Apartheid, Ku Klux Klan e o Brasil: precisamos sim falar sobre Consciência Negra

Quando olhamos para a história mundial e fazemos o recorte da população negra nesta história (na história da humanidade), sempre nos recordamos da escravidão. E não poderia ser diferente. A humanidade tem uma dívida com a população africana que muitos querem renegar. Mas, o mais cruel da escravidão, é que ela deixou uma marca tão profunda na consciência humana e que tem consequências até os dias de hoje. A história contemporânea apresenta duas feridas na história da população negra, e que ainda não estão escravizadas. Feridas estas que nos lembram do quão profunda são as feridas deixadas pela escravidão no pensamento social mundial. Refiro-me ao regime racista que vingou na África do Sul desde 1948 à 1994, chamado de  Apartheid, e ao grupo extremista norte-americano, denominado Ku Klux Klan.

Apesar das atuais ações para combater racismo, preconceito e discriminação racial, é necessário lembrar que um dos assuntos mais discutidos na academia até o início do século XX foi o fato do negro ter ou não alma. E foi justamente esta discussão que deu base teórica e argumentativa para a escravidão em massa na África. Ora, uma vez não tendo alma, o negro era apenas mais um animal e assim deveria ser tratado.

Essa pode parecer, para muitos, uma discussão a muito já findada. Afinal de contas, hoje ninguém mais se arrisca a dizer, em público, que negro não tem alma. Mas, e quando não está em público? Permanecem até hoje resquícios e mazelas deste pensamento medieval, que parecem ter-se incorporado na cultura mundial. E essa nefasta bagagem fica mui clara sempre que acontecem catástrofes e atentados nos países Europeus, Estados Unidos e Japão. Nessas ocasiões, o mundo é convocado a unir-se em uma enorme corrente de oração, com direito a “textão” e troca de foto de perfil no Facebook. Mas, ao mesmo tempo, negligencia-se e esquece-se dos diários atentados contra a população negra. Atentados estes cometidos por governos negligentes e milicias na África, ou pela polícia militar, exército e traficantes nas cidades brasileiras. É nítido que, a sociedade que chora pelas almas mortas em atentados na França é a mesma sociedade que olha com descaso para as milhares de mortes diárias na África (que serve apenas para fornecer cacau, ouro e diamantes).

O Apartheid pode ter sido um governo legítimo na África do Sul. Contudo, mesmo banido hoje em dia, ainda é exercido de forma cultural em vários países, inclusive no Brasil, que tem, no Rio Grande do Sul, uma das populações mais racistas a nível mundial. Já o Ku Klux Klan ainda é um grupo ativo nos Estados Unidos, mas que tem uma grande parcela de simpatizantes em terras tupiniquins.

Muda o cenário, mas as atrocidades permanecem. Não é uma questão de tratar a população negra com piedade de coitadismo. É, antes de tudo, equilibrar esta balança. Mostrar e fazer valer a máxima de que toda a vida tem valor igual, seja ela branca, negra ou índia. Trata-se de desmistificar e banir da consciência social este desprezo étnico contra a população negra que perdura desde a idade média. Porque, no final, todos temos sangue negro: seja nas veias ou nas mãos…

E a mídia? Pede que olhemos para qualquer local onde não esteja escorrendo sangue negro pelo chão…

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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