Corpo: propriedade privada ou alugada pela estética?

Nosso corpo, em tempos dessa padronização moderna de beleza, não nos pertence mais. Somos locadores fornecendo nossa carne a variações de supostos clientes (estética) fazendo do nosso corpo uma experiência de encaixes sociais “adequados”.

Comprado pela sociedade dos corpos, o mundo “embelezatório” tornou-se dono da falsa perfeição.

O corpo não será mais meu após ser regurgitado para o meio dos padrões estabelecidos pela mídia. O comportamento da aceitação “berçária” (manter-se no seu corpo sem modificações estéticas) não se encaixando nos parâmetros corpóreos, não se misturará o imperfeito ao padrão social imposto. Essa é uma equação cujo resultado mostrará valores desregulados, diante da doentia satisfação por perfeição.

Existe o clã consumista, é negativado o corpo que se estender a se manter com a estrutura de berço, são tidos como o corpo covarde que ousa em ir contra as regras da incorporação da beleza, se manter no mesmo invólucro é minoritário (para a classe estética), ser minoria é ser excluído do mercado da aceitação da estética perfeita. Um ser único de várias identidades, assim o mundo da satisfação estética encaminha a muitos. Pequenas feras forçadamente transformadas em belas, patinhos feios em exagerados cisnes. Uma sociedade feita de corpos compostos de pedaços falsos, pessoas encaixadas em um ângulo doentio.

Não somos mais inteiros, viramos metades, pedaços, costuraram nossa demência junto a nossa razão, preencheram nossos vazios inexistentes com Botox e mais Botox, idealizando a cura da aceitação como ter corpos perfeitos. Esse é o caminho, sendo que é um caminho de falsidade consigo mesmo.

Corpos foram feitos para cair, chegarem ao ponto de descamação. Corpos foram feitos para sentirem a troca de tempo. O tempo não faz cirurgia, eis que esse sabe sentir a passagem com suas decadências e suas aprovações. Seria difícil nosso corpo aceitar o mesmo? Que o belo não necessariamente tem que se manter intacto ao tempo, a vaidade humana caminha por exageros sem pretensão de volta e o receio das pregas sob os olhos é enorme.

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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