Como ler e interpretar um livro/texto muito teórico? E como argumentar?

Este post é baseado no livro “Argumentação: a ferramenta do filosofar”, de Juvenal Savian Filho.

Ao nos aproximarmos de um texto devemos, antes de tudo, deixá-lo “falar”. Em outras palavras, isso quer dizer que, antes de o interpretarmos ou darmos nossa opinião sobre ele, devemos entendê-lo segundo a maneira como o autor o construiu. É muito comum que se desista de ler um livro por completo devido à sua rigidez teórica.

Vemos que a maioria das pessoas, quando lê um texto, já começa a falar sobre ele. Muitas vezes, elas nem sequer o entenderam segundo a ordem das razões do autor. Isso não é aceitável na atividade filosófica. Por isso, Juvenal Savian Filho propõe cinco passos para análise:

Primeiro passo: consiste em ler o texto inteiramente, mesmo que não entendamos tudo o que lemos. É claro que, em se tratando de um livro, devemos ir por partes (por capítulos ou por parágrafos). Nessa primeira leitura, devemos procurar identificar o assunto central do texto e fazer um levantamento do vocabulário que não conhecemos, marcando e anotando os termos desconhecidos.

Segundo passo: consiste em buscar o sentido dos termos desconhecidos. É preciso notar se o próprio texto não explica o termo, pois, muitas vezes, a definição é dada por ele mesmo. Se o texto não explica um termo, então recorremos a um bom dicionário.

Terceiro passo: consiste em reler o texto, em ritmo mais lento, para identificar os argumentos ou raciocínios do autor (seus pressupostos, premissas e conclusões). É nesse ponto que começamos a comparar nossas experiências do mundo com as experiências do autor. Chamamos a esse argumento ou raciocínio de “movimentos” do texto, pois representam os movimentos do pensamento do autor. O conjunto desses movimentos compõe o texto.

Quarto passo:consiste em enumerar esses movimentos, identificando a estrutura geral ou a armação do texto. Trata-se de uma visão de conjunto muito esclarecedora.

Quinto passo: consiste em relacionar o texto analisado com o restante da obra do autor e com o contexto histórico (época) por ele vivido, pois isso amplia nossa compreensão, na medida em que podemos ver correlações com fatos, pessoas, teorias, etc., importantes para esclarecer o pensamento do autor estudado. Isso não equivale a explicar o texto em função do contexto, como se alguém pensasse o que pensa apenas porque, no mundo de sua época, ocorresse alguma coisa que o determina. Se fosse assim, muitos filósofos ou cientistas não se teriam adiantado com relação a seu tempo. Trata-se apenas de, com o auxílio de dados já bem assentados (históricos, culturais, sociológicos, etc.), estabelecer conexões que aprofundem a compreensão do texto.

Eis os cinco passos na análise de texto:

  1. Leitura de texto, identificando o assunto principal e levantando o vocabulário desconhecido;
  2. Checagem do vocabulário, no próprio texto ou em um bom dicionário; 
  3. Identificação dos argumentos do autor;
  4. Enumeração dos movimentos do texto;
  5. Correlação do texto com seu contexto histórico.

Somente após esse trabalho de análise que podemos dispor do texto para interpretá-lo, concordando com ele ou discordando dele. Para entender de fato um texto, é preciso ter a paciência de descobrir seu mecanismo, sua estrutura.

E A ARGUMENTAÇÃO?

Sempre que tomamos posição sobre um tema, tentamos mostrar como nossas conclusões são verdadeiras ou, dito de outra forma, buscamos explicitar os motivos pelos quais pensamos o que pensamos. Acontece de forma igual com cientistas, filósofos, artistas em geral: eles esperam ser acreditados. É claro que não chamamos a ciência de simples opinião: embora algumas vezes elas sejam interpretações diferentes de um fato único, têm como objetivo de corresponder à realidade do mundo.

Quando expomos nossas opiniões, procuramos convencer. Diz corretamente Juvenal Savian Filho que o procedimento de convencer é comum tanto à mera opinião quanto à ciência. Exceto, naturalmente, se tentarmos convencer alguém pela força. Se, do contrário, procuramos motivos para justificar aquilo que pensamos e expomos, adotamos uma postura muito semelhante com o conhecimento dito objetivo. O aspecto em comum é a ação de convencimento, partindo de dados já adquiridos e chegando a conclusões bem justificadas. Esse procedimento tem um nome famoso: argumentação.

A argumentação do conhecimento, e até mesmo da ciência, que possui certo grau de certeza e não consiste tão somente em uma opinião bem defendida, é chamada especificamente de demonstração – mas elas também não podem ser consideradas definitivas (válidas para todo o sempre).

Esta atitude evita o nosso fechamento em um mundo autorreferente e egoísta, como diz Juvenal. Faz-nos buscar uma comunicação sincera com os outros. Ao perguntarmos a nós mesmos se o nosso interlocutor tem razão, interessamo-nos pelos argumentos fornecidos ao diálogo ou constatamos a ausência de bons argumentos.

Para analisar os argumentos, precisamos saber ouvir: nossa primeira atitude deveria ser a de perceber o modo como argumentações são construídas. É por isso que o autor (o supracitado Juvenal Savian Filho) publicou em seu livro (“Argumentação: a ferramenta do filosofar“) a lista, mais ou menos conceitual entre os filósofos ,das cinco maneiras de raciocinar:

  1. Partimos de experiências parecidas e repetidas, e elaboramos uma conclusão geral. Ou seja, categorizamos através de repetidas experiências. A este tipo chamamos INDUÇÃO.
    EX: Sabemos que toda água ferve a 100ºc.
  2. Outras vezes, partimos de certos dados já conhecidos e tiramos as consequências que estão implícitas neles. EX: “Todos os seres humanos são mortais”: João é humano. “Logo, ele é mortal”. Incluímos dados particulares num princípio geral. A esse tipo chamamos DEDUÇÃO.
  3. Um terceiro tipo é quando, guiando-nos pela sensibilidade para com certos sinais aparentemente não relacionados, chegamos a conclusões que fazem sentido. EX: como age um detetive. A esse tipo chamamos ABDUÇÃO.
  4. Podemos ainda estabelecer comparações explicativas entre situações distintas e raciocinar, então, por analogia. Ex: a rigor, “saúde” e “doença” são termos atribuídos a seres humanos, mas, como alimentos causam a saúde no ser humano, dizemos, por analogia, que eles também são “saudáveis”. A este tipo chamamos ANALOGIA.
  5. Algumas vezes, ainda, quando não somos conhecedores de determinado assunto, confiamos na palavra de quem o conhece. Deve ser, no entanto, uma autoridade nesse assunto (de nada vale utilizar o argumento de um sociólogo para falar de física quântica, por exemplo). A esse tipo chamamos de ARGUMENTO DE AUTORIDADE.

Para finalizar, deixo um pequeno esquema para se visualizar o quão bom são os seus argumentos: quanto mais acima da pirâmide eles estão, mais válidos são.

Para que um argumento seja sólido, é preferível que tenha introdução (do que se trata), desenvolvimento (evidências) e conclusão (resultado). Com este básico sobre argumentação, espero que você consiga reconhecer alguns tipos argumentativos e procure prestar mais atenção na argumentação de seus interlocutores.

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Lisiane Pohlmann

Uma forma de vida bípede baseada em carbono. Graduada em Filosofia, Administração e Serviço Social, especialista em Violência e Direitos Humanos, é pós-graduanda em Intervenção em Violência Intrafamiliar e trabalha com divulgação científica. Reside no Rio Grande do Sul.

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