Desertores

“Aqui cessa a memória.” (ROTH, Philip. Indignação. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 163)

Explicações prévias:

Essa carta foi escrita por um indivíduo que a assinou com o nome de João Silveira. Fora deixada no quarto hospitalar do paciente Antônio Giuseppe Avanzo, na Santa Casa de Caridade Metropolitana. O enfermeiro Alfredo dos Santos encontrou-a próxima ao prontuário. Sem saber ao certo a atitude a ser tomada, entregou-a, em mãos, ao filho mais novo do doente. Esse, por sua feita, leu-a no corredor do hospital. Alfredo sabe disso porque a imprudência foi além e, na troca de plantões, apercebeu que o filho do enfermo, quando terminou a leitura, jogou a correspondência no lixo reciclável próximo ao posto de enfermagem. Não a rasgou; seu ato foi quase como uma execração imperceptível às palavras. O jovem enfermeiro, um pouco sensibilizado e indiscreto por natureza, decidiu tirar do lixo o envelope, usando luvas de proteção e, no raquítico intervalo de tempo do almoço, leu-a. E, dessa vez, apropriou-se da correspondência como se sua fosse; órfão de pais que sente, nas entranhas, algo cuja palavra ou descrição alguma poderia ser capaz de alcançar.

A CARTA

Porto Alegre, 7 de setembro de 2017.

 Pai

 Hoje é sete de setembro.

Lembra quando eu tinha dez anos? Lembra? Eu te adorava de verdade. E, a única verdade que uma criança conhece, não diz respeito ao presente do dia de Natal concretizado quase que por milagre após uma carta ao Papai Noel. Criança também conhece verdade. Conhece sentimento. Ou tenta conhecer, porque, nessa fase, a gente aprende e desaprende. Chamam isso de tenra idade. Dizem que o espírito não está amadurecido.

Se pensarmos bem, tem muito adulto vivendo na tenra idade.

Sete de setembro era ocasião exclusiva, sempre – ou quase sempre. Ânimo para a luta, mesmo que as únicas lutas que tivesse travado na infância decorressem da palmatória, castigos e de esporádicas brigas escolares. Criança é ser ingênuo não porque deseje, mas porque o destino o quis. E mal sabia quantas lutas travaria na vida.

Nunca tive a menor dúvida; uma vez por ano, acordaríamos tão cedo quanto o habitual. Dormir mais nesse dia, por ser feriado? Antes mesmo de o galo cacarejar – isso que sempre moramos na cidade grande – eu pulava da cama seis horas da manhã, arrumava ela como um saber instrumental e alinhava soldadinhos de chumbo na vidraça da janela; escovava os dentes sem que alguém ordenasse e também tomava banho como se ele fosse um batizado. Depois, vinha o gel no cabelo, entrevendo-me a usar tua colônia mesmo que ela ardesse na pele lisa, sem barba.

Eu tentava ser homem. Eu tentava ser como tu, pai.

Com olhos de coelho, observei-te tantas e tantas vezes tomar o café e era capaz de vê-lo escorrer em tua garganta; o jornal, a paciência, o pão com manteiga deglutido, o relógio e sempre o relógio, até a hora de, finalmente, partirmos com bandeirinhas da pátria.

Nunca vi canhão, viatura ou cavalo aos milhares. Depois de certa idade, senti o toque de uma espingarda nos ossos de meu pescoço; o amargo odor de pólvora, a vida que passa de relance por nossos olhos.

Todos, um dia, crescem.

Mas falemos sobre o agora.

Ou sobre o antes.

Ninguém é refém de opiniões. Nascemos livres, não escravos. Foi quando nosso sete de setembro começou a escassear. Nossas mãos já não mais se uniam. As bandeirinhas? Enquanto tu erguias fortemente demonstrando amor à Pátria, sentia-me perdido ante uma multidão de homens e mulheres cuja química da união era o momento, nunca a verdade.

A verdade, pai. E eu te adorava de verdade.

Até que a verdade foi-me subtraída.

Tu ainda te lembras de quando tu tinhas dez anos?

Vejo-o convalescido. Traz marcas de sofrimento e angústia. Os tubos alimentam, fazem-te viver. Estou a ler e ler com calma e temperança e pergunto na caixa do inconsciente se és capaz de compreender uma única vírgula. A medicação, intravenosa; ou te cura; ou mata. Era isso o que dizias, não? “Tem coisas na vida, pequeno, que te curam ou matam. Se um dia tiver que escolher entre os dois, pense duas ou mais vezes. Porque viver em um mundo que te mata, é pior do que escolher a cura.”

É difícil amar, sabes? Não tem lição na escola, nem em casa, nem em lugar algum. Cada vez que te vejo entre essa rede de tubos penso que deveria estar em teu lugar, que os mereço no rol de intravenosas, porque hoje não é apenas sete de setembro, nosso dia, é a libertação de nossas almas enquanto dois prisioneiros de convicções políticas que se esqueceram de cada carinho que tu me destes, da mão que tanto segurou, do afeto somado à carícia de tantos e tantos momentos. Derrotados, ambos, numa batalha chamada família.

Sequer sei se podes ou não ouvir minhas palavras e, enquanto as lágrimas de arrependimento caem, penso que é tarde, que é cedo, que sobreviverás e, sobrevivendo, lerás essa carta de um sete de setembro e voltará a me amar, o filho e o pai, o pai e o filho, e, nesse amor, ambos souberam que o fim é iminente.

A enfermeira adentra no quarto, de modo abrupto, para verificar teus sinais enquanto leio; pede desculpas pela intromissão, enxugo as lágrimas; ela não tem motivos para manter aparências e pergunta-me se estou bem.

Pai: hoje é sete de setembro.

O desfile cívico. E, aqui estamos.

Pego tua mão enfraquecida. Debruço-me sobre teu corpo, sem recuar e vejo um homem à beira da morte. Em teu leito as lágrimas não desistem e talvez persista desconfiança no inconsciente de tua alma, a estranha mórbida suspeita dos convalescidos, até sentires, na pele de teu rosto, a incrível coragem que empunho em derramar não apenas o arrependimento, mas a vida em desculpas.

Lembra-te da música que começava com “pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue”, do Chico e do Milton? Foi quando tudo começou. Vai-te embora ou mude a música. Muda o ritmo. Deixei a barba e o cabelo crescerem e, nesse exato instante de leitura, a ti, bebo dessa bebida amarga, tragar a dor ao engolir a labuta? Ou tento o silêncio na cidade que não se escuta? Eles estavam certos? Dizias: “tanta mentira, tantos corrompidos”.

As únicas verdades residem no fato de que tu nunca admites tanta força bruta apesar de aplicar força bruta em nossa relação, até eu ser arrastado, pisoteado sem a ladainha de tuas recriminações, mas pela força física de mais de vinte soldados em busca do jovem que escutava Jim Morrison e era livre até o esmagamento da liberdade e consequente frustração cominada com amargura de tantos outros.

Tantos outros.

Sete de setembro. O desfile cívico. Nossas mãos agarradas. Unidas. O suor inaudível daquilo que alguns denominam apego filial.

Pai: não existe idade para nossas liberdades.

Na tortura daquelas noites, insistias para que eu me acordasse calado e nunca escutavas, nunca querias escutar, mesmo que meu silêncio era o maior de todos os sons e te pergunto, o que ganhastes? O pedido de um cálice afastado de um vinho tinto? Ou o medo de um filho que sempre amou ou tentou amar?

Tu estás calado, afastado dos cálices.

Hoje é sete de setembro. Lembra quando eu tinha dez anos?

Independência ou morte. Era isso o que tu, meu pai, me dizias.

E, na independência de minha morte, ouso admitir que nunca deixei de amar-te.

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Foto de perfil de Ana Carolina Guimarães Seffrin

Ana Carolina Guimarães Seffrin

Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria/RS (FADISMA); Mestra em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Escritora.

  • Zilair Nelly Figueiredo

    Adoro os textos da Ana. Sempre emotivos, profundos e muito bem escritos. ❤

    • Ana Carolina Seffrin

      🙂 Obrigada, Zilair. De coração.

  • Dailor dos Santos

    Ana!!! Grande e profundo texto!!!!

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