ESTUDOS SOBRE A SOCIEDADE – Módulo II: O CAMINHO PARA O CAPITALISMO – Texto 2: O mercado

Como vimos no texto anterior, a estrutura e composição dos feudos permitiam que os mesmos tivessem certa autossuficiência, uma vez que tudo o que se necessitava, produzia-se dentro dos feudos. Paralelo a isso, os feudos não produziam produtos excedentes. Ou seja, não sobrava produtos porque a produção visava apenas atender as necessidades da comunidade. Esse cenário não era nem um pouco favorável para o surgimento do comércio. Ainda mais porque as estradas eram extremamente perigosas, – frequentada por ladrões e sem policiamento – ruins e pagava-se pedágio para transitar de um feudo para o outro. Dessa forma, transitar com muitos produtos para serem vendidos eram uma empreitada um tanto arriscada e poucos se aventuravam em tal empresa.

Entretanto, esse cenário começou a mudar por volta do século XI. No ano de 1095 o papa Urbano II convocou a primeira cruzada, atendendo a um pedido de Aleixo I, imperador Bizantino que precisava de ajuda para combater os turcos na região. A mobilização de uma cruzada (a primeira de várias) injetou um novo ânimo na economia europeia. Pode-se dizer que os mercados ganharam força e importância com as cruzadas. As viagens para a região que hoje chamamos de Turquia, e posteriormente para Jerusalém demandavam uma grande operação logística. Os feudos passaram a produzir para fornecer alimentos, vestimentas e demais itens que os cruzados pudessem precisar – e pagar, logicamente. Mas, nos primórdios, ainda não haviam bancos e dinheiro, tal qual temos hoje. O pagamento era, geralmente, em ouro e pedras preciosas ou pela troca direta de produtos.

É mister ressaltar os interesses que estavam por detrás das Cruzadas. Em primeiro lugar, deve-se lembrar que peregrinações até a “Terra Santa” – Jerusalém – eram comuns. Há relatos de pelo menos 34 peregrinações entre os séculos VIII e X e 117 após o século XI. Era evidente o desejo em recuperar Jerusalém das mãos dos “infiéis”. A Igreja aproveitou-se deste desejo – que era apoiado pela nobreza e senhores feudais – ocultando suas reais intenções, assim como o fizeram os demais interessados.

Para a Igreja, as Cruzadas eram a oportunidade perfeita para conseguir mais terras e expandir seu poder e influência. Lembrem-se: na Idade Média o poder de alguém era medido pela quantidade de terras que possuía. Constantinopla precisava da ajuda dos cruzados para frear as ofensivas turcas – vale ressaltar que Constantinopla corresponde a atual Istambul, localizada na Turquia. Os nobres e senhores feudais viam nas Cruzadas a oportunidade de enriquecerem ainda mais.

Como era costume, as cidades dominadas eram saqueadas e os espólios de guerra eram levados de volta para a Europa. Obviamente, tais espólios tornaram-se desejados, o que fomentou as feiras dentro dos principais feudos. Os senhores feudais passaram a dar isenção de pedágio aos comerciantes para que viessem às feiras em suas cidades. Algumas feiras duravam praticamente o ano inteiro e mobilizava pessoas das mais diversas regiões. Algumas cidades começaram a se destacar pela importância econômica que passaram a ter. Ressaltamos aqui o caso de Veneza que tornou-se uma cidade conhecida pelo seu papel na expansão do comércio europeu. Basta lembrar a lendária figura de Marco Polo, um comerciante de Veneza que teria viajado pelo mundo, conhecido atuando como comerciante.

As feiras cresceram tanto que, para facilitar as negociações, impulsionaram o uso de dinheiro. E antes de seguir, um breve comentário deve ser elaborado aqui. O comércio na até a estruturação do comércio consistia basicamente em trocas diretas (escambo). Mas isso não era tão simples como pode parecer. Por exemplo, se você possuísse 3 jarros de vinho e precisasse de um casaco, precisaria encontrar alguém com um casaco e que estivesse disposto a trocar por vinho. Ou seja, as operações mesmo sendo diretas, poderiam se tornar bem complexas. A implementação de uma moeda – que variava de feudo para  feudo – facilitou as trocas. Primeiro porque você possuía uma unidade de comércio que era comum; e segundo porque você poderia vender seu vinho para qualquer um que estivesse disposto a pagar por ele e comprar um casaco de um terceiro. A implementação da moeda permitiu que se viajasse com bem menos quantidades de bens.

Mas, se até o início das Cruzadas quem tinha a maioria das terras era a pessoa mais poderosa, após o desenvolvimento do comércio este cenário mudou. A circulação de dinheiro provocou o surgimento de um novo segmento – que seriam as bases da burguesia – a saber: os bancários. Agora, o poder era medido pela quantidade de dinheiro que você tinha. Não importa o quão rico você fosse, sua riqueza sempre passaria pela mão dos bancos. Assim, os bancários conquistaram em pouco tempo um poder suficientemente grande para ter nobres e clero em suas mãos. Paralelo aos bancos, os comerciantes também passaram a ter mais influência na cidade, como veremos mais adiante.

Toda essa mudança ocasionada pelas Cruzadas modificou as estruturas da sociedade medieval. No próximo texto veremos o nascimento das cidades, das corporações e o choque dessa nova estrutura com as antigas estruturas, principalmente com o senhor feudal que passou a ver seu poder sendo tomado pelos comerciantes e bancários.

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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