AnaLito III – A Revolução dos Bichos

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”

As férias, para mim, são geralmente preenchidas com a leitura que não tive tempo para realizar durante o restante do ano.  Nestas, em particular, encontrei na biblioteca um livro do qual sempre tive vontade de ler, mas não recordava de procurar. Rápido e rasteiro, além de extremamente didático – apesar de parcial -, é daqueles títulos que nos impossibilitam de largar antes de terminar. E aliás, quando termina, nos deixa boquiabertos, impressionados e revoltados. Acomode-se na sua cama de feno, querido leitor. O AnaLito de hoje trata do livro “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.

O conto começa com um velho porco, Major, que, à beira da morte, junta todos os animais da Granja do Solar para apresentar-lhes suas ideias revolucionárias e semear nos animais o desejo de mudança, para que livrem-se de Jones, o fazendeiro, e passem a ser autossuficientes, ou seja, produzir para o próprio consumo, criar seus filhotes sem que estes sejam comercializados, enfim, não ajoelharem-se para os humanos. Isto provoca nos animais o desejo de revolução, e após a morte do Major, os animais realmente tomam a fazenda, expulsando os humanos. Entre eles, há várias figuras importantes: Sansão, o cavalo que, ao deparar-se com dificuldades, diz simplesmente “trabalharei mais ainda”; Benjamim, o burro, que ao ser confrontado sobre suas opiniões a respeito da revolução diz apenas que os burros vivem muito tempo; o Sr. Jones, até então dono da fazenda, e sua mulher; e principalmente, os porcos: Napoleão, Bola-de-neve e Garganta são os mais presentes, e se propõem a tomar a frente na rebelião, uma vez que Major, o precursor, também era um porco. Tidos como os animais mais inteligentes da fazenda e, portanto, mais aptos a levar a revolução à frente, comandam os outros animais em suas atividades, aprendem a ler e a escrever e desenvolvem os sete mandamentos da Revolução dos Bichos:

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupa.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

Além disso, desenvolvem hinos e homenagens, além de títulos. Bichos da Inglaterra, cantada a quase todo momento por todos os animais, lembra-os de como é maravilhoso não servir a ninguém, apenas a si mesmos. Porém, Bola-de-neve e Napoleão começam a divergir sobre suas opiniões, e Garganta, que tem como papel levar avisos e comunicados a todos os outros animais, até então defende o “camarada Bola-de-neve”. Felizes, os animais veem um futuro maravilhoso e acompanham os debates dando suas opiniões. Neste tempo, ocorre a tentativa frustrada do Sr. Jones e seus companheiros de retomar a fazenda, impedida pelos animais comandados por Bola-de-neve. Neste momento, em decorrência da morte de uma ovelha, cria-se o título de “Herói Animal” e a ovelha é enterrada como tal.

Porém, as plantações não duram para sempre e algumas ações – como a moagem do trigo, a ordenha das vacas – tornam-se necessárias. Para tal, Bola-de-neve organiza esquemas de cooperação entre os animais e começa a planejar um moinho no chão de um velho celeiro. Napoleão opõe-se totalmente à ideia, falando que esta construção exigiria muito material e mão de obra. Num desses Domingos, mediante aprovação total do projeto por parte dos outros animais, Napoleão libera nove cachorros que, treinados desde filhotes por ele mesmo, perseguem Bola-de-neve e expulsam-o da fazenda. E a partir daí, a revolução começa a tomar outro formato.

Agora, leitor, uma pausa. Tome um cafezinho e tente relacionar esta história com alguma situação realmente presente na História mundial.

Talvez ajude relacionar Napoleão a Stalin e Bola-de-Neve a Trotsky.

Isto mesmo, senhoras e senhores. O livro é uma analogia à Revolução Russa, e o escritor notavelmente é trotskista. Por ter associado os comandantes à porcos, o livro foi proibido em diversos locais, porém, tornou-se base para outras críticas e até foi adaptado para outras situações. A própria orelha do livro traz o seguinte texto:

“Quando foi publicado, em 1945, depois de rejeitado por vários editores – entre eles o poeta T.S. Eliot -, A Revolução dos Bichos causou mal-estar no establishment literário e político da época, pois foi imediatamente percebido como uma sátira feroz da ditadura stalinista […]. Para agravar o desconforto, os líderes do regime totalitário da Granja dos Bichos eram os porcos – o que soou como uma ofensa direta aos dirigentes russos. De fato, a analogia era escancarada. Como não identificar nos expurgos, nos assassinatos, nos exílios e na distorção da memória histórica o que estava ocorrendo na União Soviética? Como não ver Stálin no despótico Napoleão e Trotski no proscrito Bola-de-Neve?”

A sequência da história, após a expulsão de Bola-de-Neve – e aqui é bom lembrar que o próprio Trotski foi afastado do partido Comunista, expulso da URSS e após assassinado por Ramón Mercader a mando de Stalin -, desenrola-se de modo a causar desconforto no leitor. Notavelmente, os porcos vão ganhando cada vez mais espaço, utilizam-se da casa onde o Sr. Jones morava, passam a consumir todo o leite e as maçãs produzidos na fazenda e comandam o trabalho dos outros bichos. Para não gerar desconfianças e tranquilizar os bichos, o porco Garganta – agora braço direito de Napoleão – demonstra com estatísticas, todos os Domingos, que a fome e o desconforto dos bichos é pura ilusão e que depois da saída do Sr. Jones tudo vem melhorando cada vez mais. Porém, não é o que acontece. Os alimentos, cada vez mais racionados, e o desconforto do trabalho sem remuneração, ou pelo menos um pouco mais de conforto, começam a afetar até mesmo os animais mais fortes, como Sansão.

Outro ponto forte na história é a construção do moinho. Após a expulsão de Bola-de-Neve, Napoleão passa a apoiar a ideia e os bichos, confusos, ouvem de Garganta que a ideia do moinho havia sido de Napoleão desde sempre, que Bola-de-Neve havia tomado-a para si, além de outras coisas que o porta-voz implanta na cabeça dos animais sobre ele: que na batalha contra os humanos, Bola-de-Neve estava do lado deles; que ele aparecia à noite para roubar alimentos; que estava infiltrado na fazenda do Sr. Pilkington, vizinho da agora Granja dos Bichos etc. Horrorizados com estas informações, os animais passam a temer Bola-de-Neve como se ele fosse um fantasma e passam a tratar Napoleão como camarada. Por fim, dá-se a construção do moinho por duas vezes. Na primeira, o moinho desaba por ter as paredes muito finas; na segunda, os humanos invadem novamente a fazenda e explodem o moinho com bombas. Nisso tudo, Sansão é o trabalhador mais fiel, que acorda mais cedo que os outros para trabalhar voluntariamente e é a motivação de todos os outros animais. Na terceira reconstrução do moinho, Sansão adoece, por já estar velho, e satiricamente é levado por um produtor de rações, e em sua carroça está escrito “Matadouro de Cavalos”. Os poucos animais que sabem ler tentam avisar Sansão, já dentro da carroça, mas ele é levado do mesmo jeito. Garganta afirma que na realidade o dono da carroça é um veterinário que havia comprado o veículo de um matadouro e ainda não havia repintado a madeira, mas que Sansão havia morrido depois de ter recebido todos os tratamentos possíveis e tinha deixado como mensagem que todos apoiassem o camarada Napoleão. Neste meio tempo, os animais parecem esquecer dos sete mandamentos, ou, pelo menos, ao relê-los, não lembram de certas partes. O mandamento 5, por exemplo, que diz Nenhum animal beberá álcool”, de repente é “Nenhum animal beberá álcool em excesso”, e curiosamente, o mandamento parece ter sido alterado logo após Napoleão ter consumido uísque em excesso. Várias outras situações semelhantes ocorrem, e os animais não conseguem mais lembrar como era a vida antes da revolução, mas confiam nas estatísticas de Garganta de que tudo está melhorando.

Com o moinho em pleno funcionamento, outras tarefas são atribuídas aos animais. Antes, havia uma promessa de que uma parte da fazenda seria cercada para os animais aposentados. Neste momento da história, alguns animais, como a égua Quitéria, já passaram dois anos de sua aposentadoria e nem se comenta mais sobre esta área. As ovelhas, que antes baliam aos quatro ventos “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, passam a balir “Quatro pernas bom, duas pernas melhor” a mando de Garganta, e em sequência os porcos passam a andar em duas pernas. Quitéria, agora cega por conta da idade, pede para Benjamim ler os mandamentos na parede. Nada mais está escrito senão a máxima “Todos os bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

Antes de concluir este AnaLito – e aliás, ALERTA DE SPOILER! – gostaria de propor ao leitor alguns artigos que permitam a compreensão integral do assunto tratado no livro. Os links estarão dispostos no final do post. De forma geral, percebe-se nitidamente que os animais da granja compõem a população russa da época: em necessidade social, viraram reféns de sua própria revolução. Garganta representa a mídia, uma vez que Stalin utilizou-se dela para sua promoção; o corvo Moisés representa a religião, que o porco Napoleão utilizou como motivação para que os animais continuassem trabalhando, pois este dizia que havia acima dos céus a Montanha de Açúcar-Cande, local onde os bichos que trabalharam durante a vida pudessem descansar; Major, o porco que previu a revolução, lembra Lenin; os cães, guardas de Napoleão, representam a KGB, e por aí segue a análise. Confesso que antes da leitura deste título, pouco interesse tinha em informar-me sobre este período da História. Porém, é impossível não compadecer-se com os bichos e até mesmo reconhecer-se neles e em suas necessidades, além de enojar-se com a manipulação dos porcos. A promessa comunista, no formato proposto por Karl Marx, não foi seguida por Stalin, o que de certo modo manchou os princípios teóricos. Esta situação demonstra ser a crítica do autor, e não o comunismo em si, uma vez que ele é socialista e ficou extremamente incomodado quando sua obra passou a ser usada como arma ideológica anticomunista, no período da Guerra Fria.

Como conclusão, não sou capaz de encontrar palavras melhores para expressar o final do livro senão o próprio texto nele contido, após Napoleão constituir relações com seres humanos novamente – o que sarcasticamente foi o motivo da agora tão antiga revolução. Portanto, dispô-lo-ei a seguir. Obrigada pela atenção, leitor, e até mês que vem, no próximo AnaLito.

Não haviam, porém, chegado sequer a vinte metros quando se detiveram ante o vozerio alto que vinha lá de dentro. Voltaram correndo e tornaram a espiar pela janela. De fato, era uma discussão violenta. Gritos, socos na mesa, olhares irados, furiosas negativas. A origem da briga, aparentemente, fora o fato de Napoleão e o sr. Pilkington terem, ao mesmo tempo, apresentado um ás de espadas. 

Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que se sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

Artigos de expansão:

THE NEW CAMBRIDGE MODERN HISTORY. Disponível em: <http://acervo.revistabula.com/posts/livros/livro-revela-como-foi-articulado-assassinato-de-trotski>

BELÉM, Euler de França. Livro revela como foi articulado o assassinato de Trótski. Disponível em: <https://books.google.co.th/books?id=LLg8AAAAIAAJ&pg=PA453&redir_esc=y&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false>

TROTSKY, Leon. On the Supressed Testament of Lenin. Disponível em: <https://www.marxists.org/archive/trotsky/1932/12/lenin.htm>

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Yasmin

Musicista, professora, escritora amadora e leitora profissional. Estudante de tudo que é interessante e curioso.

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