ESTUDOS SOBRE A SOCIEDADE – Módulo II: O CAMINHO PARA O CAPITALISMO – Texto 4: O camponês vira o jogo

Com o crescimento das cidades e a expansão do comércio, outro grupo social passou a ter uma relevância cada vez maior: o camponês. De fato, as cidades não produziam seus próprios alimentos e os comerciantes há muito haviam abandonado a lida do campo. Surge assim um quadro favorável para a emancipação do camponês às amarras do sistema feudal que lhe mantivera tão estagnado em sua condição social.

Acontece que agora o camponês era procurado para vender alimentos para os comerciantes, pois era preciso que alguém produzisse alimentos para aquela nova parcela da população que parou de produzir o alimento.  Com isso, ele – o camponês – percebeu que se produzisse mais, a tal ponto de sobrar, ele poderia vender e juntar dinheiro. E quem sabe ele até poderia pagar em moeda ao senhor feudal, ao invés de trabalhar alguns dias por semana nas terras do mesmo. Mas para tal, era preciso aumentar a produção. Em primeiro lugar precisaria-se melhorar as plantações, empregar as tecnologias mais atuais e abrir novos campos.

Diferente dos que vemos nos dias de hoje, até o século XIV, mais de um terço das terras da Europa não estavam sendo aproveitadas. Tratavam-se de pântanos e florestas que praticamente estavam esquecidas, ou ninguém se dava ao trabalho de limpá-las para produzir alimentos. Esse quadro mudou. Com a crescente demanda por alimentos, viu-se a necessidade de expandir as colheitas. Muitos senhores feudais perceberam uma oportunidade de conseguir tirar rendimento de suas terras até então inaproveitadas. Cobravam apenas um aluguel anual aos camponeses e estes poderiam utilizá-las da melhor forma possível. Dessa forma, ocorreu uma grande “marcha” de trabalhadores que viram nas terras não aproveitadas a oportunidade de livrar-se do jugo do trabalho servil. Vários foram os servos que abandonaram as terras do feudo e dirigiram-se para florestas e pântanos a fim de encontrar liberdade. Todo esse movimento mudou a configuração do trabalho do camponês.

Cabia agora ao senhor feudal aceitar as exigências do seu servo ou corria o risco do mesmo fugir e ir para as terras livres. Assim, os jugos do senhor feudal sobre o servo foram tornando-se mais leves. Pagar em moeda pelas terras tornou-se corriqueiro e poucos eram os senhores feudais que resistiam aos avanços históricos que estavam se apresentando. Porém, se os senhores feudais estavam aliviando o jugo dos servos, o mesmo não pode-se dizer da Igreja. Ela fez tudo o que pôde para manter as antigas estruturas feudais, condenando à perdição eterna os servos que fugissem e os senhores feudais que concedessem liberdade aos mesmos. Mesmo diante de todo esforço, não houve como a Igreja frear a força histórica da mudança e os camponeses continuaram conquistando a liberdade.

Contudo, no século XIV aconteceu algo que afetaria ainda mais o cenário. Em dois anos, morreram mais pessoas na Europa do que em toda a Primeira Guerra Mundial. A peste bubônica – que ficou conhecida como a Peste Negra – dizimou a Europa sem fazer distinção de classe social. Estima-se que tenham morrido de um terço a metade da população do continente europeu. Foi retratada por muitos como castigo divino, maldições, etc. Existem hoje ainda muitos relatos e filmes que buscam retratar o que aconteceu na época. Acontece que nem mesmo os melhores médicos da época conseguiram encontrar uma cura. Transmitida por pulgas e ratos, a peste encontrou nas sujas cidades europeias o seu paraíso. Espalhou-se como chama quando encontra palha seca. Era tarde demais para tomar medidas e limpar as cidades.  Há relatos de vilas e cidades inteiras dizimadas.

Mas como isso repercutiu na vida do camponês?

Ora, apesar da peste, as pessoas precisam comer. Os camponeses perceberam que agora eles poderiam cobrar mais pelo seu trabalho, uma vez que muitos haviam morrido. Assim, tornou-se caro para um senhor feudal manter um número adequado de servos trabalhando. Muitos começaram a ceder terras, outros ameaçaram os camponeses. Uma série de revoltas foram desencadeadas e os burgueses apoiaram os camponeses. Por fim –  e não de forma absoluta – as terras foram entregues aos camponeses. Historicamente, diz-se que o feudalismo acaba – ou entra em declínio – quando os camponeses adquirem o direito de vender suas terras ou passá-las para a geração futura. Obviamente este não foi um momento estagnado da história. Não há como precisar uma data exata. Alguns senhores feudais cederam mais cedo, outros, mais tarde. Mas ao conquistar a liberdade, os camponeses romperam as amarras com o feudalismo e tornaram-se mão de obra nas indústrias burguesas, como veremos no próximo texto.

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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