Entre o respeito e o dever de calar-se

Inicio esta postagem dizendo que respeito, e muito, a sua opinião, ainda que contrária a minha, sobre este assunto. Ainda assim, tenho o direito e a liberdade de achar ela uma idiotice. O direito e a liberdade de me recusar a ouvi-la e, ainda que eu a ouça, verbalizar um belo “Nossa! Mas que b* que você falou aí, cara!”. E não: eu não estou desrespeitando a você e nem à tua singela e tão importante opinião.

A emergência de uma guerra de opiniões acerca dos mais variados temas acabou gerando, nas páginas da internet e fora dela, uma deturpação até certo ponto grave dos conceitos de respeito e de liberdade. É comum hoje que a cobrança por respeito à opinião seja confundida com a verdadeira falta de respeito, e principalmente com o ataque ao direito do outro de se posicionar contra. Ninguém hoje, no Facebook, por exemplo, está disposto a postar uma mensagem pedindo pela volta do regime militar e receber uma torrente de reclamações e mensagens pedindo para você estudar história. O mesmo acontece com o camarada que posta algo em prol da Dilma e do PT, quando ele se depara com os clássicos comentários “Petralha”, “Vai pra Cuba”, etc.

Mas a coisa fica ainda mais perigosa quando falamos das tão queridas e preciosas religiões que seguimos. É sempre um insulto ouvir alguém discordar de uma crença. É quase que uma violação física do direito da pessoa, se não pior, ouvir alguém questionar os dogmas e os preceitos de sua religião (ou pelo menos o é aos ouvidos de quem escuta). E é aí que eu acho interessante.

Existe uma série de assuntos hoje, tão polêmicos, quanto religião, onde podemos ver essa deturpação do conceito de respeito ao modo de pensar do outro. Feminismo, racismo, política, religião… a lista segue. Não estou preocupado em tratar de nenhum desses pontos em particular agora. Interessa-me na verdade mostrar que respeitar a prática e a opinião do outro não consiste no dever de calar-se. Pelo contrário, se o outro pensa que para que eu o respeite eu devo me calar, caso a minha opinião divirja da sua, é ele quem não me respeita ao querer impor o seu arbítrio sobre o meu.

Agora imagine se estendermos esse conceito de respeito para as relações de amizade. Parece haver um maior dever de respeito para com um amigo próximo do que para com um “conhecido”. E se você é daqueles que pensa que temos mais deveres para com os desconhecidos que para com os amigos, eu respeito que você pense assim, mas você está errado! Existe um número muito maior de deveres para com os nossos amigos. Acho muito bonito quando uma pessoa cede uma quantia em dinheiro a um desconhecido que necessita daquele auxílio. Mas a necessidade do necessitado me comove muito mais do que me indigna quando uma pessoa, de posse de uma quantia que poderia ser emprestada ao estranho necessitado, não o faz. Agora imagine se o necessitado não é um estranho, mas um amigo próximo que precisa urgentemente de uma quantia em dinheiro, e que o outro amigo, aquele que possui a quantia necessária, se recusa a emprestar. Isso sim me parte o coração, sabe por quê? Porque são amigos, cara, e se você não se sensibiliza com a dor de um amigo, fica difícil entender a natureza dessa amizade.

Voltando ao ponto, sugeri que tentássemos estender aquele conceito de respeito à opinião do outro como um calar-se, às relações de amizade. E por aí já me parece contradizer a própria natureza do que seria essa tal amizade. Afinal, se eu não tenho a liberdade, o dever, o direito ou o que quer que seja, de entrar em discussão com um amigo sobre um ponto conflitante, então isso não me parece nada parecido com o que geralmente entendemos por amizade. Quando temos amigos, acreditamos também que temos por vezes certa necessidade de estender nossas conversas a pontos conflitantes. Muitos amigos são também aqueles que nos aconselham, e aconselhar geralmente inclui dar um belo “tapa na cara” daquele seu amigo. Imagine então que, acreditando que o respeito é igual ao dever de calar-se, restaria que pudéssemos nos perguntar: a que forma de amizade estaríamos sujeitos?

Existe, é claro, uma linha tênue entre direito de expressar-se e o limite traçado pela suposta integridade psíquica e moral que alguém e, muito além disso, cabe uma certa prudência e discernimento quanto às consequências possíveis daquilo que pensamos e como proclamamos isso (considerando que nunca temos sob controle as possíveis interpretações). Se, de fato, admitirmos que a astúcia pode substituir ou complementar a força física como meio de agir violentamente contra o outro, talvez possamos estender a ideia e pensar numa possível violência a partir de opiniões. Mas essa tese não é levada muito a sério quando pensamos em pessoas de carne e osso discutindo assuntos banais ou, como eu prefiro pensar, discutindo de forma banal assuntos de extrema importância (como a “aniquilação” inconsequente da cracolândia, por exemplo).

Há sempre uma parcela de violência nas nossas discussões acaloradas de Facebook. Nós usamos expressões violentas, argumentos violentos e pensamos de forma violenta. Mas esta violência nem sempre é real, como parece ser o caso da violência contra aquele que me proíbe de proclamar o meu “fora Temer”, “fora Dilma”, “imposto é roubo”, ou coisa que o valha. No limite, relações em geral estão sempre sujeitas a algum tipo de atrito, mesmo e principalmente aquelas baseadas numa pluralidade de concepções de mundo que cada vez mais emerge dentro das mídias sociais virtuais. Com efeito, as bases normativas de uma ética cibernética sobrevoa as discussões em si mesmas, e nos chama a atenção para a necessidade de pensar a nossa conduta em todos os tipos de mídia e qual o limite da violência exercida pelo ato de hatear (do inglês “to hate”, que significa odiar). Infelizmente a própria discussão sobre essas bases carece de uma abertura para o debate, o que implica na abertura para a própria possibilidade de ouvir aquilo que não queremos ouvir. Em último caso deve-se admitir: instituir o dever de calar-se implica, necessariamente, na abolição do dever de calar-se – dever este que, cá entre nós, não é o caso.

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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