Cinema e Espaço

No século XIX o mundo testemunhou o nascimento da fotografia, uma tecnologia que permitia ao homem capturar momentos reais a partir de um processo físico e químico. A fotografia, assim como a pintura poderia ser subjetiva, dependendo de quem capturasse e com qual propósito. Assim como um retrato em tinta poderia dar ao modelo características de sua escolha (como força, importância e sabedoria), uma foto poderia também, dependendo do ângulo, da luz e da lente, proporcionar uma ideia subjetiva na mente daqueles que observassem a imagem.

Uma das principais preocupações da fotografia, além de capturar rostos e membros familiares, era a observação sistemática dos espaços sociais. Entre as primeiras fotografias tiradas no século XIX, vemos fotos de cidades tiradas de torres de igreja, ou castelos europeus, explorando dessa forma o espaço social urbano. O observador preocupava-se com fluxo de trabalhadores fabris, namorados e amantes nos parques, crianças na rua, pesquisadores nas universidades e políticos em suas deliberações diárias. Essa observância do espaço urbano, por fotógrafos e artistas pode ser explicada pelo fato de que esses homens e mulheres eram residentes dessas grandes cidades. A cidade sempre foi um local de mistura, de hábitos e de acontecimentos. Espaço para o comércio, a moda, dramas familiares, romance, política e mistério. A segunda revolução industrial daria o empurro final para prender o homem na cidade afastando-o cada vez mais do meio natural, logo o artista se preocuparia cada vez mais em observar e estudar esse ambiente.

A tecnologia fotográfica levaria no final do século XIX, ao desenvolvimento das primeiras câmeras fotográficas, capazes de capturar centenas de frames e armazená-los em rolos. A preocupação do cinema – logo por sua capacidade de capturar imagens em movimentos – seria além de capturar o cotidiano através da imagem, capturar também a mecânica dos movimentos diários. Os irmãos Lumière, pioneiros na produção de sequências cinematográficas, preocupavam-se principalmente com hábitos típicos das grandes cidades. Em seus primeiros filmes, vemos trabalhadores saírem de fábricas, passageiros em plataformas de trem, artistas circenses e transeuntes em seus movimentos quasi coreografados.

Ao contrário da fotografia, que durante o século XIX, e ainda boa parte do século XX se manteria como um luxo, acessível somente às classes mais abastadas da sociedade, o filme logo se popularizaria, afetando todas as classes sociais. Na década de 1910, novas técnicas surgiriam para impulsionar a atratividade do cinema. Filmes mais longos e mais complexos começariam a ser produzidos por diversos artistas. Nesse período a ausência do som contribuía para uma experiência puramente visual, apesar de algumas vezes donos de cinema incluir pianistas e violinistas para tocar em conjunto com o filme, dando origem a trilha sonora.

O cinema se popularizaria entre as classes urbanas. Diversos gêneros de filmes atrairiam para o cinema grupos diferentes, desde o burocrata governamental, o proletário fabril ou a dona de casa em suas horas vagas. O apelo do cinema para com as classes urbanas pode ser entendido como um processo de catarse. O enredo, o movimento e as imagens proporcionavam para essas populações a capacidade de escapar durante alguns momentos da realidade e habitar outros ambientes. A capacidade do cinema em reproduzir uma seqüência de imagens muito semelhante aos sonhos lhe empregaria uma qualidade mística na visão daqueles que assistiam aos filmes. Essas características do cinema e a sua preocupação com o espaço social criariam uma experiência única, o que diferenciaria o cinema dos livros e do teatro. A seqüência de imagens própria ao cinema, não respeita o tempo e o espaço, criando uma sensação de sonho ou pesadelo, ao mesmo tempo em que a capacidade de mostrar personagens e ambientes reais (ou que pelo menos, nos enganem quanto a sua veracidade) cria uma ambiguidade única, o real se torna irreal, e o irreal se torna real.

Quando falamos em cinema, não podemos escapar do fato de que o cinema é uma forma de arte tipicamente americana. Com os acontecimentos da 1° guerra mundial, o cinema europeu que se desenvolvia em conjunto com o estadunidense sofreu uma pausa violenta, enquanto o cinema do último pode ser desenvolver livremente. As imagens, as idéias e as concepções iniciais do cinema nascem do imaginário norte-americano. Segundo o filosofo e sociólogo Jean Baudrillard, é impossível pensar em cinema sem imaginar algo típico da cultura estadunidense. Os primeiros filmes como citamos anteriormente, se preocupavam com o espaço urbano, logo cidades americanas como Nova Iorque, Los Angeles e Chicago ganhariam as telas, transformando-se em ícones do imaginário global. Até hoje em dia essa preocupação se mantêm, basta assistir um filme americano qualquer, e potencialmente imagens aéreas serão mostradas, dependendo do ângulo mostrando a cidade como uma rede desconexa de ruas (Collateral (2004), Michael Mann), ou traçando um comparativo entre a cidade e a selva (King Kong (2005), Peter Jackson).

Essa preocupação do cinema com o espaço, não se restringe somente à produção das cenas e da ambientação. Se pensarmos o cinema gera uma série de relações com ambientes. Como uma forma de entretenimento em massa, o cinema se caracteriza por grandes ambientes (salas de cinema), para exibir as produções. Assistir um filme em um cinema e assisti-lo em casa utilizando DVD ou Blue-Ray, são experiências totalmente diferentes. Quando se assistir um filme no cinema coloca o individuo em um ambiente de interações sociais e mercadológicas totalmente diferentes das relações que o mesmo se encontra quando em sua casa. Essa experiência está na essência do cinema, que em seu inicio, os produtores de filmes exibiam suas produções em praças, teatros antigos e galpões de fábrica, tornando a experiência um evento social.

Além das questões apresentadas acima, o cinema também pode ser analisado através da globalização. Idéias e tendências, nas décadas do século XX anteriores a invenção dos Televisores, são transmitidas pelo cinema. Produções estadunidenses são exportadas pelo mundo todo, principalmente após o fim da 2°guerra mundial. O historiador Peter Burke, em seu livro Hibridismo Cultural, analisa o cinema como um veículo de trocas culturais, onde elementos fabricados pela classe dominante estadunidense são transmitidos ao mundo todo, pintando os Estados Unidos da América como um ambiente utópico, como a terra da liberdade e da prosperidade. Essa característica de criar uma fantasia sobre a realidade, não se estende somente ao cinema, a pintura, a literatura e o teatro também praticavam a moldagem do real para apresentar uma visão fantasiosa de determinados espaços.

Hoje, o cinema estadunidense está sofrendo com a crise econômica de iniciada em 2008, e seu foque tem sido em produções de baixo risco e altos lucros. Hollywood está passando por um revival dos anos 80, trazendo filmes dessa era para audiências atuais, “traduzindo” essas produções para a linguagem do cinema atual. Mesmo nessas produções mais voltadas para o lucro imediato, ainda existem essas preocupações e essas relações com o espaço. Hoje em dia, muitos assistem filmes através de sites como o famigerado Netflix, ou através de copias piratas disponibilizadas na internet. Esse novo jeito de assistir filmes, em celulares, tablets, computadores e notebooks vem forçando uma mudança de foco na indústria do cinema. A relação da audiência com o filme se transformou. Ao invés de sair da sala do cinema discutindo com outros espectadores sobre a produção, hoje ao terminar um filme muitos deixam um comentário num fórum, ou escrevem uma resenha em sites como o IMDB.

Essa nova mecânica do cinema, não é melhor ou pior do que as interações passadas entre publico e filme. Novos mecanismos e novas formas de se relacionar alteram a dinâmica de uma sociedade, o modo como ela se diverte e com o que ela se diverte. Se antigamente apenas alguns críticos podiam opinar sobre as produções em jornais e revistas, hoje todo espectador é um critico em potencial, o que inunda a internet de reviews e críticas muitas vezes infundadas e pouco construtivas. Conforme ainda não abandonamos o espaço urbano para voltar aos campos, pelo contrário cada vez mais indivíduos se mudam para cidades, a preocupação estética do cinema para com esse ambiente continuará.

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