Death

“Não me prendo a querer viver pra sempre. Tudo deve adormecer, o corpo necessita descansar, assim como qualquer outra coisa em vida. Os panos descansam seus fios desfiados que um dia foram roupas finas, agora desgastadas. As flores morrem, o sol tornará fraco um dia a não se aquecer, o ar cessará do mundo e por que eu permaneceria eterno?

O corpo precisa morrer, não importa quando; seja morrer devagar ou depressa, sem rumo ou com, não importa. Seu prazo seja de 40 ou mais de 90, importância não há. Imagine um corpo eterno sem ida, que não viaja para lugar nenhum, imagine um amontoado de pessoas vivas eternamente, que com suas rotinas enjoativas (porque haveria um momento delas) se mantêm infindáveis, sem dominação de um fim ocorrer.

Os seres humanos se entreolhariam e se perguntariam; quando nosso corpo descansará? Quando fecharemos nossos corpos pra reforma da nossa alma? Quando entraremos em um novo plano? Quando?

Nesse mundo em que ninguém morre isso seria impossível, teriam distúrbios por ser eternos. Tentando se matar sem êxito nessa loucura, esfaqueariam-se uns aos outros talvez, porém sem ganhos nesse propósito de morrer para descansar. Envenenariam-se, se esbofeteariam até a morte, se debateriam, para tentar num desmaio profundo e quem sabe nunca mais acordar. Esse mundo de somente vivos, geraria acúmulo de pedaços de gente, pessoas acumuladas em si, cheias dos mesmos dias. Haveria um momento de se ter feito tudo, tudo, seus maiores desejos, seus piores; ido para todos os lugares, acumulados de dores, amores.

Prezado amigo, não me venha falar que estou sendo cruel em matar as pessoas. Não estou atirando ninguém ao precipício, estou doando almas a outra trajetória que não podemos lembrar que não podemos guardar.

A vida é uma escola em que se passa do jardim ao ensino fundamental e à faculdade. Olha que nem todos passam da faculdade, não ganham diploma, de alguma forma morrem antes, sem saborear o rumo que tanto almejou.

Se fechar os olhos e descansar pra si, amontoando seus cansaços na ampla cama de madeira envolvida do lençol de terra, deseje isso meu caro leitor, porque o pior exemplar da vida é não ter morrido.

É ter experimentado o sabor do nascer e nunca o término dela, porque viver é bom, mas descansar o corpo velho na paz é melhor ainda. “

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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