Clonagem humana, princípio de individuação e identidade humana são incompatíveis?

Neste ensaio pretendo provar que indivíduo clonado não é o mesmo que aquele que lhe forneceu a(s) célula(s) necessária(s) para o seu desenvolvimento, para isso usarei o princípio de individuação para provar a independência desses indivíduos e apresentarei exemplos que justifiquem a tese da independência dos indivíduos envolvidos, ou seja, que ambos não podem ser o mesmo indivíduo. Para melhor compreensão desse texto usarei o que chamarei de uma linguagem técnica para esse texto. Chamarei de ‘indivíduo matriz’ aquele que cedeu a(s) célula(s) necessária(s) para a formação do outro ser, e chamarei de ‘indivíduo clonado’ aquele que recebeu a(s) célula(s) necessária(s) para sua formação como indivíduo.
            
         Como pretendo provar que ‘indivíduo matriz’ e ‘indivíduo clonado’ não são o mesmo utilizando o princípio de individuação é necessário uma breve exposição de o que seja esse princípio. O princípio de individuação nos diz que não podem existir duas coisas idênticas no mundo, sejam elas: objetos, pessoas, plantas, carros, qualquer coisa mesmo. Dois objetos quaisquer por mais idênticos que sejam terão características próprias suas, particulares, que se procurarmos bem não encontraremos no outro objeto, e quando falamos qualquer característica mesmo, pode ser um pequeno arranhão que não percebemos ‘a olho nu’. Contudo, para provar que ‘indivíduo matriz’ e ‘indivíduo clonado’ não são o mesmo, não pretendo me deter nesses pequenos detalhes que o campo filosófico se detém, pretendo me deter na questão em que cada indivíduo tomaria em determinada situação. Acredito que provando que cada indivíduo tomando uma decisão diferente em determinada situação seria uma comprovação mais forte da independência desses indivíduos do que uma simples característica particular que um indivíduo tivesse e outro não. Contudo tal característica já comprovaria a independência dos indivíduos envolvidos na questão.
 
O que é clonagem?
            
               A palavra clonagem pode parecer um termo recente, mas ele já é utilizado desde o início do século XX. O termo foi criado pelo botânico Herbert J. Webber no ano de 1.908 enquanto realizava pesquisas no Departamento de Agricultura dos EUA. A palavra ‘clone’ tem origem da palavra grega ‘klón’, cujo significado é broto vegetal.
            
              Clonagem é basicamente um conjunto de células, moléculas ou organismos descendentes de uma célula e que são geneticamente idênticos à célula original. Clonagem é um processo de reprodução assexuada cujo resultado são indivíduos geneticamente iguais a partir de uma célula-mãe. No caso dos seres humanos os clones são gêmeos univitelinos, ou seja, gêmeos idênticos.
 
Clonagem humana
            
             A questão sobre a clonagem humana vem sida muito debatida nos últimos anos, tanto no meio científica quanto no meio social em geral. Mas a questão que proponho é para que serviria a clonagem de um ser humano nos dias atuais? Qual a finalidade de se clonar um ser humano? Não quero me deter aqui a questão de que se deva deter ou não o conhecimento, algo que acredito que se faça necessário de se deter o conhecimento sobre a clonagem, contudo, não acredito que por determos o conhecimento devamos colocá-lo em prática, acredito que deva haver preceitos éticos que devam regulamentar a prática do conhecimento humano, ou seja, não é porque eu detenha tal conhecimento que o deva colocá-lo em prática.
            
                Nos dias atuais não vislumbro para que serviria a clonagem humana, pois a espécie humana não está ameaçada de extinção, pelo contrário nos reproduzimos cada vez mais. Se a alternativa para se clonar um ser humano for à ameaça de extinção essa questão estaria nula. Mas, se a questão for produzir um ser humano mais evoluído, ou digamos sob medida, por exemplo, como um terno, estaríamos ultrapassando o campo da ética. A ciência no decorrer da historia da humanidade já nos trouxe vários benefícios, contudo quando ela é utilizada de maneira equivocada (errada), ela pode acarretar muitas mazelas. Exemplos de uma má utilização da ciência não faltam. Bombas nucleares, armas de destruição em massa, esses são alguns exemplos do mau uso da ciência pelo homem. O mau uso consciente da ciência pelo homem deveria ser considerado antiético, pois se cometer um erro de maneira consciente para com outro indivíduo é crime, por que não devemos rechaçar o mau uso da ciência?
            
               As descobertas científicas deveriam servir para o benefício da espécie e do planeta em que vivemos, mas isso não é o que nos deparamos no nosso dia-a-dia. Pois sabemos que o desenvolvimento industrial vem destruindo a vida na terra e ameaçando várias espécies de extinção. Costumamos dizer que o homem é um ser racional e inteligente, mas muitas atitudes humanas não parecem ser racionais e inteligentes.
 
Distinguindo indivíduo ‘clonado’ e indivíduo ‘matriz’
        
        Imaginemos uma sociedade cujo desenvolvimento técnico-científico seja altamente desenvolvido e que se possam fazer inclusive cirurgias intrauterinas. Aceitando o fato de que tal sociedade é possível e que tais cirurgias também, podemos aceitar o fato de que seja possível a coleta de material genético necessário para a realização de uma clonagem humana. Após a retirada do material genético necessário para a clonagem é feita a fertilização do óvulo, teríamos de achar uma barriga-de-aluguel para o desenvolvimento do feto. Realizados todos esses fatos, basta apenas esperarmos o nascimento dessa criança, que será geneticamente idêntica à criança que doara o material genético quando era apenas um feto. Essas crianças nascerão apenas com algumas semanas de diferença.
            
                Digamos que após o nascimento dessas crianças seus pais biológicos venham a criar os dois. Que eles lhe deem todos os cuidados, carinho, educação e afeto sem distinção, sem preconceito algum. Esses dois indivíduos são observavelmente idênticos, altura, porte físico, características gerais idênticas, ou seja, não conseguimos distinguir qual é qual. Sabendo que ambos são tão idênticos, que ambos têm o mesmo material genético e que eles têm uma ligação intrauterina tão íntima, pois o material genético necessário para a formação de um deles foi retirado quando o outro era apenas um feto, sabendo disso, podemos afirmar que ambos são apenas um? Aceitando que sim, isso acarretaria que deveríamos aceitar que ambos tomariam sempre a mesma decisão em qualquer situação em que pudessem estar envolvidos, quando me refiro a qualquer situação é qualquer situação mesmo, por mais banal que pareça ser, por exemplo, um simples corte de cabelo, se ambos indivíduos estiverem em uma barbearia, ambos deverão escolher o mesmo corte de cabelo, pois se isso não ocorrer fica comprovado que eles não podem ser o mesmo indivíduo, pois tomaram decisões distintas sobre o mesmo fato, e um indivíduo não toma duas decisões em um fato em que é necessário que ele tome apenas uma decisão, por exemplo, um indivíduo não decide atravessar e ao mesmo tempo não atravessar uma rua, ou ele atravessa ou não atravessa uma rua, é incompatível que um indivíduo realize esses dois atos ao mesmo instante. Acredito que essa é uma forma simples de comprovar de que se tratam de indivíduos distintos, cada qual com sua personalidade, valores e crenças pessoais. Contudo não comprovamos que o indivíduo clonado tem uma identidade humana.
 
O indivíduo ‘clonado’ tem uma identidade humana?
            
                Digamos que o indivíduo ‘clonado’ não possa ser um ser humano, pois nem todos os passos do processo de surgimento da vida humana não foram dados, ou melhor, dizendo não foi um processo tradicional de fecundação humana. Pois houve uma manipulação laboratorial para que seu processo de desenvolvimento ocorresse. Aceitando o fato que ele não pudesse ser considerado um ser humano pelo fato de sua ‘origem’ se dar de uma manipulação de laboratório, estaríamos afirmando que todo ser concebido através de manipulação genética não poderia ser considerado um ser humano.
           
         Aceitando o fato de que seres que nasceram de manipulações genéticas não teriam uma identidade humana nos colocaria em um beco-sem-saída, pois muitos indivíduos cuja identidade humana é reconhecida deveriam deixar de serem considerados seres humanos, esse é o caso dos bebês de provetas, da inseminação artificial, pois os casos citados têm reconhecidamente uma identidade humana. No caso da clonagem humana, esse indivíduo também deve ter uma identidade humana, pois se trata de um caso idêntico dos citados acima.
   

por Marcelo Teixeira de Jesus

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