É possível a segunda via, de São Tomás de Aquino, provar que a Teoria do Big Bang pode nos remeter a primeira via?

Para São Tomás de Aquino, a existência de Deus não é evidente, contudo, a existência de Deus é demonstrável. E essa demonstração se dá a partir de argumentos a posteriori, ou seja, partindo do efeito à causa. Para provar que é demonstrável que Deus existe, Tomas de Aquino faz uso de cinco argumentos para provar isso, esse conjunto de argumentos é chamado de “As cinco vias”. A saber: 1ª via, movente imóvel; 2ª via, causa incausada; 3ª via, contingente e necessário; 4ª via, graus de perfeição; 5ª via, finalidade (argumento teleológico). As três primeiras vias são conhecidas como os argumentos cosmológicos de Tomás de Aquino, esses argumentos podem ser lidos e interpretados separadamente. Para Aquino, a 1ª via, a da mudança (movente imóvel), é a que melhor corrobora com a evidência da existência de Deus. Proponho nesse trabalho uma leitura diferente. Pretendo partir da segunda via, a da causa não-causada, para depois justificar a primeira via, a da mudança, essa inversão só é possível pela independência dos argumentos. Proponho essa mudança para objetar ao cientista que afirma que o universo e as coisas surgiram a partir do big bang.
Dizer que Deus é uma causa não-causada não é afirmar que Deus seja uma causa causada por si, pois isso poderia nos levar a imaginar que a causa é anterior a Deus, e Deus não é uma causa. Quando dizemos que Deus é uma causa não-causada estamos querendo dizer que Deus é um existir na eternidade. Ou seja: Ele sempre existiu, e existirá.
Analisaremos a segunda via segundo o esquema de argumentação de William Lane Craig. A segunda via, de São Tomas de Aquino¹:
1. As coisas têm causa.
Quando olhamos o mundo ao nosso redor podemos perceber a veracidade desse enunciado. Quando vemos uma árvore e perguntamos como ela surgiu, e investigamos a sua causa, descobrimos que alguém a plantou, ou seja, ela não surgiu do nada, houve uma causa para o seu surgimento. Nesse caso uma ação humana.
2. Tudo que tem causa, ou é auto-causado ou é causado por outro.
Não nos parece que as coisas podem se auto-causar, logo, as coisas que têm causa são causadas por outras, ou seja, não há coisas no mundo que sejam auto-causadas. Assim antecipamos a premissa três.
3. Nada pode ser auto-casado:
a. Para ser auto-causado teria de ser anterior a si próprio.
Não parece logicamente possível algo ser anterior a si mesmo. Por exemplo, ninguém em sã consciência diria que a causa de uma árvore é a própria árvore, pois isso seria afirmar que a árvore é anterior à sua própria existência, e isso não parece fazer sentido.
b. Mas isto é autocontraditório e, portanto, impossível.
É contraditório afirmar que a causa da árvore é a própria árvore.
c. Portanto nada é auto-causado.
Nada não pode ser causa de si mesmo.
4. A série das coisas causadas por outras não pode ser infinita.
Quando fazemos uma regressão das causas não podemos fazer uma regressão ao infinito, pois sendo assim não encontraríamos uma primeira causa.
a. Em uma série essencialmente subordinada, a existência de causas subsequentes depende de uma primeira causa.
b. Em uma série infinita, não há primeira causa.
c. Portanto não podem existir também causas subsequentes.
d. Mas isto contradiz (1): as coisas tem causa.
e. Portanto as coisas não são causadas por uma série infinita de coisas essencialmente subordinadas sendo causadas por outras.
E uma série essencialmente subordinada, causas intermediárias não têm eficácia causal própria, ou seja, uma causa depende da outra para ser causa de outra, o que na prática seria o mesmo que dizer que um indivíduo para se tornar pai precisaria efetivamente de seu genitor. Mas isso não nos parece verdadeiro, pois não precisamos da participação de nossos genitores para se tornar pai ou mãe, não é nem ao menos necessário que eles estejam vivos, ou que ao menos se os tenha conhecidos. Não precisamos conhecer nossos genitores para sermos genitores. O que é necessário é que tivemos genitores, pois esses são a causa da nossa existência, e essa série de acontecimentos não é essencial e nem subordinada, na verdade ela é acidental e ordenada. Ela, a série de coisas causadas, é acidental porque poderia ser de outro modo, o meu pai poderia não ter filhos, ele ter filhos é contingente; e essa série acidental é ordenada porque respeita a uma ordenação de fatos ocorridos. A existência do meu pai deve ser anterior à minha, e a minha existência deve ser anterior à existência dos meus filhos e filhas, essa anterioridade dos pais em relação aos filhos é que é necessária. Mas, dizer que essa relação é necessária não é admitir que a relação pai e filho tenham uma dependência necessária para o surgimento de um novo ser, o que é necessário aqui é apenas a anterioridade de um em relação ao outro.
5. Portanto a série de coisas causadas por outras tem de ser finita e terminar em uma primeira causa não-causada de todas as coisas; a esta todos chamam “Deus”.
A crítica do cientista² repousa na conclusão do argumento, pois esse diz que é arbitrário escolher Deus como causa de todas as coisas, por que não parar no big bang, por que escolher Deus?
O cientista não tem o porquê atacar as premissas do argumento. Pois, nenhum cientista afirmaria que as coisas não têm causa. Logo, o cientista não tem motivos para objetar essa premissa. Na segunda premissa ele poderia contestar que algo é auto-causado, mas essa objeção vai à tona, tendo em vista que na premissa três Aquino afirma que nada pode ser auto-causado. Sendo assim ele, o cientista, aceita as premissas dois e três. A premissa quatro que diz: “A série das coisas causadas por outras não pode ser infinita”, é aceita pelo cientista. O cientista quando faz um estudo retroativo, assim como São Tomás de Aquino, acredita que deve haver uma primeira causa das coisas. O que o cientista discorda é que essa primeira causa seja Deus. Para ele, o cientista, a primeira causa é o big bang. Contudo, o que o cientista faz é fazer o mesmo que São Tomás de Aquino, ele faz uma escolha arbitrária, pois ele para no big bang, afirmando que esse fenômeno é a causa do universo. Ao afirmar que o big bang é a primeira causa do universo, ele desconsidera que esse fenômeno é na verdade o primeiro movimento das coisas criadas por Deus. Na verdade se analisarmos com mais profundidade o cientista está afirmando a primeira via de Tomás de Aquino que nos diz: As coisas estão mudando. O Big bang é uma mudança.
O big bang é na verdade o primeiro movimento do universo, a expansão de uma massa concentrada que dá origem ao universo, mas por que acontece esse primeiro movimento? Por que essa massa começa a se expandir? O cientista não tem resposta para isso. Logo, se o cientista diz que o argumento de São Tomás seria ad infinitum se ele não escolhesse arbitrariamente a Deus, ele se esquece de que cabe a ele, cientista, explicar o porquê essa massa começou a se expandir e a formar o universo. O que pode nos pode parecer mais claro, que essa massa concentrada começou a se expandir sem motivo algum, ou que algo, ou alguma coisa a causou? Acredito que ninguém afirmaria que algo começou sem motivo algum. Logo, de ter havido algo que causou a esse primeiro movimento, o big bang, e a esse causador nós chamamos de Deus. A essa causa que nós chamamos de Deus, que é a causa incausada, um ser que é puro existir, um ser ao qual nós denominados atributos, mas cuja essência não se tem acesso, e os atributos que lhe damos não dizem o que ele realmente é. Esses atributos dados por nós servem apenas para que cognitivamente possamos compreender a sua existência.
O que o cientista pretende é criar um espantalho para poder atacar, mas ao criar esse espantalho, ele está criando o seu próprio espantalho, e não se dá conta disso, e não tem como ele resolver o problema que ele mesmo criou para si; para ele resolver a esse problema, ele deve admitir a existência de Deus, mas isso ele não fará. Logo, a tentativa do cientista de tentar provar que Deus não existe fazendo uso da teoria big bang nos remete a primeira via de Tomás de Aquino que diz que as coisas estão mudando; ou seja, o big bang não é a causa do universo, e sim o primeiro movimento Divino.
Notas:
1 A formalização proposta por Craig está em itálico, o que não está em itálico são comentários do autor.

 

2 Cientista: sujeito universal que acredita que a teoria do big bang é a causa do surgimento do universo.

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por Marcelo Teixeira de Jesus

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