Dubito, ergo cogito, ergo sum – ou, você simplesmente é fruto da minha imaginação

Atrevo-me a escrever nefastas linhas aqui. Em primeiro lugar, porque não sou nem de longe uma autoridade em Descartes; em segundo, porque minha leitura do citado autor é, de fato, nefasta. Ou seja, este é um texto escrito por alguém altamente desqualificado que tratará do assunto com um grande ar de pessimismo. Enfim, feito as devidas advertências, vamos adiante.

Descartes está entre aqueles filósofos que ninguém conhece, mas que a grande maioria cita. E não é pra menos. A famosa expressão “cogito, ergo sum” – penso, logo existo – ou ainda sua variação “dubito, ergo cogito, ergo sun” – duvido, logo penso, logo existo – está entre as frases mais icônicas da filosofia. Porém, geralmente um erro é cometido a abordar-se Descartes. E o erro passa pela sua célebre frase. Identificar o erro é algo primário, tão simples que ignoramos. Trata-se de uma única pergunta: por que ele escreveu isso? Ou, reformulando, por que Descartes concluiu sua existência a partir do pensamento, ou mais especificamente, da dúvida?

Aqui, dois caminhos se apresentam. Iremos, de forma muito breve trilhar ambos. Um diz respeito ao método criado por Descartes – muitas vezes ignorado nas aulas de filosofia. O outro refere-se ao contexto histórico-social no qual Descartes estava inserido – igualmente ignorado no ensino de filosofia aos nossos jovens. Uma nota deve aqui ser feita em tempo: nem todos os professores de filosofia tratam esses dois caminhos com descaso. Existem bons professores que buscam sempre contextualizar o autor em seu tempo e espaço.

Trilhemos primeiramente o caminho do contexto histórico. Simplesmente pelo fato de ele nos levar até o método de uma forma mais direta. Descartes viveu entre 1596 e 1650. E alguém pode ousar dizer: “Grande coisa!”. Acontece que entender de história nesse momento pode vir a ser de grande serventia. Descartes viveu na mesma época que outro grande gênio: Galileu Galilei. Ora, Galileu viveu de 1564 a 1642, falecendo pouco antes de Descartes. E, sem dúvida ambos beberam da fonte das descobertas de Copérnico. Alguém vai perguntar: “Quem foi Copérnico?”. E aqui – confesso – minha paciência se torna escassa. Copérnico foi a mente mais brilhante – no meu ponto de vista, claro – após o fim da Idade Média. Ele simplesmente provou que toda visão de mundo até então concebida estava errada. Que a Terra não era o centro do Universo, mas girava em torno de um Sol. Ora, hoje pode parecer meio óbvio e até um tanto tolo dizer que esta “descoberta” foi a maior após a Idade Média. Mas acreditem em mim – porque eu simplesmente não vou me deter mais nesse ponto – a mudança desse paradigma significou – em linhas bem curtas – dizer que a Terra, criação de Deus, não era o centro do Universo, mas um pequeno pedaço do mesma. Ok, mas o que isso tem a ver com Descartes?

Acontece que tanto Descartes quanto Galileu viveram em um período onde a teoria do heliocentrismo não havia sido ainda comprovada nem aceita, muito menos reconhecida pela Igreja – detentora do saber e da moral. Vale ressaltar que a perseguição que Galileu sofreu influenciou tanto Descartes que este acabou tendo que comprovar a existência de Deus para evitar que seus escritos fossem destruídos.

Descartes viveu um período de troca de paradigmas. E aqui uso paradigma em um sentido muito simples: como pilar de todo um saber. Era um período em que todo o conhecimento estava sendo reescrito. De fato, nada havia que pudesse ser garantido como verdadeiro. E é isso que leva Descartes a escrever, mas não escrever qualquer coisa, muito menos o “penso, logo existo”. Não! Descartes entrou em algo semelhante a uma crise existencial. Ele precisava se agarrar a algo. Ora, tudo o que ele julgara como verdade irrefutável estava a um passo de ruir. Deveria haver alguma coisa que fosse verdade. Alguma coisa que não poderia ser afetada com as mudanças que se desenhavam. Mas, como identificar esse conjunto de verdades?

Logo no inicio de sua obra, “O discurso do método”, Descartes alerta o leitor de suas – falsas – modestas pretensões: ele não quer dizer qual o método perfeito para encontrar a verdade; cada qual deve criar seu método. Ora, se ele não quer que seu método seja utilizado, então por que publicou o livro explicando ele? Enfim, não encontraremos essa resposta. Sigamos adiante.

Em sua estadia na Alemanha, durante as guerras da época, recluso e sem grande companhia, Descartes pôde se ater as suas preocupações. Semelhante a um arquiteto que busca reformar uma casa ou cidade, ele percebe que é preciso destruir tudo para que possa ser reerguido. E é aqui que nasce o método: como instrumento para “peneirar” todo o conhecimento e manter apenas o que é irrefutável. O método – confesso – é bem simples:

  1. Não aceitar nada por verdadeiro, a não ser que já tenho sido analisado pelo método;
  2. Dividir os problemas em problemas menores para facilitar a resolução;
  3. Organizar o pensamento, partindo dos objetos mais comuns de conhecer até os mais abstratos;
  4. Garantir não omitir qualquer informação.

Uma vez criado o método, era hora de utilizá-lo. Mas – e aqui está a semente do cogito – para que eu possa analisar o mundo, preciso ao menos saber se eu existo. Após uma longa investigação Descartes conclui três coisas:

  1. Que ele não tem certeza se seu corpo existe;
  2. Que ele não tem certeza se existe algo fora dele;
  3. Que ele existe, ao menos enquanto instância pensante.

De fato, isso pode parecer confuso. Mas, em linhas bem gerais, Descartes dirá que apenas podemos conhecer nosso corpo pelos sentidos. Contudo, nossos sentidos são falhos. Logo, eles não passam pelo método. Porém, se eu posso duvidar de algo, inclusive de minha existência, então eu tenho que necessariamente existir. Como poderia algo que não existe duvidar de si mesmo? Isso seria logicamente impossível. E é daqui que nasce a famosa expressão Cogito, ergo sum. Ou, Penso, logo existo. Percebam que não é uma fórmula pronta, mas antes de tudo, a conclusão de um elaborado jogo mental que nasce lá em um contexto social marcado por rupturas de saberes. O Cogito é o âmago de todo um processo de fundamentação de uma nova ciência. Sem perceber, Descartes – o homem das exatas e das humanas – cria uma divisão histórica na filosofia: o conhecimento é adquirido pela razão ou pelos sentidos? – Mas essa discussão não cabe aqui agora.

Porém, resta ainda a segunda certeza. Acima eu escrevi que Descartes conclui a existência de Deus como uma forma de evitar os problemas que Galileu enfrentou. Mas como fazer Deus passar pelo método?

Descartes basicamente elaborou uma argumentação lógica que não permite falhas. Apesar de não saber se seu corpo existe, ou se qualquer outra instância fora dele exista, Descartes reconhece sua imperfeição. Ele reconhece que tem dúvidas, o que é sinal de que ele não é perfeito. Porém, como um ser imperfeito pode pensar ou imaginar, a perfeição? Parece um tanto contraditório. É como se a obra pudesse ser maior que o artista que a criou. Como o imperfeito concebe o perfeito? Para Descartes, só existe uma resposta possível: o perfeito transmitiu para o imperfeito a ideia de perfeição. Em outras palavras, se Descartes pode pensar em Deus é porque Deus deu a Descartes a ideia de Deus. Simples assim. Quase como um carimbo “Made by god”.

Bem, avançamos muito até aqui. Mas não terminamos. Eu alertei que estas seriam linhas nefastas. Acontece que – caso você não se tenha dado conta ainda – se Descartes estiver certo, então eu devo assumir que nada existe, fora minha mente. Logo, você leitor, bem como este texto, site e aparelho que você está utilizando para ler não passam de frutos da minha imaginação. É bem possível que nem o passado exista. Ele pode ser mero fruto da minha imaginação. Nada me assegura contra a possibilidade de eu não existir antes deste momento. Afinal de contas, não posso confiar em mais nada. Entramos em estado de choque, mas onde o lema dos assassinos de Hassan i Sabbah faz muito sentido: “Nada é verdade, tudo é permitido”.

No final das contas, é mais seguro refutar Descartes. Aceitá-lo é abraçar a certeza de uma vida vazia. Afinal de contas, Cogito, ergo sum remete a uma realidade na qual apenas eu exista. Pode até ser reconfortante, afinal de contas, eu jamais perderei. Sou o autor e personagem principal. Mas, será apenas isso?

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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