que Deus existe, mesmo não podendo provar a existência empírica do mesmo. Já o ateu defenderá algo tão absurdo quanto Deus: o Big Bang. Ora, acreditar que o nada explode e gera o universo é, no mínimo, um grande ato de fé. Ainda mais quando filósofos gregos já provaram que do nada, nada pode nascer. Isso soa-me tão ridículo quanto provar a existência de um ser que jamais se viu.

Seguindo minha análise – cuja algumas partes irei aqui omitir – percebi que deveria haver algo que impulsiona tanto o ateu quanto o crente a afirmar tamanhos absurdos. Detive-me então neste novo objeto de estudo, ciente que do anterior eu apenas concluiria absurdos e divagações. A pergunta “o que leva alguém a afirmar tamanho absurdo?” passou a ser meu guia.

Passei a analisar quais comportamentos do meu dia-a-dia poderiam ser tão absurdos quanto os descritos acima. E o resultado foi terrível. Dei-me conta de uma cruel realidade: o ser humano age única e exclusivamente motivado por fé. Parece piada, eu sei, mas minhas observações foram a fundo e conclusivas. O ser humano é um ser que tem fé. E mais, age guiado por ela.

Mas antes de continuarmos, vejamos alguns belos exemplos. Todos nós temos planos futuros. É perfeitamente normal ir dormir e colocar um despertador pra tocar, mesmo sabendo que a única verdade científica que temos diz respeito a nossa morte. É perfeitamente normal beber água sem fazer uma série de testes e verificações referente a qualidade da água e, inclusive dos alimentos. É perfeitamente normal pegar ônibus e não fazer uma análise das capacidades do motorista em conduzir o veículo em segurança até seu destino. Ou seja, agir com fé é totalmente normal.

Mas, o que eu entendo por fé?

Bem, essa é uma pergunta muito correta a ser feita. Aqui defino fé apenas da seguinte forma: crença infundamentada de que o mundo continuará sendo como sempre foi ou, se ele mudar, mudará para melhor, beneficiando a mim mesmo. Em outras palavras, ter fé é acreditar que nada mudará e, se mudar, mudará para melhor, beneficiando-me. Isso é ter fé. Basicamente tudo que sabemos baseia-se nesse principio. Desde Deus até a matemática.

Portanto, pare de encher o Facebook com palavras de ódio. Intolerância religiosa é crime. Não existe nada a ser respeitado em um discurso de ódio. Seja você crente ou ateu, respeite a posição do outro. Até porque a sua é bem infundamentada também…

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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