Consciência Social – Parte I: Da Utopia ao Pessimismo

“Consciência Social” é o título de uma série de textos que serão escritos ao decorrer do tempo, conversas e reflexões, não só por mim, Renan Peruzzolo, mas também por Ricardo Luís Reiter – a priori.

Nos últimos dias venho escutando pessoas que convergem ao afirmar que estariam mais felizes se conseguissem ter um grau maior de alienação. Muitos irão pensar que esse texto é fruto de uma mente inquietante e indecisa de um jovem brasileiro desanimado com a situação política nacional atual; que acompanha, de certa forma, a classe do magistério, concomitantemente a uma área restrita do poder judiciário. Não quero me deter às burocracias e tecnicismos acadêmicos, haja vista que sou levado a crer, pela experiência, que a comunicação é um problema em si mesma, fazendo com que àqueles que eu justamente quero alcançar, não se faça possível; mas quero transcrever nessas linhas algo que me incomoda muito e imagino que a qualquer um que leve a sério o uso do seu próprio cérebro e tenta problematizar a vida em sociedade, tenha passado, ou venha passar algum dia, chegando à exaustão mental e conclusão que sim, é melhor ser alienado – a priori.

Tempos atrás, conversando com um policial militar aposentado, o mesmo lança-me tal inquietação: “às vezes ficava a pensar, ouve-se tanto nos noticiários desvios de milhões, lavagem de bilhões, aí eu abordava um indivíduo de pouca escolaridade, sofrido, porque ele estava a guiar um veículo com um farol queimado ou algo do tipo e tinha que aplicar multa… Mas ao mesmo passo, muitas vezes ouvira comentários do tipo ‘coloca o cinto [de segurança] porque senão é multa!’ e então eu ficava a pensar: o que leva esse indivíduo a pensar que ele deve usar o cinto de segurança porque, caso contrário, levará multa, e não porque é para a própria segurança e dos demais passageiros que, por vezes, é a própria família?”.

No Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania[1], setor em que faço estágio, inúmeras são as situações em que quem tem contato com o público em geral, por óbvio, com problemas a serem resolvidos, ao meu ver, deve se sensibilizar e procurar entender a situação; ao passo que é difícil compreender como jovens, que recentemente atingiram a maioridade, nos procuram para dissolver união estável, já com um ou mais filhos. Como pode um indivíduo que está a aprender a cuidar de si, agora tem a responsabilidade de educar, alimentar, cuidar e formar um pequeno ser? Poderíamos procurar um culpado para a situação, mas quanto mais nos aprofundamos nas questões dessa seara, percebe-se que não há fim, não há fundo. Aceitar a situação? Suicidar-se? Tornar-se alienado? Isolar-se?

Da mesma forma, parece-me que o ser humano, mesmo o mais alienado – a par das questões relevantes que dizem respeito à vida social -, procura algo com que se preocupar, mesmo sem ser algo “digno”. Quantas pessoas você conhece que acompanham novela e revoltam-se com tais situações representadas na mesma? Ou com o próprio futebol que, ao meu ver, é apenas um entretenimento, mas para alguns é tido como sentido da vida. Não faço juízo de valor, afinal, incentivo as pessoas a se conhecerem e tomarem consciência do que lhes faz feliz, contudo, tenho que admitir com o velho porreiro, Charles Bukowski, quando afirma: “Descubra o que você ama e deixe isso te matar”. – Em todos os casos, não acredito que esse seja o caso da abordagem do presente.

Ao que percebo, é que àqueles que lutam por um ideal, têm ânsia para efetivá-lo e aí acabam (1) frustrando-se e desistindo, ou (2) tornam-se fanáticos e extremistas; porque afinal, ninguém escuta o outro que diverge das suas convicções políticas. A cultura do litígio nos cega. Vemos somente aquilo que nos separa, mas não aquilo que nos une. É realmente difícil encontrar alguém que converse de forma racional sobre questões políticas e sociais, porque (1) existem aqueles que estão a par de tais situações, não se interessam, ou devido à responsabilidade da administração da casa, da carreira, da família; (2) outros, porque preferem estudar e defender apenas um lado da dicotomia que se estabelece, e aí acabo por concluir que, mesmo aqueles que desenvolvem sua intelectualidade, acabam por envolver-se emocionalmente na causa e deixam de enxergar o ponto de equilíbrio, a contradição que nos acompanha. No fim – acredito eu, na minha ingenuidade – muitos pensam querer o melhor, fazer o melhor, pois aquilo que pensam e defendem, é o melhor. Enganam-se. Lembrem-se: De boas intensões o inferno está cheio.

O que quero com este é transmitir às pessoas esse sentimento de que é preciso fazer algo, algo que esteja ao teu, ao meu, ao nosso alcance. Ter objetivos é preciso, melhor ainda se forem em prol da coletividade – agora, sim, permito-me fazer juízo de valor – e essas atitudes devem partir dos “semelhantes”, não porque seja um dever, mas sim, porque é preciso, pois, ao que me parece – e acho que não estou sozinho – aos que possuem, de fato, poder e competência legal para tal feito, não o fazem por priorizarem interesses próprios e/ou por comodismo. – E não dirijo tal crítica somente aos políticos, mas também aos empresários e servidores do judiciário e do poder público; obviamente, há sempre exceções, ou seja, deixo claro, sem generalizações.

Ou seja, é preciso que algo dê sentido às nossas existências; e é certo também que um certo pessimismo acompanha a todos, haja vista que a liberdade acarreta a agonia de tomar decisões. Nunca uma máxima tão conhecida e simples, nesse ponto, fez tanto sentido: Faça sua parte! Tens um cérebro, use-o! Questione!

Portanto, para dar o devido encaminhamento a este e prosseguir a reflexão aos interessados, deixo (1) uma frase de Henry David Thoreau, conhecido como pai da desobediência civil: “É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei”; (2) Uma sugestão de leitura, deveras curta, mas muito pertinente e sábia “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, de Étienne de La Boétie; (3) Um clássico latino americano, “Sólo le pido a dios”, na voz de Mercedes Sosa.

Em breve, a continuação de tais reflexões serão publicadas. Aguarde.

[1] Resolução nº 125 do Conselho Nacional da Justiça, de 29 de novembro de 2010. Dispõe sobre a política judiciária nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesses no âmbito do poder judiciário e dá outras providências.

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Renan Peruzzolo

Reside em Concórdia - SC; Graduando de direito na Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Interessa-se por assuntos referentes a Ciência Jurídica, Filosofia, Relações Internacionais, Geopolítica, Ciências Sociais, História e Psicologia/Neurociência.

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