Escravos da Liberdade

Segundo o dicionário Michaelis, Li.ber.da.de significa 1. Estado de pessoa livre e isenta de restrição externa ou coação física ou moral. 2 Poder de exercer livremente a sua vontade.

A liberdade compreende um valor, deveras, abstrato, e como bons entusiastas da certeza que somos, o ser humano vem tratando e desenvolvendo há tempo tal assunto.

Recordo aos desavisados que a única liberdade absoluta é a de pensamento, apenas. Ou seja, desconsidera-se logo de cara, visto o conceito supracitado.

No entanto o que venho propor, com esse texto de título emblemático, é a reflexão – como de costume – sobre a situação social e cultural que observo também pelas redes sociais virtuais, com ênfase para as gerações mais novas, nascidas em meio a aparelhos eletroeletrônicos e valores materialistas.

A liberdade é um princípio fundamental, sem sombra de dúvidas, – diga-se de passagem – assegurado em diversos tratados internacionais e normas legais. Contudo, preocupa-me a forma com que está se tratando tal princípio.

A luta pela liberdade é constante e contínua. Conquistou-se muito a favor ao longo do tempo, no entanto, acredito que não mais seja a questão principal ser/ter a vigente nos dias atuais, mas sim “como exercer” tal princípio de convívio. Isto é, sim, talvez estejamos desenvolvendo novos problemas sem percebermos, devido a esse apreço exacerbado a tal valor, a essa procura excessiva por exposição do exercício de tal direito.

De forma corriqueira presencia-se declarações e posturas, em tom de diagnóstico fútil, de jovens que sofrem de ansiedade, carência, depressão, de tal forma que nos aparenta ser legal. Por quê? Porque esses mesmos sentem-se acolhidos pelos demais que possuem a mesma conduta. Ou seja, denota-se um problema – sério – mas conota-se algo “bacanóide”.

Pode-se dizer que os primeiros passos da modernidade – Iluminismo – culminaram nessa situação atual; provém dos pressupostos como individualismo e autonomia, onde a racionalidade e as ciências eram apresentadas como fundamentais para a liberdade do homem. Isto é, desconstruir conhecimentos culturais e tradicionais nos levaram a obrigação de construir novos princípios de conduta social, no entanto, isso não é tarefa fácil, demanda um longo processo de desenvolvimento, o que da forma como está se dando, gera ansiedade e nos deixa a mercê de paranoias.

Em outras palavras, vivemos tempos em que não se aceita mais valores tidos como retrógrados, ou melhor, não se reflete os mesmos e sim reproduz-se a opinião de ícones que se opõem a esses – seja lá quem for – restando somente a incumbência de criar novos valores. Erro fatal.

Mais do que a ideia Sartreana de que estamos “fadados à liberdade”, suponho dizer que vivemos tempos niilistas, mas não estamos preparados para tal. Mais do que nunca dependemos uns dos outros, mas não reconhecemos tal fato, pois temos a ideia primeira de afirmar que sentimo-nos livres. As novas gerações – segundo a minha leitura – repudiam o politicamente correto sem dar-se conta que desenvolvem outra forma de agressão ainda mais violenta, pois inserem-se em grupos de mesmos valores e sequer dão ouvidos aos divergentes.

Como disse Bauman, “somos uma multidão de solitários”. Difícil entender a ideia de algo que faz mal, mas que aparentamos estar tudo bem – e isso necessariamente não quer dizer que saibamos lidar de forma racional. Tempos em que “finalmente eu sou livre, mas isso nos atormenta, porque não queremos ser tão livres assim” (Pondé). É preciso compreender que a liberdade acarreta responsabilidade e consequências que recairão sobre si mesmo.

Para Bauman, “dois são os valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz. Um é a segurança e o outro, a liberdade. […] Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, nem mesmo sonhar com isso. Então, você precisa dos dois. Entretanto, o problema, de novo, […] é que ninguém ainda, na história e no planeta, encontrou a fórmula de ouro. A mistura perfeita de segurança e liberdade”.

REFERÊNCIAS

Estratégias para a vida | Zygmunt Bauman

LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade da decepção.

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Renan Peruzzolo

Reside em Concórdia - SC; Graduando de direito na Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Interessa-se por assuntos referentes à Ciência Jurídica, Filosofia, Ciências Sociais, Economia, Relações Internacionais, Geopolítica, História e Psicologia/Neurociência.

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