AnaLito VI – Edgar Allan Poe

Como qualquer adorador de livros, toda vez que visito uma cidade nova, procuro a livraria mais próxima para adquirir alguns títulos. Com o pretexto de serem lembranças do local visitado, não me incomodo nem um pouco de gastar um mês de salário nos meus preciosos volumes. Durante minha última viagem, adquiri dois títulos: Scott Pilgrim Contra o Mundo III, do qual ainda pretendo falar informalmente, e a agora grande estrelinha da minha biblioteca, uma extensa coletânea de contos de Edgar Allan Poe.

Quem não se viu centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante, mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos com tal?

Particularmente, sou uma adoradora da postura e feição de Edgar Allan Poe. Sua sobriedade melancólica o torna misterioso e singular, de forma que seus contos não assustam tanto pelos fatos que neles ocorrem mas sim na forma que são apresentados, onde o autor provoca situações relacionadas ao absurdo dentro da aura do possível. A claustrofobia é carta marcada em seus textos, assim como os animais. Em homenagem aos últimos, discorro brevemente sobre meu conto favorito de Edgar, intitulado O Gato Preto.

E todavia, assim como tenho certeza de possuir uma alma vivente, é minha convicção que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades primárias e indivisíveis, um dos sentimentos que dão origem e orientam o caráter do Homem.

O Gato Preto é um conto que gira em torno do misticismo que este animal exala, porém, resultante das agressões e da mudança de caráter de seu dono, que por conta do alcoolismo e outros fatores tem sua alma bondosa transformada. O gato, percebendo isto, começa a apresentar comportamentos diferentes, e além disso, passa a irritar o homem com sua presença. O desenrolar da história é um aperto no estômago constante, tanto por ver a alma de uma pessoa outrora decente se desmanchando quanto pela pena que sentimos da mulher e do animal. A ganância, a perversidade e a sede de maldade levam o rapaz à não só cometer um crime, mas entregar seu próprio ouro. E o gato, feiticeiro como todo felino (tenho pra mim esta crença; ainda acho que os gatos vão dominar o mundo), é tanto estopim da ascensão quanto razão da queda do protagonista.

Um dos apelos mais interessantes de Poe em suas histórias relacionadas à animais é a forma como os trata. Geralmente, se mostram tão inteligentes quanto os seres humanos ou mais. Além do conto supracitado, títulos como Os Assassinatos na Rua Morgue e o belíssimo poema O Corvo demonstram um antropomorfismo diferenciado, não relacionado à postura nem fala mas puramente à inteligência. A indicação que reconheço na forma de escrita do autor é quase uma crítica à nós, que nos vemos e idealizamos tão superiores aos outros animais porque falamos e andamos sobre duas pernas, sem considerar que talvez apenas tenhamos tipos diferentes de inteligência. Somos petulantes quando pensamos na natureza como algo sob o nosso controle, e a leitura destes contos nos coloca em nosso devido lugar, tão vulneráveis quanto uma folha de árvore.

 

Fonte: https://goo.gl/MfMvdY

Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: “Existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o Corvo disse: “Nunca mais.

Dos aspectos do livro, posso dizer que sua leitura é extremamente agradável, visto que é segregado em contos, portanto, é possível lê-lo de pedacinho em pedacinho; contém belíssimas ilustrações e a tradução nada deixa a desejar se comparada ao texto original. Mas não irei me abster à isso, uma vez que praticamente todos os contos também se encontram disponíveis online (vide links abaixo) e existem vários outros livros do mesmo formato e relacionados ao mesmo autor. O importante, mesmo, é lê-lo, independente do meio utilizado. Edgar Allan Poe é uma referência porque não poderia ser menos que isto, visto que é capaz de aterrorizar nossas noites e mentes apenas manipulando coisas presentes no nosso cotidiano, e que é isto senão o mais puro e real terror, o medo do lógico, do presente? Os céticos que não temem fantasmas deliciar-se-ão; pessoas enterradas vivas, emparedadas, acomodadas em espaços minúsculos, a tortura e mortes inexplicáveis pintam quadros sombrios em nossas mentes, amenizados pela tristeza causada pelo reconhecimento das causas destes acontecimentos, onde as vítimas geralmente são pessoas inocentes. Costumo dizer, e acho graça, do fato que no terror moderno você pode reconhecer as pessoas que morrerão primeiro: geralmente são aquelas que estão no meio do ato sexual, ou em festas, ou planejando fazer algo divertido. Associa-se o “pecado” ao merecimento das torturas do terror contemporâneo, mas esquece-se da essência que, geralmente, os reais sofredores são os cordeirinhos de Deus, a mulher que é abusada, a criança que não consegue se expressar, os deficientes, os idosos, o homem que vai à guerra sem saber sequer empunhar uma arma direito. Muito antes dessa nossa nova era, Edgar já provocava estes pensamentos em seus escritos; o mal recai sobre quem ele quer recair, não escolhe corpo para abraçá-lo.

Concluo, querido leitor, disponibilizando aqui os sites dos três contos citados neste AnaLito. Agradeço pela sua leitura e espero-lhe mês que vêm!

Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Links:

Os Assassinatos na Rua Morgue
O Gato Preto
O Corvo

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Yasmin

Musicista, professora, escritora amadora e leitora profissional. Estudante de tudo que é interessante e curioso.

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