Consciência Social – Parte IV: Um passo político

Na terceira parte, quando Renan sabidamente faz uma reflexão sobre o termo ataraxia, ele, convidou-nos a refletir sobre as nossas futilidades. E parece-me que o momento não poderia ter sido mais oportuno. De fato, estamos no quarto texto, tangendo um tema complexo – Consciência Social – mas até aqui pouco ou nada de novo temos dito. Iniciamos com excelente introdução questionando-nos se a Consciência Social não nos lançaria no pessimismo. Em minha resposta, concordei porque a realidade atual – da qual devemos tomar consciência –  é por demais frustrante, decepcionante e pessimista.

Sabiamente, Renan deu sequência tratando do termo ataraxia. E sim, consciência social trata de tomar consciência de minha vida e minhas limitações. E aqui faço menção a Spinoza, que definiu liberdade como conhecimento de nossas limitações. Mas não desejo repetir-me no discurso e análise já realizada.

Minha inquietação hoje diz respeito – como a maioria do que tenho escrito – ao campo político. Fato é que podemos definir a esta altura da discussão que Consciência Social remeta-se a reconhecer a realidade, na qual nos encontramos e nos sentimos desconfortáveis.

E, caso minha definição esteja correta, será verdadeiro afirmar que a tomada de consciência é algo particular e singular – por mais que ela possa vir a se tornar um movimento social ou – em termos marxistas – em luta de classe. Mas a questão da singularidade da tomada de consciência parece-me ser algo a ser defendido aqui.

O que mais tenho presenciado hoje são “pseudo”. Como assim? Bem, refiro-me a falsos atos. Vejo hoje pseudoativistas, pseudo-movimentos sociais, pseudo alunos politizados. É quase como se a nossa década clamasse e gritasse por uma consciência que ela não possui. Defendemos a liberdade de expressão, por mais que ela opine sobre o que não há o que opinar. Relativizamos verdades e fatos históricos em prol da liberdade de expressão e da “pseudo-consciência social” do outro.

Ora, estamos extremamente equivocados em nossa busca e não percebemos. Parecemos cegos guiando cegos. Olhamos, mas nada enxergamos.

E os exemplos são gritantes. Alunos politizados são aqueles de opinião formada, que atuam de acordo com certos interesses e não aceitam a opinião e reflexão do outro. Movimentos sociais recheados por bandeiras políticas. Debates políticos tomados por politicagem. Ataques pessoais ao invés de argumentações.

Essa é uma época que, de fato, é estranha. Levamos para o nosso cotidiano a dinâmica das redes sociais. Acreditamos que a vida é um grande Facebook. Falo, escrevo e grito o que acredito estar correto. Se ofendo alguém, nem me desculpo. Afinal de contas, apenas agir conforme minha liberdade de expressão. É esse povo que está chato demais, cheio de mimimi. Em nome dessa pseudo liberdade de expressão propago discursos de ódio… Discursos estes que se proliferam e se espalham..

Em nome da conscientização do aluno, aulas políticas são organizadas e dadas… Mas, organizadas por quem? Por sindicatos, partidos políticos e militantes políticos… E pergunto-me: qual é o real interesse por detrás de todo esse teatro? Sim, porque essas aulas são também, pseudo aulas políticas. Elas de políticas não tem nada. Podem ser politicagem ou politicalha, mas não políticas.

E assim, vamos formando a opinião social, essa pseudo consciência social que cria movimentos de classe que carregam bandeiras partidárias. Nas palavras de Jayne Ramos, que colabora com nosso site com diversas reflexões oriundas de uma mente inquietante de uma adolescente, “se o movimento é social, por que precisa de bandeira política?”.

A quem interessa, apenas a opinião que me é útil está correta. Somente o aluno que simpatiza com minhas ideias e ideais é um aluno exemplar. Somente os atos políticos apoiados por meu partido estão corretos. Em tese, consciência social é, hoje em dia, ver o mundo a partir do ponto de vista da minha ideologia…

Ideologia… A palavra mais combatida e cultiva nas discussões (ou pseudo discussões?!) políticas de hoje. Motivo de brigas e rupturas políticas. Acusamos e somos acusados de ser ideólogos… Mas, nesse cenário atual, quem de nós não é refém de um conjunto de valores ideológicos? E aqui sugiro que assistam Matrix e V de Vingança…

Estamos equivocados, e no nosso equívoco, cegamos muitos…

Temos defendido que democracia é o governo que está na mão do povo. Temos que reformular este conceito e questionar-nos – se o ideal não seria o poder nas mãos do povo consciente?

Mas surge então uma nova questão: quem pode dizer-se consciente?

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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