Consciência Social – Parte VI: A naturalização da violência

Nas últimas semanas, tenho me detido em leituras sobre Habermas e sobre sua Teoria do Agir Comunicativo. Entre os tantos artigos que li, um chamou-me a atenção. Não por se tratar necessariamente de um texto propriamente sobre Habermas, mas por apresentar uma leitura sobre a naturalização da violência na assim chamada pós-modernidade. Portanto, este texto que agora escrevo, não é de total autoria minha, mas sim, fruto da leitura e reflexão sobre outro, a saber: A razão entre a violência e a emancipação: um enfoque habermasiano. Deter-me-ei apenas sobre a introdução do artigo, onde Gilvan Luiz Hansen¹ apresenta um panorama de aspectos que permitiram a naturalização da violência em nosso meio. No final do texto, estará o link para download do citado artigo, bem como algumas leituras para quem possa interessar.

Findado o século XX, deparamo-nos com uma crise de identidade. Até aqui, a história da humanidade tem sido escrita a ferro, sangue e fogo. Ou seja, de todos os seres que povoam este planeta, somos o mais violento. E o que mais choca nesse panorama é o fato do ser humano considerar-se o ser mais racional sobre a face deste planeta, e aquele que, obviamente, deveria ser o mais pacífico. Porém, chegamos ao século XXI carregando o estigma de sanguinários e a dúvida sobre as “vantagens” de nossa racionalidade. Em outras palavras, o que a racionalidade tem acrescentado ao ser humano?

Se entre os gregos foi gestada a noção segundo a qual a razão era um esteio contra a violência e o seu abandono significava a opção pela barbárie, noção esta que acompanhou a história do pensamento humano durante milênios, parece que hoje, ao menos no entender de muitos intelectuais  autodenominados de vanguarda, a única alternativa para escapar de um mundo violento reside na deposição e no abandono da razão. (HANSEN, 2007)

Nota-se que a pós-modernidade aponta para a violência como consequência da racionalidade humana. E não é por menos.

A virada do século XIX para o século XX apresentou novas mudanças na estrutura da sociedade que acabaram por modelar – literalmente a ferro e fogo –  a geração que daria vida ao século XXI. Basta lembrar que, motivados por anseios econômicos principalmente, as potências europeias desencadearam duas guerras. Se até o século XIX as guerras eram disputadas em campos de batalha específicos e por soldados que representavam cada um dos lados envolvidos, longe dos centros urbanos, o século XX foi marcado por uma nova forma de fazer guerra. A população civil tornou-se alvo dos ataques militares e as pessoas que encontravam-se em territórios tomados de assalto por tropas inimigas passaram a enfrentar todos os horrores da guerra. Assim, morte, doença, violência, abusos, abandono passaram a ser comuns nos lares daqueles que não possuíam nenhuma relação direta com a guerra, salvo o fato de estarem em território inimigo.

Dessa experiência de violência e atrocidade foi surgindo um ressentimento e um desejo de justiça que foi traduzido como busca de reparação dos males cometidos na guerra pelo inimigo. Esse potencial de revolta, aliado à miserabilidade das populações exacerbou ainda mais os espíritos, os quais, tendo sido manipulados por grupos políticos locais, facilmente aderiram a propostas calcadas num nacionalismo fanático que apregoava uma espécie de resgate da dignidade pela punição de grupos identificados como culpados pela destruição: é o espaço de nascimento do nazismo e do fascismo. (HANSEN, 2007)

Utilizando a mídia e tendo o controle do Estado em suas mãos, o governo de Hitler tinha os aportes necessários para levantar a Alemanha contra seus inimigos. Toda a propaganda nazista foi pensada – desde os símbolos criados até a criação dos inimigos da pátria, principalmente os judeus – para unificar o povo contra um inimigo comum e em busca de um único objetivo: resgatar a dignidade do povo alemão. Utilizando do aporte concedido pelo Estado, o governo nazista pode exterminar todos aqueles que – dentro de seu território – mostravam-se resistentes ao novo sistema, alegando traição a pátria, crime de Estado e conspiração.

Além do quadro militar, a passagem do século XIX para o século XX consolidou o capitalismo como sistema econômico mundial. O resultado disso foi uma disputa acirrada – que culminou nas grandes guerras – pelo mercado internacional. As empresas expandiram-se e tornaram-se mais poderosas que as atuais potências políticas. Em outras palavras, o poder econômico nos dias atuais não está mais nas mãos de determinados países, como falsamente se acredita, mas sim no controle de poucas empresas sobre o mercado.

Como consequência desse processo, temos hoje um capital que se tornou transnacional e que é concentrado em investimentos em qualquer lugar do planeta onde existirem perspectivas de rentabilidade com segurança para quem investe, capital este que oscila de um canto a outro ao sabor das especulações em torno da valorização das ações da Bolsa de Valores. As empresas transformaram-se em megacorporações sem rosto, onde todos e ninguém são donos: os executivos são funcionários a administrar essa estrutura sem personalidade, orientados por apenas uma obscura meta: a lucratividade. (HANSEN, 2007)

Chegamos assim a metade do século XX com dois blocos competindo a soberania nacional: de um lado o EUA representando o capitalismo e do outro A URSS defendendo um sistema econômico socialista, deflagrando a chamada guerra fria e assombrando o mundo com a eventual possibilidade de uma terceira guerra mundial. Por fim, caindo o bloco socialista, o que restou foram poucos países de economia fechada e que não puderam mais fazer frente econômica ao capitalismo.

Chegamos assim ao século XXI.

O quadro social hoje observado indica um fenômeno paradoxal: por um lado, em face das pressões econômicas de um mundo globalizado, surgem blocos de cooperação que põem em xeque conceitos políticos tradicionais, como nação, soberania, autonomia, Estado; por outro lado, crescem os movimentos separatistas e os grupos defensores do nacionalismo baseado principalmente em diferenças étnicas ou religiosas, que via de regra fundam suas convicções na luta armada como meio de resolver conflitos. O elemento explosivo que dá o ‘tempero’ e o caráter dramático ao quadro acima é o fato de praticamente dois terços da espécie humana viver em situação de miséria extrema e estar alijada de qualquer perspectiva de melhoria de vida num prazo mínimo; tais pessoas já não têm nada a perder, dada a barbárie à qual são submetidas todos os dias. (HANSEN, 2007).

Acrescentemos a este quadro dantesco as frias cores da indústria cultural.

De fato, a passagem do século XIX para o século XX mostra-se – em uma leitura pós-contemporânea – problemática. A criação da bomba nuclear, a manipulação genética e as atrocidades cometidas nos campos de concentração nazistas,  colocaram a ciência em xeque, derrubando-a de seu pedestal de verdadeira guia para a sociedade. Mas a ciência não caiu sozinha. A mídia – ou a produção cultural – que não acompanhou de perto ou mostrou-se negligente frente às atrocidades das duas guerras viu seu papel ser questionado. Ainda mais porque, graças a ela, a violência passou a se tornar produto de consumo. Basta lembrar que grupos como a Marvel e a DC tiveram seu auge criando heróis que salvavam a humanidade no período caótico do pós-guerras.

O advento da indústria cultural e a explosão do marketing a serviço de finalidades políticas de grupos ou do Estado implementaram uma neutralização normativa das esferas sociais; a guerra passou a ser vista na televisão como um espetáculo passível de gerar diversão aos espectadores, a destruição e a violência receberam tons estéticos e ganharam status de atração nos jornais, revistas, filmes e telenovelas. Outrossim, o controle e a manipulação das informações acerca das questões que envolvem a vida dos indivíduos na sociedade fez com que se intensificasse o processo de massificação das opiniões. Com isso, a própria crítica dos eventos coletivos se tornou mais difícil de ser efetivada.  (HANSEN, 2007)

Por fim, o século XXI, marcado pelo advento da internet também é o século que faz da violência o principal conteúdo das emissoras de televisão. Os picos de audiência em telenovelas sobem sempre que uma cena de violência é apresentada. Sempre que possível, plantões jornalísticos são apresentados, cobrindo alguma ação violenta em algum local do globo terrestre. Criamos a necessidade de noticiar qualquer ato violento, não importa onde acontecer. Porém, ao mesmo tempo, a mídia seleciona a quem devemos prestar luto.

Temos hoje uma lista de inimigos públicos, regionais, nacionais e internacionais. A lista vai desde o traficante de determinada comunidade até o líder da maior rede terrorista do mundo. Olhamos para as intervenções militares da OTAN e agradecemos por haver países preocupados com a paz mundial, mesmo que a tal “paz mundial” ceife milhões de vidas inocentes. Isso não nos incomoda mais. Aprendemos com Rambo que todo o oriente é composto por terroristas. O 11 de setembro de 2001 confirma este axioma. Hollywood presenteia-nos anualmente com um cardápio de produções ressaltando a importância da supremacia bélica norte americana e a submissão global para a manutenção da paz mundial.

Por fim, faço menção ao filme a “Lista de Schindler”, onde em determinada passagem nos é apresentada a mais cruel das verdades da pós-modernidade: “nenhuma crise resiste a uma boa guerra”. Foi assim em 1929. É assim até hoje. A violência à qual somos submetidos diariamente não é de graça. Ela é um programa. Curiosamente, as duas maiores obras sobre a sociedade pós-moderna, a saber, 1984 (G. Orwell) e Admirável Mundo Novo (A. Huxley) retratam sociedades regidas por regimes totalitários, onde a liberdade e a criatividade são eliminadas a favor da eficiência econômica. Certamente, estes são tempos nefastos…

Indicações de leitura:

Dialética do esclarecimento (HORKEIMER; ADORNO);

1984 (ORWELL)

Admirável Mundo Novo (HUXLEY)

A razão entre a violência e a emancipação: um enfoque habermasiano (HANSEN)

Filmes:

A lista de Schindler;

Ele está de volta;

1984;


¹Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense e presidente do CEFIL (Centro de Estudos Filosóficos), no ano de 2007, quando publicou seu artigo.

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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