AnaLito IV – Um Copo de Cólera

Ninguém dirige aquele que Deus extravia.

Livros recomendados têm uma aura diferente daqueles lidos ao acaso. Ao ler um título indicado por um amigo, é impossível não reconhecê-lo nas páginas ou em algumas passagens; este é o caso do livro de hoje, caro leitor, indicado e emprestado por um dos fundadores do site. Tente não engasgar durante a leitura, pois esta obra lhe arranca o fôlego da forma mais brutal e poética possível. O AnaLito de hoje refere-se à Um Copo de Cólera de Raduan Nassar.

Primeiramente, é bom alertar: esteja preparado para ler o livro inteiro, de cabo a rabo, em um dia só. É impossível parar por se tratar de uma rapsódia cotidiana, repleta de raiva e problemas intrínsecos ao personagem principal, que aliás, não é nomeado, assim como sua companheira e os coadjuvantes. Isto o torna alguém tão especial quanto colérico – como traz o próprio título – que desconta seus problemas internos e pensamentos mais sombrios nas pessoas próximas, principalmente sua namorada.

Ela é aparentemente mais jovem, avessa ao senso comum, afiada e sensual, e sempre tem um rebate prontíssimo para as venenosas palavras de seu cônjuge. Um dos diálogos mais intensos e assustadores da trajetória se dá quando ela está indo embora em seu carro, onde um misto de emoções toma conta do protagonista e, assim, fica indeterminado quais eram seus reais sentimentos em relação à mulher, por mais que ele explicite o desejo de enganá-la. O rapaz é uma confusão caótica que explicita o quão demoníacos somos em nossas entranhas e quão insensíveis podemos ser em relação a quem nos quer bem mediante simples divergências, o que nos transforma, a longo prazo, em seres abandonados e à deriva dos nossos próprios medos.

Peço permissão, leitor, para divagar um pouco a partir desse momento.

Aprendemos desde cedo que o amor dói. Nada de novo sob o sol, afinal, qualquer decisão dói. Trabalhar, estudar, conviver com as pessoas nos machuca em diferentes níveis e aspectos. Mas qual parte do amor passional que realmente faz doer? A que diz respeito às futilidades, como a opinião alheia, as divergências na escolha do sabor da pizza? Ou a dor responsável pela abertura de nossos sentimentos? Penso que cada ínfimo dia, quando passado com a pessoa amada, deve ser comemorado. Passar por dificuldades corriqueiras ou monstruosas já é difícil quando estamos sozinhos; incluir alguém em nosso dia a dia também é incluí-la em seus problemas e sentimentos. Isso não é um pouco egoísta? Querer a pessoa perto, morar junto, visitar e ser visitado acarreta na convivência, e esta por sua vez é perigosa. Não é à toa que tão poucos casamentos durem anos hoje em dia. Cada vez menos nos sentimos obrigados a lidar com mais problemas além dos nossos. “Namorar firme” ou casar com alguém é um ato ou de muita coragem ou de muita burrice.

Os diálogos do livro explicitam exatamente esse paradoxo; a linha do amor e ódio é tênue e a leitura causa a impressão, bem acurada, eu diria, que estes sentimentos são duas faces da mesma moeda, pois ambas se apresentam com a mesma intensidade durante a narrativa. Sobre as cenas, basta dizer que toda a história se passa num lugar apenas, no mesmo dia. É o monólogo de um desesperado que se vê obrigado à discursar defronte às outras pessoas. É todo o sentimento arregaçado, tal qual a dissecação de um órgão já putrefato.

Mas, afinal, o que se passa? Simples – um diálogo entre o casal, com a eventual intromissão da cozinheira, do jardineiro e do cachorro do rapaz, mas, resumidamente, é uma história de duas pessoas tão apaixonadas quanto tristes, afetadas pelo cotidiano e possivelmente pela depressão. Ela se mostra uma pessoa sarcástica, porém carinhosa, tal qual animalzinho selvagem; ele, um show de horrores. A “graça” do livro é que, pela perspectiva de qualquer observador, toma-se o homem como louco, porém, como a narrativa é pessoal, acabamos por entendê-lo e até mesmo nos compadecermos dele.

Como já disse, o livro é curto, porém, não há como escolher apenas uma passagem para determinar sua qualidade; o texto inteiro é uma pancada no estômago. Faço, portanto, no final – ALERTA DE SPOILER! – pois sei que muitos irão se identificar com o drama vivenciado.

Após a postura venenosa do homem em relação à sua companheira, ela vai embora, e ele fica aos cuidados do jardineiro e sua mulher – além de seu fiel cachorro. Crendo ser o fim, o leitor se surpreende com o retorno da mulher e, mais que isso, com sua postura em relação ao acontecido, pois ela parece esquecer tudo ao voltar para ele e encontrá-lo, novamente, da mesma forma que no início do livro.

Nesse aspecto, vejo o título como uma referência tanto à situação em si quanto à extensão da obra – Um copo de cólera por ser um copo apenas, que eventualmente transbordou e no final encontra-se vazio novamente – Pronto para ser enchido e derramar indefinidamente. Pois não é assim que sobrevivem a maioria dos relacionamentos hoje em dia? Enchendo nossos copos com as atitudes e palavras da outra pessoa que mantemos para nós sem necessidade, apenas porque parece muito mais moderno guardar os sentimentos ao invés de expô-los?

Creio que devemos tomar cuidado ao lidar com nosso copo de cóleras. Na realidade mantê-lo vazio seria o ideal; porém, isso é utópico. O que não deveríamos, realmente, é enchê-lo até a borda; infelizmente, nossas tragédias cotidianas não têm finais tão belos como esse maravilhoso livro de Raduan Nassar.

Muito grata pela atenção, forte abraço e até o próximo AnaLito.

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Yasmin

Musicista, professora, escritora amadora e leitora profissional. Estudante de tudo que é interessante e curioso.

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