Carta aberta a comunidade – precisamos salvar a educação

Boa noite!

Dirijo estas palavras a todos: governantes, sociedade civil, pais, alunos, comunidade escolar e colegas professores.

Estes são tempos tenebrosos! Tempos em que a educação, pilar do progresso de qualquer sociedade, está sendo fruto do descaso de maus governantes.

Não que isso seja alguma novidade. Historicamente a educação tem sido a última das prioridades de todos os governos. Salvo os jesuítas e Paulo Freire, jamais tivemos, em nossa história, um plano eficaz de valorização da educação do povo. Mas isso também não é novidade. Educar é dar poder ao povo. Poder este que certamente será utilizado para expurgar os ratos que corroem este país. Educar significa criar um povo livre de ideologias, liberto das amarras midiáticas. Um povo educado não é um povo que se submete à qualquer governo, mas antes um povo que causa pânico ao mau governante. Sim, educar é empoderar o povo, em todas as suas classes. E é óbvio que tal não é o interesse do governo brasileiro.

Porém, o que assusta é que este também não seja o interesse da população brasileira.

Fato é que a população deste país acomodou-se em sua ignorância. Contenta-se em viver em um senso comum de tal pequenez, que chega a acreditar que neste exato momento, com a prisão de Eduardo Cunha, não somos mais um país corrupto. E acredita nisto, nessa barbaridade, assistindo telejornal e chorando pelos dramas das novelas. Entristece-me ver que estamos tão acomodados. Este povo já não sabe mais lutar por conta própria… Tornou-se extremamente egoísta, refém de sua ignorância. Já não percebe que as lutas travadas por alguns setores da sociedade, como da educação, vão muito além da garantia de uma melhora em seus salários…

Ora meus amigos! Nós, professores, não somos tão egoístas… Sabemos os transtornos que nossas greves, protestos e ações causam. Jamais as faríamos se fosse apenas pelos nossos salários. O que acontece é que o parcelamento, ato realizado por diversas secretarias, e os salários abaixo do piso nacional são apenas a ponta desse iceberg chamado “descaso com a educação”. Quando nós, professores, decidimos lutar é por muito mais que nossos salários. É pelo futuro de vossos filhos que lutamos!

Sim, é pelo futuro deles que aguentamos vocês pais nos chamando de vagabundos. É pelo futuro de nossos jovens que aguentamos a sociedade dizendo que somos desocupados. É pelo futuro da educação de nossas crianças que aguentamos as punhaladas diárias que recebemos de governos, um após o outro, dizendo que temos privilégios demais. Ahhh, e como temos privilégios….

Somos a classe desmoralizada, que recebe salários parcelados, gritos de pais negligentes e planos de educação que visam exterminar qualquer possibilidade de criar senso crítico nessa juventude alienada e que não deseja pensar. E por que aguentamos tanto? Por que ainda lutamos, apesar do descaso geral com a educação? Não é mais fácil fingir que tudo está bem, virar as costas, entrar em sala de aula e passar qualquer coisa no quadro?

Claro que é!

Mas pergunto-lhes pais, governo e sociedade: se nós, professores, pararmos de lutar, quem lutará pela educação deste país? Vocês? Vocês que não poupam discursos de ódio contra os professores? Vocês que insistem em delegar para as escolas a função de criar e educar seus filhos? Deveremos esperar algum milagre do governo? Óbvio que não! Porque vocês, todos vocês são culpados pelas diárias violações que a educação vem sofrendo.

Cabe aos professores serem os últimos defensores da educação deste país… Mas eis que surge a pergunta que não quer calar: e quando cansarmos? Quando nos convencermos que essa é uma causa perdida, quem se erguerá para lutar em prol da educação? Os poucos alunos que ousam ocupar as escolas e universidades? Irão eles resistir? Por quanto tempo?

Neste fatídico dia, quando a educação for assassinada, reduzida a mero conteúdo bancário, quando o pensamento crítico for extirpado das escolas, substituído por doutrinação religiosa, alguns olharão para os alunos e sentirão saudade dos tempos em que ainda lutavam pela educação. Neste dia haverá um anseio enorme para que alguém chame uma greve, ocupe uma escola… Mas será tarde demais. Neste dia, a sociedade deverá viver com a dor de ter sido negligente quando a educação mais precisava dela.

Nós ainda lutamos! Apesar de todas as medidas dos governos para nos desencorajarem, nós ainda lutamos. Apesar de todo descaso e reclamações dos pais e alunos, nós persistimos na luta. Apesar de nossos colegas professores nos sabotarem (muitos já desacreditam nessa luta), nós continuamos lutando. Apesar de tudo o que a mídia diz e propaga, nós continuamos lutando. Por quanto tempo? Não sei… Mas continuaremos lutando.

Sou professor a menos de seis meses. Na primeira semana violaram meu direito de assumir em uma escola, porque a Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul deu preferência a um professor com contrato temporário. Depois disso tentaram tomar minhas 40 horas, reduzindo-as para 20 horas. Brigamos feio, ameacei levar a diante o caso da violação do meu direito em assumir na escola. Mantive as 40 horas. Levei um mês para receber meu salário referente as 20 horas. Trabalho desde julho como professor pelo estado. Até hoje, não recebi pago pelas demais 20 horas. Mas tudo bem, é vida que segue. Nesses meses tenho suportado parcelamento atrás de parcelamento. E piada atrás de piada, tanto do governo, quanto de pais, professores e sociedade em geral. Nem por isso deixo de levantar todo dia de manhã as 5 e meia, pegar ônibus e ir encontrar meus alunos que, quando chove não comparecem. A aula é ministrada, porque a vida tem que seguir…

Nesse meio tempo vi colegas chorando, ameaçados de despejo por não conseguirem quitar suas despesas mensais. Vi colegas dizendo que esse é seu último ano como professor. É a vida que segue. E segue conosco sonhando e esperando algo a mais.

Portanto, antes de abrir sua boca para reclamar das ruas trancadas, do seu filho passar uma semana sem aula, dos professores que são vagabundos, olhe para sua vida e reflita: quanto do seu sucesso hoje é atribuído aos professores que você teve?

Se você for honesto nessa reflexão, então certamente lhe verei na próxima manifestação em prol da educação. Se não for, durma com a consciência de que estas assassinando o futuro de seus filhos e netos…

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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