Ética e prática psicanalítica nos limites da normatividade: a questão de Édipo e a manutenção do desejo

Você provavelmente já ouviu falar sobre o Complexo de Édipo. Trata-se de um “fenômeno psíquico” descrito pelo médico e psicanalista Sigmund Freud e tendo por inspiração a história do personagem Édipo da tragédia “Édipo Rei”, escrita pelo poeta grego Sófocles. Édipo rei conta a história do rapaz Édipo que é abandonado por seus pais quando criança, pois o oráculo lhes havia revelado que Édipo estava destinado a assassinar seu pai e ter relações com a própria mãe. Infelizmente o afastamento de Édipo não evitou a catástrofe que acaba acontecendo sem Édipo estar consciente de que o homem que matara era seu pai, e que a mulher que desposara mais tarde era a própria mãe.

Na analogia feita por Freud, ele caracteriza o complexo de Édipo como um conjunto de desejos escondidos no inconsciente da criança pela própria mãe, comumente ocorrendo no chamado estágio fálico do desenvolvimento psicossexual. Neste período, descreve Freud, a mãe se torna objeto de energia libidinal da criança e, uma vez que ela vê no pai um rival diante desse desejo, quer matá-lo. Vários mecanismos podem aparecer neste período a fim de “mascararem” à mente consciente a existência desses desejos sem, contudo, resolver efetivamente o problema – o desejo pela mãe, o ódio pelo pai e o medo deste em virtude do atestado da realidade da força dele perante a criança.

Diante desta teoria – que de fato fora muito controversa, sobre tudo por propor a existência de uma sexualidade infantil partindo do desejo pela própria mãe – em 1972, Deleuze e Guattari lançam o livro “O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia”. A principal crítica deste texto é justamente a teoria freudiana do complexo de Édipo, diante de uma pós-modernidade falida e necessitada de uma revisão, inclusive do próprio papel do homem e a visão dele sobre si mesmo. O desejo é o ponto principal desta obra. Deleuze e Guattari recuperam algo encontrado já do “De Anima”, de Aristóteles, de que o desejo encontrado no ser humano é o mesmo encontrado no animal: “o desejo ativa forças impessoais, não-figurativas, não simbólicas, forças conspiratórias do Ser. Ele gera o real.”. A denúncia feita pelo texto é justamente contra ideologias que tem como foco principal a supressão do desejo criativo.

Para além da discussão político-social que o texto aborda, o que, de fato, me interessa é a abordagem acerca do trabalho do psicanalista diante do plano de fundo teórico que o complexo de Édipo fornece. Acima de qualquer coisa ele critica o trabalho da psicanálise como um modelo científico como aquele descrito por Thomas Kuhn em “A Estrutura das Revoluções Científicas”. Isto porque, segundo Kuhn, diante de um paradigma científico, o trabalho do cientista não seria propriamente o de fazer descobertas, mas o de adequar as observações ao conjunto de teorias que formam o paradigma. Ora, o problema aparentemente observado por Deleuze e Guattari é justamente que o psicanalista, valendo-se da teoria do Complexo de Édipo, procura, antes de qualquer coisa, adequar as observações feitas dentro do contexto do consultório à própria teoria. Ou seja, ele procura entender como o fato observado pode ser explicado dentro do complexo de Édipo. Ele estaria forçando o paciente a enquadrar as suas angústias no modelo “papai-mamãe”. O ponto d’O anti-Édipo é observar que este caminho tem por consequência uma supressão do desejo criativo, na medida em que alimenta uma teoria com as observações, não deixando espaço para uma verdadeira caminhada rumo a criação a partir do desejo que o sujeito experimenta.

Talvez esteja certo Foucault, que comenta o texto dizendo que o caso é que “Édipo não é”, ou seja, não se trata de um fato o qual não se escapa, mas de uma teoria utilizada nos limitas da prática psicanalítica.

Dentro desta perspectiva da limitação do desejo, acho possível lembrar uma possível crítica de cunho schopenhaueriana diante dos deveres normativos da ética. Em verdade, a própria noção moral de normas ou deveres representa desde já a avaliação incorreta de que existe uma instância normativa que visa impulsionar o desejo para fins específicos. Da mesma maneira que Édipo limita a visão e a criação a partir do desejo, a normatividade ética parece pressupor que é possível enquadrar o desejo dentro de condições minimamente aceitáveis.

Aparentemente é justamente essa a crítica feita por Nietzsche à moralidade. Nietzsche pretende mostrar que a admissão de valores morais vela na verdade um interesse niilista daqueles que, incapazes de fazer uso de um desejo criativo que impulsione a vida, procuram estabelecer limites normativos para “frear” o desejo daqueles que conseguem tirar de si o impulso criativo. – Ou seja, ideias normativas de um sistema ético e/ou cultural, como a monogamia ou o “politicamente correto”, neste contexto, expressam na verdade a impossibilidade dos indivíduos “inventores” das normas de eles mesmos romperem certas barreiras do desejo e, por isso, insistem em impedirem a manifestação deste naqueles que por natureza são, diria Nietzsche, MELHORES.

Contudo, diferente de Nietzsche, Schopenhauer não está disposto a abandonar a moralidade, uma vez que a nossa intuição imediata nos atesta certas sensações, como piedade, compaixão, descontentamento diante das misérias que o outro vive. Neste sentido ele critica o ponto de vista de Kant sobre a natureza da filosofia moral, acreditando que Kant havia interpretado o papel desta como o de propor regras morais, quando na verdade seria simplesmente o de investigar a natureza dos juízos morais, da mesma maneira que Deleuze e Guattari não estão interessados em propor uma teoria anti-psicanálise mas, aparentemente, um anti-absolutismo com respeito à prática metodológica da psicanálise e do complexo de Édipo. Por outro lado, vale lembrar, em Schopenhauer a ideia de normatividade parece tanto contra a natureza da filosofia moral quanto ridícula diante da ideia da onipotência da vontade. Porém, as normas morais funcionam, como ele bem aponta, como contramotivos diante daqueles que a experiência apresenta à consciência. No limite, elas só fazem sentido diante de promessas ou ameaças.

Encontradas em todas as culturas, principalmente diante de fundamentos religiosos das culturas do mundo todo, a normatividade moral é também um mecanismo de supressão do desejo, na medida em que elimina a possibilidade criativa da vontade diante das promessas que fazem as normas serem efetivas. Da mesma maneira, observamos este tipo de relação na educação e no próprio código penal, de tal forma que fica difícil delimitar o valor das várias formas de normatividade diante da necessidade de se promover a convivência mutua.

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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