Dia dos namorados, ou sobre o desamor no dia dedicado ao amor apaixonado

Tratar sobre a natureza própria do amor nunca foi e nem será um tema fácil, acima de tudo porque toca o mais profundo do coração humano. Aqui trato, para demarcar a reflexão, do amor romântico e apaixonado dos casais ansiosos pelo reconhecimento da pessoa amada, pela demostração de paixão desenfreada que se espera do outro e sobre as suas disponibilidades ao demonstrar o amor para com o outro em especial no dia mais romântico do ano que é, na verdade, o maior atentado contra o romantismo.

Paulo, em sua carta aos Coríntios, fez uma memorável descrição desse nobre sentimento sem, porém, atentar a esse aspecto fundamental que, talvez, seja “O aspecto”, “A qualidade”, dessa experiência sentimental tão importante na vida humana. A maioria de nós concorda, quando louva ou censura uma prática, venha de nós mesmos, da pessoa amada ou das relações românticas que presenciamos dia após dia, que o amor requer espontaneidade. O amor é uma força que irrompe as amarras da razão para se manifestar pura e irremediavelmente diante do amado. Não à toa, não são poucos entre nós (em especial os mais sensíveis e os mais apaixonados) que se deleitam quando recebem ou presenciam uma chamada “loucura de amor”. Pois, afinal, a loucura é uma transgressão do que se pode considerar social e/ou biologicamente saudável ou normal. O amor, nesse caso, talvez se assemelhe a uma doença, ou, se achar melhor, a uma droga. Ele enlouquece. Limita. Vicia. Transgride.

A razão pela qual nos sentimos inebriados diante de uma “loucura de amor” é porque ela exprime o ato próprio de amar na sua espontaneidade absoluta que, nesses casos, desafia as regras e o comportamento que se espera de alguém.

A meu ver, existem algumas situações que ferem seriamente essa qualidade tão expressiva e fundamental no amor, aliás, uma em especial, que é o Dia dos Namorados. Existe uma diferença grande entre, por exemplo, comemorar um aniversário de namoro com presentes e um jantar especial e fazer o mesmo no dia dos namorados. A pressão social, a expectativa que vem, não necessariamente do parceiro (ou, melhor, não SÓ do parceiro), mas do corpo cultural, não deixam margem para a espontaneidade própria da natureza do amor apaixonado. Você pode, é claro, cumprir as regras estabelecidas no protocolo que acompanha o dia dos namorados COM amor, mas não POR amor. Pois o amor é espontâneo. É um quebrador de regras (daí repetirmos expressões como “ninguém manda no coração” e “ninguém escolhe quem amar”). O amor é um sentimento avassalador. Ele rompe barreiras culturais, sociais, e independe de calendários e datas.

Não quer dizer, é claro, que comemorar ao lado do parceiro a data é um sinal de “desamor”. Imagino que querer cumprir uma regra social em nome do sentimento que você tem pela outra pessoa seja indício do amor presente. Isso é o que eu chamo de cumprir COM amor, um amor que está evidentemente presente, mas não é ele mesmo a mola propulsora do ato. Agir POR amor requer mais. Observando um comportamento que dizemos ter ocorrido por amor, encontramos nele uma espécie de “protagonismo romântico” (inventei o termo agora). É o próprio indivíduo o autor do ato amoroso, mas é o amor que o impulsiona. Que leva ele a agir. O amor não te dá tempo de escolher – nem poderia. O protagonismo romântico é, para mim, muitas vezes, um indício de que amar romanticamente é, muitas vezes (se não sempre) amar sem liberdade. Ele faz mais que nos obrigar: ele passa, arrasadoramente, dentro de cada um, e alimenta um fogo que você não escolhe se ele vai te queimar ou não. Agir, nesses termos, é expressão concisa do romantismo eternizado, na literatura, no teatro, nos cinemas, nas cartas de amor. E por isso mesmo cumprir as determinações, as obrigações, os deveres de uma data social é, na verdade, um ato contra o romantismo.

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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