Existem diferenças biológicas entre os gêneros ou é mesmo tudo construção social?

Os meninos gostam de carrinhos, as meninas de boneca, certo? Bem, isso é facilmente explicável pela construção social[1]. Concordo. Mas e se as crianças fossem criadas sem diferenciações, o que ocorreria? Richard Lippa realizou uma pesquisa que teve mais de 200 mil consultados em 53 países da América, Europa, África e Ásia. Eles foram perguntados sobre com o que gostariam de trabalhar. O que ele descobriu? Que há uma grande diferença. Homens são muito mais interessados em trabalhar com coisas: engenharia, mecânica. E as mulheres, relativamente, muito mais em trabalhar com pessoas.

Você pode pensar, por exemplo, que as mulheres no mundo todo não são encorajadas a isso. Em partes, é verdade. No entanto, seria de se esperar mudanças em vários países, se a cultura fosse a suprema influência – e os resultados da pesquisa foram persistentes em todas as 53 nações. Lippa concluiu que há algo biológico nesta disparidade. Ele sugere diferenças inatas entre os gêneros e, assim, acredita que seria plausível pesquisar sobre esta questão biológica no início do desenvolvimento. Quão cedo se pode perceber diferenças de interesses entre meninas e meninos?

O professor Trond Diseth, psiquiatra, realizou a pesquisa. Ele trabalha com crianças nascidas com deformações genitais e, no processo de determinar o gênero, utiliza um teste com brincadeiras simples. Funciona da seguinte forma: sua equipe escolheu dez brinquedos (quatro tidos como femininos, quatro considerados masculinos e dois chamados brinquedos neutros), colocou-os em um padrão e resolveu filmar a reação de bebês com menos de um ano de idade. Diseth notou que, desde os nove meses de idade, é possível notar a preferência das meninas por brinquedos femininos e a masculina por brinquedos masculinos.

[Meninos] gostam mais de brinquedos, armas, competição e ação do que bonecas, romance, relacionamentos e famílias. É claro que eles não vêm ao mundo com todas essas preferências plenamente formadas, mas nascem com alguma preferência inefável a se identificarem com coisas de meninos. Isso é o que a psicóloga infantil Sandra Scarr chamou de “escolha de nicho”: a tendência de escolher a criação que é adequada a sua natureza (Ridley, 2003, p. 80-81 – ver rodapé*).

“Eles estão sendo influenciados por papéis de gênero”, você pode argumentar. Em boa parte, você tem razão. Por outro lado, Diseth acredita que as crianças nascem com uma disposição biológica clara. A sociedade pode reforçar isso, mas apenas até certo ponto. Pesquisa semelhante foi realizada com macacos-vervet, tendo resultados semelhantes [2].

Esse fato nos leva a questionar se existem sinais de diferenças de gênero no início da vida. Simon Baron-Cohen é um professor inglês de psiquiatria, especialista em autismo, que fez inovadoras experiências sobre crianças recém-nascidas. Sua equipe fez um teste com bebês de um dia de vida: mostraram a eles um objeto mecânico e um rosto para olhar e marcaram quanto tempo cada bebê olhava para cada um desses objetos. Como imaginado, os meninos olharam por mais tempo para objetos mecânicos e as meninas para o rosto. Estes resultados sugerem que as diferenças são criadas antes das crianças nascerem.

Baron-Cohen [3] resolveu fazer outro teste: considerando que há diferentes níveis hormonais entre os sexos, passou medir o nível de testosterona de crianças ainda no útero (visto que a testosterona influencia no desenvolvimento do cérebro). O que descobriu é que, quanto mais alta a testosterona nas crianças na fase pré-natal, mais lentos elas são para desenvolver a linguagem e menos contato visual elas fazem na idade de um ou dois anos. Ou seja, mais testosterona está associada ao desenvolvimento mais lento da linguagem e do desenvolvimento social.

E se uma menina produzir muita testosterona? É uma condição genética e garotas com essa condição mostram um padrão muito masculino de preferência por brinquedos. Baron-Cohen acompanhou estes bebês até por volta dois oito anos, concluindo que as crianças com mais alto índice de testosterona têm mais dificuldades com empatia e reconhecimento das emoções alheias. Também têm maior interesse em sistemas, engrenagens e compreensão de como as coisas funcionam.

Nosso corpo e psique são influenciados pela evolução. A psicóloga evolutiva Campbell pesquisa como nossos traços são resultado de um longo processo de seleção. Para ela, qualquer característica que aumente o número de descendentes tenderá a ficar no conjunto genético, e é isso que seleciona traços específicos entre homens e mulheres.

Imagem: s/a

Mas espera aí: por que a evolução faz mulheres e homens diferentes em nível comportamental? Se as mulheres gestam, dão à luz e amamentam as crianças, seria muito surpreendente se não houvesse algum tipo de orquestração psicológica que ajudasse as mulheres a realizar esses feitos e fazer esse tipo de tarefas particularmente prazerosas para elas. A consequência disto é evitar comportamentos perigosos, ter mais empatia, evitar comportamentos que gerem algum tipo de exclusão social. Todas elas dizem respeito a se reproduzir, viver mais e deixar filhos que também se reproduzam.

Conforme Campbell, é por isso que as mulheres hoje são mais orientadas para outras pessoas do que os homens. Todo mundo é influenciado por genes milenares. É claro que a psicologia evolutiva é controversa inclusive no ramo da própria psicologia, mas mesmo os maiores críticos (como Jerry Coyne***, por exemplo), admitem que existe material muito bom na área e não se pode descartar suas contribuições.

Quando falamos em evolução, é frequente que se pense que a tese de Darwin faça menção tão somente ao nosso “parentesco com os macacos”. Gigantesco engano. A árvore genealógica da qual descendemos é a dos grandes primatas: dela fazem parte os bonobos, orangotangos, gorilas, chipanzés e humanos, ou seja, animais sem cauda e com porte físico maior que os macacos, como micos, lêmures, etc. Desde as florestas equatoriais, os primatas divergiram de seus ancestrais há milhões de anos: primeiro o orangotango, 14 milhões de anos atrás; os gorilas há 7,5 milhões; os humanos há 5,5 milhões; chimpanzés e bonobos há 2,5 milhões de anos. De lá pra cá, o DNA humano foi mapeado e os avanços foram enormes no campo da genética.

Cabe lembrar aqui também que a psicologia evolutiva nada tem a ver com quaisquer tipos de determinismo biológico ou “destino genético”****.

Essa década tem sido de significativos avanços da biologia molecular e da genética comportamental, inclusive na constatação de que existem diferenças entre os sexos – e admitir isso não é, de forma alguma, diminuir a importância de algum deles. É compreensível temer a admissão das diferenças entre a mente masculina e a mente feminina, visto que se imagina que tais diferenças beneficiariam os homens e lhes dariam algum tom de “superioridade”.

Vamos elucidar rapidamente esse aspecto: sob o prisma genético, as estratégias de sobrevivência das mulheres são tão boas quanto as dos homens. O psicólogo e linguista canadense Steven Pinker [4] afirma que, da perspectiva biológica, é melhor ter adaptação dos machos para solucionar contingências que dizem respeito ao universo masculino e ter adaptação de fêmeas para resolver problemas femininos.

As mulheres e os homens têm a mesma origem evolutiva: suas estruturas cerebrais são iguais a olho nu e assim também é o aparato cognitivo. Ao contrário do que dissemina a ideia popular de que mulheres são bem mais emotivas, os estudos demonstram que os níveis emocionais também são iguais para ambos: cuidam da prole, competem por status e cometem agressões em nome de seus interesses pessoais ou coletivos.

É evidente, contudo, que a mente feminina e a mente masculina diferem em muitos aspectos, inclusive no que diz respeito a comportamentos sexuais. Um exemplo simples é a quantidade de casos envolvendo pedofilia (dentro ou fora da internet): são raros os casos envolvendo mulheres pedófilas. Os homens também disputam mais agressivamente por suas parceiras**. Quando se trata de homicídios, os homens cometem de 20 a 40 por cento mais do que as mulheres, e de forma bem mais sangrenta.

É claro que falamos de funções adaptativas. Os pesquisadores Richard Wrangham e Dale Peterson [5] salientam que a agressão intencional não é algo exclusivo dos primatas humanos e que os embates entre grupos rivais são frequentes. A agressão não é uma característica exclusivamente humana, embora seja maior entre o sexo masculino (tanto nos primatas humanos, quanto nos não-humanos)[6].

Imagem: man with flowers – Danasse

Quando o assunto é violência, as discussões tendem a ficar bastante acaloradas. Embora o conceito já seja popularmente conhecido, basta abrir uma aba de pesquisa no Google para descobrir que a identificação da violência de gênero não é assim tão fácil. Alguns afirmam que este tipo de violência é fruto do contexto social, onde os homens aprendem a ser diferentes das mulheres. Será? Mulheres agridem menos? Mulheres são as maiores vítimas da violência?

  • Podemos assumir algumas questões simples:
  • O aspecto cultural conta sim, e conta bastante. Mas há um limite para sua influência. A biologia é um aspecto que deveria – e muito – ser levado em consideração na hora de compreender a altercação das estatísticas de agressão, em geral partidas dos homens, e a aparente “submissão” feminina diante de muito destes casos (não no sentido de amenizar a culpa, mas de elaborar estratégias melhores de enfrentamento).
  • As mulheres, diferentemente dos homens, evitam embates físicos ou agressões diretas, por questões de reprodução e sobrevivência. Esse fator pode ajudar a explicar a chamada “dominação masculina” em áreas como tráfico, violência sexual e homicídios.
  • Seus interesses são tão distintos quanto suas estratégias de sobrevivência. E não deveríamos ter qualquer receio de admitir isso. Mulheres e homens não “têm que” gostar de coisas femininas ou masculinas. Elas (e eles) simplesmente gostam.
  • O nível mais alto de testosterona nos homens os torna menos suscetíveis à empatia e à compreensão do sentimento alheio. As mulheres, no entanto, são mais propícias ao cuidado e ao contato social. Isso pode explicar as diferenças nos tipos de agressão e, inclusive, no fato de que as mulheres evitam conflitos “sangrentos”.
  • O comportamento sexual também é diferente entre os homens e as mulheres.
  • Enquanto a agressividade feminina é mais ligada ao aspecto psicossocial, a agressividade masculina é mais ligada ao aspecto físico (agressões físicas) e à noção de superioridade (pelo papel de “zelador” da prole) – assim, os homens são mais propensos a demonstrar publicamente a agressão, reafirmando poder.
  • Ambos os sexos, contudo, cometem agressões de ambos os tipos e também sofrem agressões de ambos os tipos, não havendo qualquer evidência para afirmar que “todos os homens são agressores em potencial” ou que “todas as mulheres são vítimas em potencial”. Todos somos potencialmente agressores e agredidos.
  • Tanto quanto as diferenças sexuais (homem/mulher) existem, elas interagem com as diferenças de gênero (masculino/feminino). A identificação de gênero também é biológica (as pessoas nascem se identificando com um gênero ou outro, com ambos ou com nenhum). O que a sociedade faz é tentar adaptar sexo e gênero (fazer com que as mulheres sejam do sexo feminino e os homens do gênero masculino, obrigatoriamente). Por isso defendo de que a violência maior é contra o feminino.
  • A violência de gênero deve, sim, ser debatida e combatida. Não se pode, porém, ignorar aspectos biológicos em nome de uma conformidade teórica sobre a construção social.

Alguns destes elementos podem parecer idênticos, embora apresentem pequenas diferenças (especialmente no que diz respeito à agressão).

Esses resultados são estatísticos, ou seja, não é possível usar esses resultados para inferir nada indivíduo. E há também o aspecto moral, que esses resultados não dão respaldo para que sejam feitos julgamentos sobre indivíduos que tenham comportamento fora deste padrão, os outliers [7].

Por último, cabe lembrar que explicar certos comportamentos não é, de forma alguma, concordar com eles ou justificá-los. Ninguém pretende encerrar a discussão ou apresentar dados definitivos (que não possam ser questionados), mas apresentar elementos para se pensar melhor a respeito.

REFERÊNCIAS

[1] “Construção social” faz parte da tese que defende que não há diferenças intrínsecas entre os gêneros, seriam todas fruto do convívio social.

[2] Miller & Kanazawa, 2007.

[3] Baron-Cohen, Simon. Diferença essencial – A verdade sobre o cérebro de homens e mulheres. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

[4] Pinker, S. Tábula rasa: negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[5] WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco. s/a. Não se assuste com o título.

[6] Frans de Waal tem um livro excelente a esse respeito: “Eu primata”.

[7] Agradecimento especial ao amigo Marcelo Vargas dos Santos, por estas duas pertinentes considerações.

*Ridley, M. O que nos faz humanos. São Paulo: Editora Record, 2003.

** Você pode encontrar mais informações sobre isso em “Tábula Rasa”, do Steve Pinker.

***  COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? : http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

**** Para quem deseja saber um pouco mais a respeito da psicologia evolutiva, pode acessar esse ótimo texto da NetNature: https://netnature.wordpress.com/2014/10/16/psicologia-evolutiva-modelo-computacional-modularidade-e-adaptacionismo/

Grande parte das informações deste texto foram obtidas no documentário “Lavagem cerebral, episódio 1” e das informações fornecidas por Gilson Marciano de Oliveira, em “A agressão humana: uma investigação filosófica mediante o pensamento de Steven Pinker” (Curitiba : Edição do autor, 2009).

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Lisiane Pohlmann

Uma forma de vida bípede baseada em carbono. Graduada em Filosofia, Administração e Serviço Social, especialista em Violência e Direitos Humanos, é pós-graduanda em Intervenção em Violência Intrafamiliar e trabalha com divulgação científica. Reside no Rio Grande do Sul.

  • Sempre pertinente nas palavras. Parabéns. Será que caberia também uma menção acerca da influência biológica na determinação da opção sexual das pessoas? Pois muitos ainda na sociedade acham que opção sexual é determinada somente por fatores culturais e da criação, e com isso privam muitas meninas de brincar com carrinhos e meninos com bonecas, por exemplo.

  • Sensacional. Os dados dos primeiros parágrafos me eram familiares por conta daquele documentário “Brainwash”, em que já no primeiro episódio (parece que são uma série de episódios) se fala do “paradoxo da igualdade”. Vale a pena conferir!

    https://www.facebook.com/gedbioetica/posts/1193307794109433:0

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