Epidemia

Imagem: Ana Carolina Seffrin [recorte]

Essa história não começa com hora marcada. A primeira observação a ser feita diz respeito ao aplicativo virtual usado por escritores ou qualquer pessoa que escreva. Quando você liga o computador e acessa esse aplicativo, poderá observar uma página “fictícia” para que nela transponha o que deseja articular. Nesta manhã, acordei às sete horas, escovei os dentes e parti para o banho. Alguns hábitos não podemos abandonar. O que nunca percebi é que, às vezes, os hábitos nos abandonam.

O leitor deve estar se perguntando do que diabos estou falando – logo explico. Antes, devo aclarar outras coisas. É muito útil conhecer obviedades: ao apresentar qualquer sintoma de uma “doença”, mesmo um mero resfriado, o indivíduo – em teoria – deve buscar um serviço de saúde e não tomar medicamentos por conta própria. Continuarei escrevendo e escrevendo a respeito de todo esse imbróglio para tenham certeza de que tomei as medidas adequadas.

Às oito horas da manhã, saio de casa. Não há um único transeunte nas ruas. Não há carros. Nada. E, quando digo nada, é, em absoluto, nada. O vizinho da esquina mais próxima não está fumando maconha. A janela está aberta e, pela primeira vez nesses quatro anos de vizinhança, não sinto odor de maconha. Morreu fumando maconha? Não conheço ninguém que tenha partido rumo os céus graças a esse entorpecente, mas sempre existem exceções. Também não escuto Bob Marley tocando – no que diga respeito ao outro vizinho que também fuma e escuta Bob Marley todas as manhãs. Não vejo viva alma e começo a me preocupar. Retiro do bolso o telefone, o milagre existencial da banda larga, internet sem fio e amém tecnologia. Alguma notícia de catástrofe ou acontecimento fortuito por força maior já deve estar nos veículos de comunicação e, talvez, seja por isso que as pessoas tenham desaparecido. Ou, de modo improvável, quiçá esteja sonhando acordado.

Basta entrar na internet e ler “error”. Sim, “error”, a “página não pode ser encontrada”. O principal jornal do país apresenta “error” – o que, a bem da verdade, não me surpreende – considerando o país em que vivo –, e resolvo procurar pelo principal jornal de outro país. Error. Not found. “What the hell?” – os belíssimos vocábulos que me vem à mente. Penso, de modo aleatório, que nasci em 1989, mesmo ano de “Good Bye Lenin” e, por algum motivo – talvez a ausência de pessoas –, tenho a recordação fotográfica de que sempre tive vontade de comprar um pedaço do muro pela internet e nunca o fiz; resta saber se o pedaço de muro é o mesmo muro de Berlim. Quando alguém se sente confuso, é normal pensar em coisas confusas.

Todavia, nada disso vem ao caso agora. O que vem ao caso é que o céu está nublado, o temporal será impiedoso e devo voltar para casa para depositar um guarda-chuva na mochila. O vento é gélido e, quando fecho os olhos, sinto-o mais gélido ainda. Quando retorno aos aposentos da morada, apercebo que existem outras catástrofes que não são virtuais: aqui jaz a catástrofe de pilhas de livros numa desorganização ímpar; todos eles dizem respeito a meu ofício. É como Alexandria em seus caos.

Mas ainda não há fogo.

Os gatos estão deitados no sofá. Dois gatos brancos pacíficos que me observam surpreendidos – esses gatos, em vidas passadas, deveriam ter sido detetives. Seus olhares são inquisidores. Não entendem porque saí e voltei em minutos. Hábitos mudam. Não se esqueçam.

Adentro em meu quarto. A tela do computador está ligada e vejo uma barra em vertical nesse tal aplicativo de escrita – sequer recordo de ter deixado o computador ligado –, mas a tela está assim e a barra esperando. É como o ponteiro de um relógio. Sinto náusea momentânea. Estou doente. Sim, por óbvio estou doente, nunca tive ímpetos de vômito de manhã, senão em casos mais extremos de duas ou três garrafas de vinho na noite anterior. E na noite anterior tomei chá de camomila.

Observo a barra piscando por meia hora. Observo o caos de livros espalhados por todos os cantos. Preciso inserir ordem na desordem. Desisto de ir trabalhar. Ou talvez o mundo já tenha desistido de existir. Talvez essa linha cronológica resuma a palavra “error” – seja via internet, seja vida real.

Sem saber ao certo o que ocorre, chego a um prévio diagnóstico, depois de segundos de equilíbrio meditativo, vistoria clínica aprendida via youtube. Os budistas diriam que o mundo é uma grande ilusão. Quando persiste a carência de respostas, é necessário ir atrás delas. Talvez os budistas estejam certos.

Quando observei o computador e dei de cara com a tela, meus dedos permaneceram imóveis. Eu via uma mini barra vertical preta piscando nessa página, a barra desejando avidamente uma palavra, meu ofício e – absolutamente nada – permite que meus dedos funcionem. Se não os dedos, a fala. Nada. Nem um “oi” ou um “tchau”. Nada.

Quando alguém chega no nada, precisa de ajuda.

Ligo para o serviço de emergência dezenove vezes. Sequer sei se o número o dezenove é cabalístico.

Conheço cinco ou seis pessoas que podem ter me transmitido essa doença. Sim, dois dias depois de ficar trancafiado em casa como um ser rastejante kafkaniano, um legítimo inseto rastejante a observar a palavra “error” e gatos inquisidores e a ausência de vizinhos com tendência a fumarem maconha, a internet em apuros, poucos canais televisivos voltaram a operar – como se NADA tivesse acontecido.

Eles disseram, claramente que, se apresenta sintoma X, Y ou Z, deverá procurar as autoridades de saúde pública. Mas eles não são mais claros em relação a todo o resto. E todo o resto deve ter uma explicação.

Denominam “Síndrome de Criatividade Escrita”– ou “SCE”. Em inglês, procure por “written creativity disease”. Nessas alturas do campeonato, a internet deve ter voltado a funcionar sem “not found”.

Quando liguei o computador e dei de cara com a tela, meus dedos permaneceram imóveis. Sintoma de SCE.  Eu via uma mini barra vertical, injusta ante uma mísera barra de chocolate, a barra escura piscando na página, a barra desejando avidamente uma palavra; ela ambicionava meu ofício, nada mais. Nada. Nem um “oi” ou um “tchau”. E, como enfermo, a barra era mais forte do que minhas possibilidades para com as palavras.

A barra que pisca são como aquelas pessoas que te pressionam a escrever mesmo que esteja doente. As barras, as fronteiras e os muros.

Estou em casa, sentado no sofá, imerso em um grande devaneio mental, físico e intelectual, sentindo os resquícios da epidemia. Por motivos que ignoro, ela não afeta cães ou gatos e um deles coloca a cabeça em minha perna e dorme um sono tranquilo. Fim da inquisição. Ainda existe eletricidade, caso contrário não haveria cura para a palavra escrita, há não ser que você tenha um tipo de preciosidade chamada máquina de escrever. Foi inventada antes dessa barra maldita vertical que pisca. Na máquina de escrever nada pisca. Apenas seus olhos, movimento voluntário ou involuntário. Não importa.

Isso se chama Crise de Criatividade e não há absolutamente uma única fonte de inspiração entre o céu e a terra que possa mudar tal circunstância. A verdade está ai, escancarada. Quando a doença atingir sua mente, lembre-se de voltar para casa e colocar um guarda-chuva na mochila. Porque essa história não começa com hora marcada, tampouco finaliza. Esqueça sua agenda ou compromissos. Cedo ou tarde irás observar a tela de seu computador e a barra da escrita piscando. Antigamente era uma máquina de escrever. Solitária, esperando, ansiando e presumindo tentações e anseios. Antigamente você não lia “error”,, porque o erro era tão somente e apenas seu: era a crise da ausência de palavras em um mundo que te esmaga com as mesmas palavras de teu ofício.

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Foto de perfil de Ana Carolina Guimarães Seffrin

Ana Carolina Guimarães Seffrin

Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria/RS (FADISMA); Mestra em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Escritora.

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