Contra um inferno de boas intenções: um apelo ao voluntarismo moral de Pedro Abelardo

Uma expressãozinha que você já deve ter escutado muito nessa sua vida é aquela que diz “de boa intenção o inferno tá cheio”. Ela sempre vem naquele momento que você acredita ter feito a coisa certa em virtude do que buscava alcançar, acreditando-se também que o que você buscava alcançar era algo bom segundo o teu juízo e\ou dos demais.

Algo que me interessa nessa expressão é o fato de ela apelar para a noção de “inferno”, geralmente utilizada nas doutrinas e religiões judaico-cristãs como um lugar no plano espiritual para onde são enviadas as almas dos pecadores para serem punidas por seus pecados em Terra. Uma forma de coibir o comportamento que transgredir o conjunto de regras práticas daquela doutrina, talvez. Para apimentar essa discussão, então, achei interessante trazer o pensamento de um autor cristão do período medieval que, penso eu, pode contribuir para a reflexão acerca do que está em jogo quando são aplicados os juízos morais de culpa e responsabilidade, e tentar acalmar, ou não, as nossas pobres almas acerca do destino que as espera após esta vida.

Segundo o pensador cristão Pedro Abelardo, a noção ética de responsabilidade é baseada na intenção por de trás do ato. Nesse caso, o valor da ação estaria justamente no valor da intenção que se tem. Neste sentido, um camaradinha que realizasse uma ação injusta para com os demais sem a real intenção de realizar algo ruim, não seria julgado também alguém injusto. Ou seja, praticar uma ação má não caracteriza o agente também como mal se a intenção dele não era lesar outrem ou praticar qualquer tipo de mal.

Outro ponto a ser considerado é que aqui há uma diferença capital entre aquilo que poderíamos chamar de desejo e a intenção propriamente dita. Dentro do que propõe Abelardo, o mero desejo pelo mau não passaria de um pequeno “flerte” [essa expressão fica por minha conta], e não uma intenção propriamente dita, de modo que careceria de outro elemento, o consentimento para com aquele desejo, para que o indivíduo tenha a intenção na realização daquela ação. Pensar em algo que não é bom, não é de fato um pecado, mas um vício; uma inclinação àquela ação. O pecado consiste no consentimento do sujeito àquele desejo, ainda que não efetivado. A intenção seria a decisão efetiva da vontade do sujeito à realização daquela ação.

A culpa é, nesta perspectiva, algo diferente da pena. Assim, não haverá culpa se não se percebe o que se faz. A alma só é manchada pelo consentimento. A vontade antecede a execução do ato, logo não é pecado desejar algo se não consentir com esse desejo. Por fim, lembra que o pecado não está na lei proibida, pois alguém pode fazer aquilo que é proibido, sem saber. Isto chama a atenção para a importância do conhecimento do erro. Só será violador da lei, aquele que a conhece e mesmo assim consente com o desejo de violá-la.

De posse deste “geralzão” acerca do pensamento moral de Pedro Abelardo, acho mais do que justo colocar em “xeque”, a nossa querida expressão “de boa intenção o inferno tá cheio”. Esta expressão é um belo exemplo daquilo que seria o utilitarismo moral, onde o valor moral da ação estaria na própria ação e na consequência que ela traz. Abelardo nos chama a atenção para o fato de ser a intenção a mola propulsora dos juízos divinos, justamente porque através da intenção que buscamos alcançar é que podemos ver a escolha tomada pelo indivíduo. Isso fica mais evidente quando vimos que o desejo é algo diferente da intenção. Com efeito, a forma como a vontade do indivíduo se porta diante de um desejo que ele percebe como sendo um desejo para o mal é que vai caracterizar a escolha dele como má (pecado) ou não. Talvez, então, possamos chegar à conclusão de que, se Abelardo estiver certo, não há boa intenção no inferno, justamente por que o valor das ações está nelas.

Isso, contudo, não me acalma a mente filosófica. O julgamento moral para a decisão final do destino da alma humana (inferno ou céu), na perspectiva religiosa caberia unicamente a Deus, para quem as intenções e os desejos humanos não são insondáveis. Infelizmente, sondar as intenções de um indivíduo não é possível para nós, simples mortais. É por isso que dizemos que, ainda que o valor da ação não esteja na própria ação, é a partir delas que podemos julgar a conduta de uma pessoa. Algo que pode ser encontrado em outra expressão cotidiana, a do “diga-me com quem andas, e te direi quem és”. Se eu apelasse a Schopenhauer, por exemplo, me sentiria um pouco mais satisfeito, visto que para ele a responsabilidade mira, no fundo, ao caráter do indivíduo, que funciona dentro de um esquema causal que gera a ação. De todo modo, a teoria de Schopenhauer tem também os seus problemas, que talvez fiquem para outro post. O que vale lembrar daqui é que talvez Abelardo sirva muito bem como um “calmante para a alma” daqueles que temem os terrores do inferno em virtude dos resultados das suas ações. Não obstante a relevância intelectual do estudo da proposta de Abelardo, filosoficamente ele não parece responder muito acerca dos juízos morais mais comuns no nosso dia-a-dia. E isso é algo que me preocupa bastante.

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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