Consciência Social – Parte V: Problemas complexos, respostas complexas.

A ideia de expor minhas ideias sempre me deixou receoso. Uma porque prefiro pensar que pouco sei sobre qualquer assunto; assim, por vezes, acabo silenciando-me – escrevi sobre isso no texto Silêncio: entre a virtude e a falácia. Outra porque procuro encarar tais temas e situações de forma não parcial. Ao passo que escrevo essas primeiras linhas, já vislumbro um texto difícil de ser escrito em virtude das possíveis interpretações, visto que só por esse parágrafo percebe-se que 1) Ou sou um indivíduo em cima do muro, ou 2) Sou uma pessoa sensata. Ao final deste perceber-se-á que o intuito do mesmo estará intrínseco nas próprias contradições. E isso não é demagogia.

Ao que me parece, o animal homem – entenda-se ser humano – de pouco exercício filosófico, possui uma capacidade tremenda em “argumentar” de forma simplista e descomprometida com assuntos complexos. Tais como, insegurança pública, educação, ideologias e sobre o próprio ser humano, caráter, inteligência e afins. Não só isso, mas também de complicar e dificultar a própria vida em situações corriqueiras e que devem ser encaradas como fazendo parte da natureza inalcançável à modificação humana, tais como chuva, calor, frio, etc. Contudo, mesmo que tudo isso esteja em um pacote só, o que nos interessa é a primeira parte, isto é, o pensamento cartesiano.

Costumo dizer que a dicotomia que estabelecemos para qualquer coisa, apenas faz parte da didática, da facilitação do entendimento de tal temática, mas esquecemo-nos da unicidade da realidade. E aí mora o perigo.

Tratar de “tudo” ou “nada” é delicado porque remete-se ao absoluto. Então, tratemos da “maioria” e da “minoria”, do “pouco” e do “bastante”. Há algo, seja na realidade ou na metafísica, que não seja passível de contradição? Por mais que o emissor da informação seja o mais específico possível, mesmo na tentativa de eximir ao máximo a possibilidade de leitura diversa daquela intencional, “sempre” – ou nunca – haverá tal situação/condição em que alguém fará interpretação diferente, isso porque, – como escrevi no texto “Afinal, quem são os outros?” – todo e qualquer indivíduo tem 1) biologia/fisiologia/genética diferente; 2) Desenvolveu-se em meio diferente; 3) Aprendeu valores e condutas morais diversas. Por tudo isso, e mais um tanto, quando perguntado a um indivíduo: “de quem a responsabilidade por ser quem tu és?” Tratar-nos-emos por meio do método cartesiano? Pelo ponto de vista de apenas uma ciência e seus respectivos métodos? O ponto em comum a tudo isso, ao meu ver, seria a reflexão. Oh! Exercício sofrível.

Veja, estimado leitor, que toquei no termo ciência. Imagine agora levar todo esse parágrafo anterior para aquele indivíduo que preocupa-se diariamente com o que vai comer; de que forma irá dormir; como irá pagar as contas; qual a melhor forma de educar seus filhos…

Lembre-se de como é ser criança. Faça esse exercício e verás que tudo é aprendido; e agora pense que não se pode – ou não se deveria, ao menos –  avaliar a realidade social por meio das suas experiências, da sua empiria, sem antes uma criteriosa dose de reflexão e indagações a si mesmo.

Não há como viver somente por meio de uma perspectiva, porque entrar-se-á em conflito a toda hora com muitas pessoas. Como por exemplo, não há como pensar em mundo que vise somente a produção econômica e acúmulo de capital, pois para haver a economia é preciso que haja vida no planeta em que se habita; Não há como pensar um mundo somente pelo viés da produção artística, pois temos que nos alimentar, e se não houver ninguém que produza alimento? E se não houver pessoas que se sujeitem a limpar nossas cidades e recolher nosso lixo? Pensar de forma simplista e viver de forma inconsequente atestam a ignorância. Uma porque demonstram a incapacidade de reconhecer-se humano, falho e finito. Outra porque a lei do retorno, ação e reação, é uma dádiva da natureza. É preciso respeitá-la; e respeitá-la significa respeitar ao próximo e a si mesmo.

Portanto, há uma certa complexidade da ordem natural que a inteligência humana ainda parece ser pueril para compreender. Dizem que o que difere os humanos dos demais animais é sua inerente aptidão racional. Lastimável é perceber que é preciso (tentar) ensinar aos mesmos que (1) A morte é implacável à vida; (2) Tudo que é desenvolvido pela razão serve ao ser humano, não o inverso; (3) Cada um desenvolve a sua personalidade de acordo com o afeto que recebeu (recebe) – ou a ausência dele. Concluo momentaneamente que somos tão racionais – no pragmatismo que nos cega – ao ponto de não sermos inteligentes o suficiente para entender a simplicidade da vida.

Para quem se interessou pela reflexão, indico dar prosseguimento com “O ponto de mutação” (Bernt Amadeus Capra, 1991):

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Renan Peruzzolo

Reside em Concórdia - SC; Graduando de direito na Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Interessa-se por assuntos referentes à Ciência Jurídica, Filosofia, Ciências Sociais, Economia, Relações Internacionais, Geopolítica, História e Psicologia/Neurociência.

  • Ana Carolina Seffrin

    A responsabilidade por quem tu és; o Pequeno Príncipe diria que tu te tornas eternamente responsável por quem cativas e, partindo dessa premissa, somos igualmente responsáveis não apenas por aqueles que cativamos senão por nós mesmos. Lembra da teoria da tábula rasa de John Lock? Somos uma tábula rasa, um tabuleiro de damas sem as pedras, somos uma incógnita, mas isso não muda em nada o fato de que assim como somos responsáveis por quem cativamos, também somos responsáveis por nós mesmos. Nossas escolhas definem quem somos e, quando a escolha é errada, o passo primordial a ser dado é admitir o próprio erro tornando-se responsável por isso em um ciclo interminável. Sobre a questão das dicotomias; eu estava escrevendo um texto a respeito disso; vivemos numa glena dicotômica sem dimensões – e preocupo-me porque parece que o mundo não tem sentido sem ela. Então “Deus criou Adão e Eva”, surge a terra, o bem versus o mal, noite e dia, paz e guerra, o mal estar na civilização é que o inferno, parafraseando Sartre, somos nós mesmos. Buscamos dicotomias como lobos solitários à espera de reflexões inerentes à racionalidade. Questionar faz-nos humanos. No que diga respeito às suas conclusões – como a morte ser implacável à vida -, é certo que você daria um excelente pensador budista caso o desejasse. Essa é a mesma base teórica de reflexão búdica. Parabéns pelo texto; ele remete à algo que Hannah Arendt tentou com muito esforço dialogar: a condição humana. Apenas não se desespere caso você não encontre respostas para tantas perguntas. É natural reflexionar, em termos sociológicos e filosóficos, de tal forma. ❤️ Forte abraço Renan!

    • Renan Peruzzolo

      Fico imensamente feliz com suas palavras, Ana! Muito obrigado!

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