Entre a divergência de opiniões e o vínculo inevitável: o que sobrou para os amantes e os amigos?

Outro dia perambulava pelo feed do Facebook e me deparei com um post que me deixou intrigado. Ele contava a historinha de uma moça que se depara com um belo rapaz e, provavelmente interessada na possibilidade de estabelecer algum tipo de relação com ele, o convida a debater sobre questões sociais. E é no momento que ele começa a debater que o encanto se acaba.

Tá! E qual é a relevância disso?

Veja, o Facebook virou um terrível campo de batalha sobre questões sociais. Nos últimos tempos, principalmente, vi muitas “amizades” serem desfeitas em virtude de diferenças políticas, éticas, etc. Mas a situação dessa postagem em particular me chamou muito a atenção por envolver a possibilidade de um interesse romântico entre a menina e o belo rapaz. Interesse esse que cai por terra quando a moça descobre a posição do rapaz sobre questões sociais – algo que deve ser muito importante pra ela, eu imagino.

Quando Aristóteles, nos livros VIII e IV d’A Ética a Nicômaco trata sobre o tema da amizade [philia], parece certo que ela demanda algum tipo de igualdade entre as partes. Claro que não me parece que essa igualdade seja necessariamente a concordância sobre questões sociais. Talvez na medida em que as partes confiram a mesma importância às tais questões sociais, já seja uma igualdade que baste para começarmos uma amizade. Porém, preocupa-me menos, por hora, a questão da amizade, mas sim a relação entre a igualdade de posicionamento das duas partes sobre certos assuntos (questões sociais, por exemplo), e a possibilidade de se estabelecer um relacionamento romântico. Qual grau de igualdade em questões sociais que demanda um relacionamento romântico?

Imagine se a garota da historinha, ao conversar com o belo jovem, descobrisse que ele pensa EXATAMENTE igual a ela sobre as tais questões sociais. “Ah! Que beleza. Encontrei a minha alma-gêmea”. Talvez os dois pensassem assim. Em seguida trocariam telefones – mas não ligariam ainda, primeiro continuariam falando de questões sociais por WhatsApp. Então se encontrariam. Conheceriam os amigos de cada um deles. TAMBÉM pessoas com o mesmo posicionamento sobre as tais questões sociais. Ok, talvez um ou dois que tenha uma posição um pouco diferente. E aí teríamos um belo relacionamento que duraria anos e anos, provavelmente. Um sempre concordando com o outro. Toda vez que um ouvisse falar de uma nova questão social, levaria o problema até o outro e os dois passariam horas com os seus egos sendo massageados ouvindo o outro elogiar sua opinião. (Talvez esse casal nem transasse, pois seria mais prazeroso passar os dias concordando com questões sociais).

Esse não é um modelo nem um pouco atraente pra mim. Dentre muitas ressalvas, eu citaria especialmente o fato de que o que parece estar em jogo não é, efetivamente, uma preocupação com o outro, mas sim com o próprio ego, que é elevado às alturas toda vez que você sabe que o outro o elogiará sobre as tão importantes questões sociais. Pense se é esse o comportamento que você espera da sua amada ou do seu amado.

Parece muito fácil imaginar-se amando alguém que a todo o momento concorda com você. Ou que o faz ao menos nas questões que ambos consideram mais importantes – como as tais questões sociais. Imagine agora se, num belo dia, o rapaz da minha utopiazinha deixa de concordar com a sua amada… Um castelo de cartas é destruído para ambos. Talvez o relacionamento acabe ali. Caso não acabe, a partir daquele momento haverá uma séria reavaliação de ambas as partes sobre a natureza daquilo que antes sustentava aquela relação. Talvez eles descubram agora que na ausência daquela concordância o amor dos dois já não se sustente, pois o objeto nunca foi de fato o amado ou a amada, mas somente aquele prazer silencioso do ego inflando em suas nada calorosas discussões sobre questões sociais.

Convenhamos, o que pode haver de caloroso entre duas pessoas dando tapinhas nas costas um do outro? Eu prefiro uma calorosa discussão regada a terríveis marcas de violência e paixão [uma infeliz metáfora sexual da minha parte, eu sei]. Existem casais que concordam pouquíssimo em questões sociais, políticas, morais, artísticas. Questões que muitas vezes são de fato consideradas importantes pelas duas partes.

Em todo caso, já que mencionei o tratamento dado por Aristóteles à questão da amizade, o problema se estende para além das relações românticas, como acontece entre amigos. É verdade que Montaigne, por exemplo, define o amigo como um “outro eu”. Mas nem por isso devemos nos limitar à questões de uma concordância extrema entre opiniões – então deveríamos amar unicamente o espelho.

É por isso que eu prefiro as discussões calorosas. Aquelas que ao fim parece não se chegar a lugar nenhum, mas que permanece carregando uma real preocupação com o bem-estar do outro. É mil vezes preferível medir certas colocações quando você sabe que aquilo pode até ofender o amado, a amada, um bom amigo ou amiga, do que saber que você pode falar indiscriminadamente. Afinal, não tem porquê se preocupar com alguém que você já sabe que não vai se ofender e que, na verdade, vai agarrar a tua posição apaixonadamente (deixando de agarrar você dessa forma – que lástima). Nada revela melhor o amor (eros, philia, ágape) que temos pelo outro do que o grau de preocupação que temos com a possibilidade de magoá-lo.

Por favor, não se deixe enganar pela afirmação acima. Preocupar-se com a forma com que o outro vai receber a sua opinião não é se neutralizar para não magoá-lo e acabar sufocando a si mesmo. Lembre-se: não há nada melhor que uma discussão calorosa. Uma discussão de opiniões divergentes que, às vezes, pode até levar a um momento de mágoa com o outro (afinal, nem sempre estamos certos sobre como ele ou ela vai receber aquela informação).

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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