Corrupção de Estado, vagabundas concertações

Conhecemos as e os protagonistas da História recente do Brasil. Estamos informados sobre quem esteve fazendo o que e com quem. Sabemos que mais gente do que o imaginável desavergonhou-se, promiscuiu-se, fez de tudo.
Não obstante o contubérnio de bandidos com bandidos que gozavam as vantagens da mancomunação, muitos purgam os seus, dizendo-os mocinhos e a eles atribuindo honestidade particular no meio da patifaria geral.
É o caso da governante que sofre(u) impeachment. Ora, ela pode ser casta no vício de transferir dinheiro do erário para o próprio cofre, mas não é inocente na defraudação das contas públicas e na corrupção da própria eleição.
O passado temerário mais valente da presidenta é respeitável. Já a história de muitos dos deputados que instauraram o impedimento da mandatária da Nação é tão rasa quanto a sustentação de seus sins na votação.
Que sins de fundamentação mais vagabunda o Brasil teve que ouvir. Pois muito bem, dessa turma do sim, a parte mais significativa foi convivente enquanto quis da governante contra quem se abria processo.
Até os momentos antecedentes à votação diversos parlamentares, desses execrados por petistas, habitavam o Planalto, despachando com Dilma. Foram seus ministros, seus conselheiros; eram havidos por aliados e até amigos.
Essa gente prestava? Se era desonesta, por que estava no governo de quem se toma como da turma do bem? Se honesta, teria deixado de sê-lo por se afastar do poder e votar contra a situação que frequentou?
Doutro modo: O corrupto de hoje era honesto enquanto me servia e era servido por mim? Ou, o honesto que me servia e por mim era servido corrompeu-se por tão só já não mantermos relações com interesses afins?
O percurso público de cada sujeito desses é fartamente sabido. Supostamente, todos têm, para o bem ou para o mal, um padrão de ética. E seguramente esse padrão os acompanha, componham o governo que venham a compor.
A imprestabilidade de um político não será alegada desde quando tenha votado sim em um processo de impeachment, mas a partir do momento em que se deu a inscrever safadezas na própria biografia.
Algum cínico dirá que, no Brasil, é imprescindível compor com o pior conservadorismo e a mais ruim desonestidade, ou não se governa. Não é verdade, e, se fosse, não caberia fazer o discurso de oposição ao não oponível.
Seja: se o governante tem que ser imperativamente retrógrado e corrupto para governar, qual o sentido da campanha de oposição e a empolgação do poder? “Pra que trocar seis por meia dúzia”?
Maquiavel mal lido justificaria o que ocorre: “Os fins justificam os meios”. Mas, não. O lulopetismo não transitou por meios para chegar a algum fim. Os meios eram o fim. O governo se organizou em torno do saque ao erário.
Roubar foi uma disposição de vontade. A racionalidade weberiana da burocracia estatal foi adequada desfalcar. A corrupção foi feita política de Estado e em torno dela compôs-se um modo de governar.
No “modo” tradicional de defraudar o tesouro, roubava-se do governo. No “modo” lulopetista, os governantes roubam do governo. Há uma quadrilha, há um esquema, há o desvio sistemático de verba pública.
Rouba-se para pagar a base aliada, rouba-se para suprir a sanha de enriquecer, rouba-se para financiar corruptamente pleitos eleitorais, objetivando a sustentação perduradoura de um grupo no poder.
Dessa concertação restou o deprimente espetáculo da votação que estarreceu o Brasil: a estética feia das consequências da roubalheira, os despojos do fim de um sistema de poder fundado em alianças espúrias e corrupção.
O mais grave, contudo, era o projeto. O lulopetismo assaltava o patrimônio nacional; cooptava parlamentares; governava à margem da lei. Ávido de poder, esbulhava o Estado Democrático de Direito. Bem, parece, acabou.

por Léo Rosa de Andrade[1]

[1] Mestre e doutor em Direito pela UFSC, psicólogo (especialista em Administração e em Economia, jornalista). Professor da Unisul – Universidade do Sul de Santa Catarina.
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