Consciência Social – Parte II

Para realizar-se a leitura deste, recomenda-se  a leitura de Consciência Social – Parte I: Da utopia ao pessimismo.

Difícil discordar ou, em certo sentido, não parar para pensar sobre o que tens escrito. Afinal de contas, qual é o real motivo de nossa existência? Mas interessa-me agora o título: a Consciência Social enquanto senda ou caminho entre a utopia e o pessimismo. Interessantíssimo essa escolha de palavras. Sem dúvidas, eu não a faria de forma melhor. É-me agradável a definição de utopia dada pelo cineasta Fernando Birri e eternizada pelo escritor Eduardo Galeano:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Ou seja, utopia é aquilo que me motiva. No que tange a Consciência Social, pode-se afirmar que a utopia é o Estado ideal que buscamos, seja este político ou anarquista. É o que concebemos como ideal, como perfeito, como útil ou ainda como necessário. Mas é inalcançável. E por quê? Ora, o Estado não sou apenas eu. O Estado é um aglomerado de “nós”. Portanto, dicotomias tornam-se inevitáveis. Afinal de contas, cada ser humano é um aglomerado de utopias e é natural que o que eu idealizo enquanto Estado ideal difere do que você concebe. Porém, e aqui não estamos mais falando de ideias, é preciso que aprendamos a respeitar pontos de vista que divergem dos nossos.

Agora pergunto-me se o conflito de ideais não é justamente o que nos lança no pessimismo. Criamos planos, idealizamos sociedades, Estados, vidas inteiras… mas a realidade com a qual nos defrontamos é por demais amarga e cruel. Pessoas têm naturezas distintas. E, obviamente sonhos e objetivos distintos… Alguns sabem – ou será que aprenderam? – que a evolução social é alcançada apenas mediante colaboração mútua. Outros, entretanto, são poços de egoísmo. Isolados, frios e arrogantes, consideram-se acima e melhores que todos. Refugiam-se em suas bolhas ideais. Ali, recolhidos em seu próprio ego, cultuam a seu próprio umbigo como se fossem deuses, sem perceber que sozinhos não são ninguém.

Portanto, parece-me cabível e justo definir que – como bem mostrou Renan Peruzzolo – o pessimismo é consequência natural de todo ser humano. Criamos uma sociedade pessimista. A não ser que optamos pelo caminho mais fácil, por fazer “o milésimo gol na mesa de um bar”. Não são poucos aqueles que contentam-se com prazeres superficiais, líquidos, e amores que jamais passarão de uma ou duas noites. Tornamo-nos uma sociedade hedonista, onde o prazer é desculpa para nosso estado de inércia. Drogamo-nos diariamente. Seja de substâncias químicas; seja de relações vazias… Viciamos nosso corpo, nossa mente, nosso espírito. O sentido de nossa vida é a busca inconstante de prazer. Por fim, levamos vidas vazias, porque já não sabemos lidar com os extremos utopia/pessimismo. Buscar o sentido da vida é algo inútil porque a vida não tem sentido… ela é nada mais que decepção atrás de decepção… Então, só resta o prazer… E a realidade? Ela vem em pequenas doses, entre o mover dos olhos do celular para a televisão…

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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