Entre ato e potência: a síntese é essência

Peguei-me a observar a chuva. Sim, a chuva. Observei-a cair do céu, alagar casas, derrubar pontes, afogar pessoas… Vi quando ela desceu tal qual cachoeira, arrastando os casebres dos marginalizados, que se escondem nas encostas dos barrancos. Vi ela arrastar e destruir os barcos das populações ribeirinhas. Vi quando ela causou desmoronamentos. E pensei: a chuva é má…

Peguei-me observando o fogo. Vi ele sendo usado para disparar balas. Vi rios de sangue escorrendo em meio a vilas que queimavam tal qual deve queimar o inferno. Vi incêndios devastando favelas, matas, mansões. Vi o fogo devorar tudo o que encontra pela frente. E pensei: o fogo é mau…

 Mas então olho por uma janela. Não uma janela normal, mas sim uma janela do tempo. E me vejo criança brincando na chuva. Sinto as gotas molharem meu rosto, escorrerem pelas minhas mãos. Vejo a chuva molhar os campos e a grama se renovando. E me lembro de pensar: a chuva é boa…
Ainda na janela, me lembro de uma noite muito fria. Estávamos todos sentados em volta de uma caixa de metal. A caixa nos esquentava porque dentro dela o fogo fornecia o calor. Lembro do cheiro da lenha queimando e da alegria proporcionada. E lembro-me de pensar: o fogo é bom…
Estranho sentimento me invade agora. Era a mesma chuva. Era o mesmo fogo. Ao menos na essência. Mas com comportamentos tão distintos. E disso começo a pensar. E se bondade e maldade não forem meros acidentes, frutos da natureza na qual a essência se manifesta? Pois a chuva mansa é benéfica; mas a torrencial é devastadora. Mas ambas são chuva. ambas são água. Ambas tem a mesma essência. A essência não as define como sendo boas ou más. A essência é pura. Pura o quê? Pura essência. Não precisa ser mais. 
Por ser pura essência, ela não carrega valores de juízo. Não se pode dizer que uma chuva é boa ou má antes que ela se concretize. E ser boa ou má irá depender da forma como ela se manifesta e onde se manifesta. Antes de qualquer juízo, a chuva é água, e antes de ser água, ela é essência. Contudo, a essência carrega em si a potência de se manifestar de infinitas formas, mas sempre conforme sua essência. A chuva não é boa nem má, mas ela traz a potência de ser boa ou má. 
Falo da chuva, mas o mesmo se aplica ao fogo. E acredito ser desnecessário reconstruir toda a argumentação para provar isso.
E vou além aqui. E se esse fenômeno não se aplicar somente à água e ao fogo? E se conosco também for assim? Se em nossa essência não formos nem bons nem maus, apenas puros? Poderemos ainda falar de uma ética universal? Aliás, poderemos falar de ética? Poderemos julgar alguém? Pois está muito claro, ao menos para mim, que a essência humana é pura. 
Na realidade ela é pura potência. Potência para ser boa ou má. Todavia, é o ato, o contexto no qual ela se manifesta que definirá como a essência se manifestará. Ao menos foi o que entendi observando a chuva e o fogo. E diante disso sinto-me a vontade de olhar para um ser humano (uma essência humana) e ver o que está em suas entrelinhas, ou seja, ver o sujeito histórico-social que está a minha frente. 
Então me pergunto, se nem o fogo e nem a água podem ser julgados segunda sua essência, como poderei julgar um ser humano? Como posso condenar uma vida apenas porque ela não pode manifestar a potência que sua essência trazia num ato mais humano? Posso mesmo mandar prender jovens porque moram em periferias e já “não tem mais futuro?”
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