ESTUDOS SOBRE A SOCIEDADE – Módulo II: O CAMINHO PARA O CAPITALISMO – Texto 3: Surgem as cidades

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que a sociedade feudal possuía cidades. Entretanto, com o advento do comércio, as mesmas tomam novas configurações e proporções. As cidades feudais eram basicamente ruralistas e tinham sua relevância por serem centros militares ou judiciais. Ou seja, eram cidades que pouco ou nada divergiam da vida no campo. Eram estagnadas e não possuíam o espírito de liberdade das cidades que surgiram pelo comércio.

Mas, como surgiram as cidades? Segundo alguns historiadores, as cidades – ou o homem da cidade – surgiram com o crescimento do comércio. Basicamente, o cidadão era o comerciante. Inicialmente, os comerciantes teriam começado a permanecer junto a área fortificada das cidades (burgos). Com o tempo, foram construindo casas e criando um novo centro urbano que tornou-se mais importante do que o próprio burgo dentro do feudo. Essas novas cidades tornaram-se, basicamente, a residência dos comerciantes. Obviamente isso não agradava aos senhores feudais. Primeiro porque para os donos das terras não havia diferença entre as terras feudais e as terras das cidades. Assim, as leis do feudo deveriam se estender também sobre as cidades. Segundo, porque o poder que os comerciantes estavam adquirindo era algo incômodo.

Mas os comerciantes não eram ingênuos. Percebiam que sozinhos era inviável sobreviver. Não apenas frente ao poder dos senhores feudais, mas também por causa dos perigos do ofício. As estradas não eram policiadas e eram frequentadas por ladrões. Os mares eram dominados por piratas e nas cidades não poderia haver concorrência entre comerciantes. Assim, eles começaram a unir-se em corporações ou guildas. Perceberam que unidos poderiam enfrentar as ameças e impor sua vontade. As guildas, ou corporações, tiveram um papel crucial nas mudanças sociais que se seguiram e garantiram a sobrevivência da classe dos comerciantes frente aos perigos e adversidades da época.

Com as corporações, os comerciantes, pouco a pouco, conseguiram tornar o cenário favorável às práticas comerciais. Frente a força que elas estavam adquirindo, restou apenas aos senhores feudais – e a Igreja – ir cedendo e reformulando as leis. Mas quais eram as principais reivindicações dos comerciantes? Podemos sintetizar em três principais: 1: o direito de ir e vir sem pagar pedágio; 2: a posse da propriedade da terra; 3: ter seu próprio tribunal e leis. Fato é que as altas taxas de pedágio exigidas pelos senhores feudais para entrar e sair de cada feudo comprometiam o comércio. Não era interessante aos comerciantes terem que dividir seus lucros com os nobres. A questão da terra era ainda mais complicada. O comerciante não poderia dar a terra como garantia para pegar um empréstimo, porque a terra não lhe pertencia e como as cidades estavam sobre áreas que antes eram cultivadas, os senhores feudais exigiam tributos altos. Por fim, segundo os comerciantes, as leis feudais – que foram criadas tendo em vista uma sociedade pacata, fria e sem fluxo – não se aplicavam, ou não davam conta da demanda dos problemas que surgiam nas agitadas e calorosas cidades. Por isso era necessário terem novas leis e tribunais próprios que julgassem os casos com imparcialidade.

Todas essas medidas foram alcançadas, muito em vista da organização dos comerciantes nas corporações. Claro que a forma que se deu esse alcance vai depender de cidade para cidade. Algumas conseguiram independência total de seus senhores feudais, outras parcial e algumas apenas de forma superficial. Precisamos também lembrar que este foi um processo que atravessou boa parte da Idade Média após o século XI. E, por mais que possa parecer, os comerciantes não tinham interesse em uma revolução – nos termos que entendemos revolução hoje. Eles não desejavam derrubar os senhores feudais, mas sim que estes abandonassem as práticas feudais que estavam atrasando os avanços do comércio. A liberdade humana não era exigida como direito natural, mas apenas pelas vantagens que proporcionava. Em outras palavras, era vantajoso para os comerciantes, que eles estivessem livres dos deveres com os senhores feudais. Não lhes interessava a situação dos servos, mas apenas a sua situação enquanto comerciantes.

O poder das corporações tornou-se tão grande a tal ponto de todo comércio nas cidades estar sob o controle delas. Basicamente se você não fosse membro da corporação então você não poderia comercializar na cidade. Nada entrava na cidade sem passar pelas mãos das corporações. Elas ditavam o preço de cada item, garantindo o que hoje chamamos de monopólio e cartel.

A corporação cresceu tanto e teve tanto sucesso a tal ponto que, segundo registros históricos, houveram corporações que tinham em seus domínios comerciais mais de 100 cidades espalhadas pela Europa, com armazéns e fortalezas.

O avanço do comércio praticamente acabou com o antigo modelo de trocas de mercadorias. O dinheiro tornou-se a moeda de troca universal (ao menos em toda a Europa). Os comerciantes não desejavam manter seus recursos parados. Em pouco tempo os bancos tornaram-se tão, ou até mais, importantes que os próprios mercadores. Desde que você tivesse alguma garantia, você poderia receber um empréstimo de dinheiro – fosse dos bancos ou dos comerciantes mais ricos. Entretanto, esse empréstimo não era de graça. Quem emprestava reservava para si o direito de cobrar uma taxa sobre o valor emprestado. Essa prática é bem comum nos dias de hoje, mas na Idade Média foi considerado PECADO. Grifamos a palavra pecado porque precisamos trazer em mente o peso e a relevância moral da Igreja nas ações humanas. Cobrar usura (juros) sobre qualquer coisa era considerado pecado grave e punível de excomunhão.

Porém, a própria Igreja também praticava usura. Ou seja, enquanto instituição ela bania a prática, mas seus membros estavam entre os que mais se beneficiavam dela. Debates teológicos intensos aconteceram, com pessoas como Tomás de Aquino defendendo arduamente que quem praticasse tal prática estaria expulso do céu. Mas, a força histórica da revolução provocada pelo comércio foi mais forte que todo o movimento conservador que tentou refreá-la. Aos poucos, a usura foi sendo legalizada e os bancos e comerciantes puderam expandir suas ações e consolidar-se como nova classe social: a classe média.

No próximo texto veremos o que muda na vida do camponês e, adiante, como a burguesia (comerciantes e bancários) assumiram o papel que antes cabia a nobreza.

Imprimir

Compartilhe:

Foto de perfil de Ricardo Luis Reiter

Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

Pular para a barra de ferramentas